21.11.22

Sobre O Duelo, de Heinrich von Kleist

 



“Como todas as outras suas novelas, O Duelo não é uma narrativa sem tempo nem lugar, nela vemos homens e mulheres historicamente determinados, socialmente reconhecíveis, serem subitamente arrastados por um furacão que transforma as suas vidas e as converte num enigma: aquela que está inocente, Littegarde, encontra-se no ponto imóvel de uma tormenta, aí vê o mundo ruir, tornar-se demoníaco.” [Da Apresentação de Maria Filomena Molder]


O Duelo (trad. Maria Filomena Molder) está disponível em https://relogiodagua.pt/autor/heinrich-von-kleist/

20.11.22

Sobre Anna Karénina, de Lev Tolstoi

 



«Anna não é apenas uma mulher, não é apenas um esplêndido espécime de mulher, Anna é uma mulher de uma natureza moral completa, densa e importante: tudo no seu carácter é significativo e notável, e isto também se aplica ao seu amor. Ela não se limita, como outra personagem do livro, a princesa Betsi, a ter um caso escondido. A sua natureza, verdadeira e apaixonada, torna impossível o disfarce e o segredo. Ela não é Emma Bovary, uma provinciana sonhadora, uma ávida meretriz que se arrasta pelos lares desfeitos e pelas camas dos amantes.»


«E chegamos agora à verdadeira questão moral que Tolstoi queria fazer passar: o Amor não pode ser unicamente carnal porque deste modo é egoísta, e ser egoísta é destruir em vez de criar. O Amor é, então, pecaminoso. E de modo a tornar este assunto tão artisticamente distinto quanto possível, Tolstoi, numa vaga de extraordinária imaginação, descreve, em nítido contraste, dois amores: o amor carnal do casal Anna-Vronski (lutando por entre as suas emoções sensuais, mas fiéis e espiritualmente puras) e, do outro lado, o autêntico Amor cristão, como Tolstoi o quis chamar, do casal Kiti-Lévin, com os bens de natureza sensual ainda presentes, mas equilibrados, e em harmonia numa atmosfera de responsabilidade, carinho, verdade e alegria familiar.» [Do Posfácio de Vladimir Nabokov]


Anna Karénina (trad. António Pescada) e outras obras de Lev Tolstoi estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/lev-tolstoi/

Samantha Rose Hill em entrevista

 



«Rejeitava todo e qualquer pensamento ideológico. Denunciou o anti-semitismo e os excessos do sionismo. Criticou o totalitarismo (quando viu o parlamento alemão a arder, em 1933, soube que tinha de agir) e descreveu, com enorme actualidade, como ele se instala nas sociedades. Defendeu que o mal pode ser uma prática banal e burocrática – e pôs meio mundo intelectual contra ela. O pensamento de Hannah Arendt foi fecundo, tanto como a sua vida, marcada pela perseguição nazi aos judeus e pelas ligações a gigantes do pensamento e das artes, de Martin Heidegger a Walter Benjamin.

“Hannah Arendt — Uma Biografia”, livro editado pela Relógio D’Água, conta a vida de uma das mais importantes filósofas do século XX. A autora, a norte-americana Samantha Rose Hill, membro sénior do Hannah Arendt Center for Politics and Humanities, com sede em Nova Iorque, tem dedicado boa parte da sua investigação à pensadora nascida na Alemanha, em 1906. É convidada da iniciativa Meet the Author, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e do Público, no dia 29 de Novembro, pelas 18h30, no auditório da FLAD, em Lisboa.

[…]

— O que a atraiu em Hannah Arendt para fazer dela o seu grande tema de estudo?

— Apaixonei-me por Hannah Arendt quando era caloira na universidade. Descobri A Condição Humana [1958] por acaso, na biblioteca. Tinha uma linguagem diferente de qualquer livro de filosofia política que já tinha lido — e eu lia Nietzsche desde os 13, lia Hegel… Ela escrevia de forma tão bela: é uma pensadora poética.

