13.3.26

De Patañjali e o Yoga, de Mircéa Eliade

 «Yoga, jungere, jugum


Não é fácil definir o Yoga. Etimologicamente, o termo Yoga deriva da raiz yuj, «ligar», «manter unido», «jungir», «pôr sob o mesmo jugo», de que provêm também o latim jungere, jugum, o inglês yoke, etc. O vocábulo Yoga serve geralmente para designar qualquer técnica de ascese e método de meditação. Evidentemente, tais asceses e meditações foram valorizadas de forma diferente pelas múltiplas correntes de pensamento e movimentos místicos indianos. Existe um Yoga «clássico», exposto por Patañjali no seu célebre tratado Yoga-Sûtra, e é deste sistema que deveremos partir para compreender a posição do Yoga na história do pensamento indiano. Paralelamente a este Yoga «clássico», existem, todavia, inúmeras formas de Yoga «populares», assistemáticas, e existem também os Yogas não bramânicos (por exemplo, o dos budistas, o dos jainas).» [p. 11]


Patañjali e o Yoga (trad. Elsa Castro Neves) e O Sagrado e o Profano (trad.  Rogério Fernandes) estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/mircea-eliade/

12.3.26

Sobre O Mosteiro, de Agustina Bessa-Luís

 «No romance, o início do período áureo de S. Salvador e do mosteiro que a domina é datado de 1578, ano do desastre de Alcácer Quibir. Não é coincidência: “[a]té aí, as rendas do convento beneditino eram devoradas pelos seus padroeiros”, depois “o vale respirou, liberto da expropriação dos usurpadores”. Dentro da filosofia (chamemos‑lhe assim) do livro, também não é coincidência que um momento nefasto para a nação seja tão favorável para aquele lugar. Finalmente, também não é coincidência que Belchior, desde cedo interessado pela História, se empenhe intelectualmente na realização da sua obra sebástica. Esse estudo histórico‑psicanalítico constitui a quinta e última parte do romance, intitulada “O Medo”. Estas “coincidências” autorizam a que vejamos em S. Salvador a antítese desse Portugal sebastiânico que aspira às estrelas e cava a sua própria sepultura, que almeja novas glórias e perde a independência.» [Do Prefácio de Bruno Vieira Amaral]


O Mosteiro e outras obras de Agustina Bessa-Luís estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/agustina-bessa-luis/

De Abraço, de Anne Michaels

 «Histórias contadas num campo de batalha, num bote salva‑vidas, na enfermaria de um hospital à noite. Num café que desaparecerá antes do alvorecer. Alguém ouve inadvertidamente. Alguém escuta, atento, com todo o seu coração. Ninguém escuta. A história contada a alguém que está a adormecer, ou a perder os sentidos, para não mais acordar. A história contada a alguém que sobrevive e que contará essa mesma história a uma criança, que a escreverá num livro, para ser lida por uma mulher numa época ou num país que não são os dela. A história contada a nós próprios. A confissão emocionada. A meândrica e repetitiva busca pelo significado de um gesto, de um instante que toda a vida escapou à compreensão de quem conta. Histórias incompreensíveis para quem as ouve e que, não obstante, são acolhidas — pela escuridão, pelo vento, por um lugar, por uma compaixão impercetível ou despercebida, até pela indiferença.

O que damos não nos pode ser tirado.»

[pp. 19-20 de Abraço, de Anne Michaels, trad. Marta Mendonça]


Abraço, de Anne Michaels (tradução de Marta Mendonça), está disponível em https://www.relogiodagua.pt/produto/abraco-finalista-booker-prize-2024/

Sobre O Terceiro Reino, de Karl Ove Knausgård

 Durante vários dias, uma estrela nova, estranha e intensamente brilhante paira no céu da Noruega, semeando um sentimento de presságio, agitação e medo. Tove, uma pintora em férias com a família, mergulha numa psicose que a lança num turbilhão de criatividade. Geir, um polícia que está a investigar um triplo homicídio, chega a uma revelação sinistra que terá de guardar para si. Line, uma jovem de 19 anos, apaixona-se pelo vocalista de uma banda de metal e é atraída para um mundo secreto e aterrador. Mas o mais desconcertante é a descoberta feita por Syvert, um agente funerário: desde que a estrela apareceu, ninguém morreu.

Em O Terceiro Reino, Karl Ove Knausgård retoma o mundo hipnotizante de A Estrela da Manhã e Os Lobos da Floresta da Eternidade, enquanto um elenco de personagens novas e familiares continua a confrontar-se com o significado desta estrela. O que assombra, e porquê?


«Knausgård está entre os melhores escritores vivos.» [The New York Times]


«As pessoas em O Terceiro Reino são tão nítidas e convincentes como a persona autobiográfica de Knausgård. Um livro absorvente, que não se consegue parar de ler.» [Lev Grossman]


«Um dos livros mais sedutores que alguma vez li. Romance após romance, Knausgård está a devolver ao mundo uma energia selvagem.» [Brandon Taylor, The Washington Post]


O Terceiro Reino (tradução do norueguês de João Reis) e outras obras de Karl Ove Knausgård estão disponíveis em https://www.relogiodagua.pt/autor/karl-ove-knausgard/

De Húmus, de Raul Brandão

 «13 de Novembro


Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...

Uma vila encardida — ruas desertas — pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva — o castelo — restos intactos de muralha que não têm serventia. Uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter‐se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida. A torre — a porta da Sé com os santos nos seus nichos — a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou‐se na pedra, o sol entranhou‐se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutáveis teias de silêncio e tédio e uma cinza invisível, manias, regras, hábitos, vai lentamente soterrando tudo. Vi não sei onde, num jardim abandonado — inverno e folhas secas — entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra‐as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia‐se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos…» [p. 53 de Húmus, de Raul Brandão]


Húmus (edição de Maria João Reynaud) e outras obras de Raul Brandão estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/raul-brandao/

Sobre Pela Estrada Fora — O Rolo Original, de Jack Kerouac

 Esta é a edição nunca antes publicada de Pela Estrada Fora, o texto que surgiu na forma original de rolo. Representa a primeira e mais genuína forma de expressão das ideias de Kerouac, o momento em que a sua visão e voz narrativa se juntaram sob a forma de um impulso contínuo de energia criativa.

Esta versão é mais dura, crua e sexualmente explícita do que o romance já publicado. Kerouac utiliza também o nome real dos seus amigos, incluindo Neal Cassady, Allen Ginsberg e William S. Burroughs.

Esta edição foi preparada por Howard Cunnell, juntamente com três outros estudiosos da obra de Kerouac.

Cunnell estudou a história e origem do rolo e todas as suas transformações subsequentes até se tornar o texto publicado e conhecido.

Pela Estrada Fora: O Rolo Original é, sem dúvida alguma, um dos mais significativos documentos na história contemporânea da literatura americana.


Pela Estrada Fora — O Rolo Original (trad. Margarida Vale de Gato) e outras obras de