Passei a maior parte da minha vida universitária a estudar Arendt e os seus antecedentes.» [Pedro Rios, entrevista a Samantha Rose Hill, Público, ípsilon, 18/11/22: https://www.publico.pt/2022/11/18/culturaipsilon/entrevista/vemos-qanon-elementos-ideologia-hannah-arendt-descreve-2027752


Hannah Arendt, de Samantha Rose Hill (trad. Margarida Periquito), está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/hannah-arendt-uma-biografia/

As obras de Hannah Arendt editadas pela Relógio D’Água estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/hannah-arendt/

Sobre O Silêncio, de Don DeLillo

 




De uma das vozes mais ousadas e essenciais das letras norte-americanas, nasce este novo romance, onde, num futuro próximo, cinco personagens se reúnem num apartamento em Manhattan durante um evento catastrófico. 

DeLillo completou-o semanas antes da pandemia de Covid-19. E, apesar de retratar uma catástrofe diferente, nele podemos encontrar um misterioso consolo para o que hoje acontece. 


É domingo de Super Bowl, em 2022. Cinco pessoas jantam num apartamento

em Manhattan. Uma professora de Física reformada e o marido, em companhia de um ex-aluno, aguardam a visita de um casal amigo que chega após um voo dramático de Paris. A conversa varia entre um telescópio situado no centro-norte do Chile, marcas favoritas de whiskey e o Manuscrito de 1912 sobre a Teoria Especial da Relatividade, de Einstein. 

Até que, subitamente, algo acontece, e as conexões digitais que sustentam

o mundo actual são interrompidas. O que se sucede é uma conversa, profunda e emotiva, sobre o que faz de nós seres humanos. 

Nunca a arte da ficção se tornou um guia tão premente para este mundo desconcertante. E nunca a presciência, a imaginação e a linguagem de DeLillo se revelaram de tal modo reveladoras e essenciais.


«Misterioso e inesperadamente tocante. DeLillo oferece-nos consolo através do seu entendimento do mistério do mundo real.» [The New York Times Book Review]


«Ousado, provocador e requintado. Capta os medos crescentes da nossa era.» [The Washington Post]


«Uma obra-prima. O seu efeito é transcendente.» [Chicago Tribune]


«Este livro absorve toda a obra de DeLillo e transforma-a em pedra ou cristal.» [Rachel Kushner]


O Silêncio (trad. Paulo Faria) e outras obras de Don DeLillo estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/don-delillo/

Em breve a Relógio D’Água publicará também Ruído Branco.

19.11.22

Sobre Estado de Crise, de Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni

 



A crise mais séria da modernidade, a de 1929, iniciada nos EUA e depressa alcançando a Europa, foi habilmente contornada pelo Estado. Mas a crise pela qual hoje passamos é diferente. No mundo globalizado, os governos mostram-se cada vez mais impotentes para a resolver, e os cidadãos, cada vez mais insatisfeitos com os seus governantes.

Neste livro, Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni debruçam-se sobre o atual contexto para debater esta nova e nada passageira crise mundial, fazendo uma análise inédita das questões que a sociedade líquida enfrenta. Estado de Crise é uma obra fundamental para entender o presente e encontrar caminhos de futuro.


Estado de Crise, de Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni (trad. de Renato Aguiar), e outras obras de Zygmunt Bauman estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/zygmunt-bauman/

Sobre O Passageiro, de Cormac McCarthy

 



«Numa das raras entrevistas dadas por Cormac McCarthy perguntaram-lhe se ele conseguia explicar como potenciar uma ideia durante o acto de escrita, já que ele sempre descreveu esse acto como inconsciente. McCarthy respondeu: “É como o jazz. Eles criam enquanto tocam, e talvez só aqueles que o sabem fazer possam compreender isso.” Esse sentido de improviso, de qualquer coisa selvagem que se vai formando e da qual tentamos apanhar o sentido que parece quase sempre escapar, talvez nunca tenha sido tão evidente num livro de Cormac McCarthy como neste O Passageiro, romance publicado pouco depois de o escritor completar 89 anos.

É um objecto esquivo, meio indomável. As críticas publicadas nos jornais anglo-saxónicos, os primeiros a terem acesso ao romance que faz parelha com Stella Maris — a sair em Portugal no próximo mês de Dezembro — têm abusado de adjectivos na tentativa de ajudar a arrumar ou identificar o livro enquanto produto narrativo: estranho, sombrio, caótico, obsessivo, alucinante, demencial, imperceptível. E, ainda nesse sentido — o de auxiliar de enquadramento —, têm-no comparado no estilo ou tom a nomes tão distintos como os de Thomas Pynchon, Don DeLillo, James Ellroy, William Faulkner, Philip Roth e até, de uma maneira um pouco depreciativa, a H. P. Lovecraft. Todos escritos de uma cerca América, todos às voltas com a linguagem enquanto acerto e desacerto na tarefa de tentar entender a natureza humana num determinado tempo e lugar. Mas o termo “estranho” é de todos o mais repetido, para o bem ou para o mal, quando diante do inusitado que é O Passageiro.

É um livro estranho. E muita dessa estranheza talvez resulte do bastante que se especulou e esperou desde que a editora norte-americana de Cormac McCarthy anunciou em Março deste ano que ia publicar ainda em 2022 dois novos livros do autor de A Estrada. Como seriam estes últimos Cormac McCarthy? A fasquia estava muito alta e o silêncio foi longo. Passavam-se nada mais do que dezasseis anos desde que saíra precisamente A Estrada. Publicado em 2006 e vencedor do Pulitzer em 2007, era o livro do apocalipse, uma grande obra de um dos maiores escritores não apenas de língua inglesa; alguém no Olimpo dos escritores mundiais, há muito nobelizável, que construiu para si mesmo uma aura mítica ao tornar-se cada vez mais recluso, avesso a entrevistas ou a palestras literárias, avesso desde  sempre a falar da sua obra.» [Isabel Lucas, Público, ípsilon, 18/11/2022: https://www.publico.pt/2022/11/18/culturaipsilon/noticia/perdicao-selvagem-cormac-mccarthy-2027879]


O Passageiro (trad. Paulo Faria) e as obras de Cormac McCarthy editadas pela Relógio D’Água estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/cormac-mccarthy/

18.11.22

Sobre Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

 



«Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes, mal apagava a vela, os olhos fechavam-se-me tão depressa que não tinha tempo de pensar: “Vou adormecer.” E, meia hora depois, era acordado pela ideia de que era tempo de conciliar o sono; queria poisar o volume que julgava ter nas mãos e soprar a chama de luz; dormira, e não parara de reflectir sobre o que acabara de ler, mas tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto especial; parecia-me que era de mim mesmo que a obra falava…» [Primeira frase de Em Busca do Tempo Perdido, volume I, tradução de Pedro Tamen]


Em Busca do Tempo Perdido é um livro que tem, nas palavras do seu autor, «a forma do tempo».

E, na verdade, o que distingue este romance é o reforço da sua concepção da memória como recriadora do passado. É isso que permite o misterioso encanto da narrativa e o tom de dolorosa nostalgia em que o passado envolve o presente.

Mas o recurso à memória involuntária faz com que Proust nunca transmita uma realidade de que a sua imaginação esteja ausente.

Ainda muito jovem, conhecia de cor todos os pormenores da vida das damas que tinham frequentado os salões de Paris desde o século xvii, como Madame La Sablière ou Madame de Staël.

E foi precisamente à sensação da decepção em relação ao imaginado que ele sentiu nos salões parisienses que foi buscar muitas das personagens que povoam o seu universo ficcional, onde o amor e o ciúme ocupam o lugar central.


Em Busca do Tempo Perdido (trad. Pedro Tamen) e Sobre a Leitura (trad. Miguel Serras Pereira) estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/marcel-proust/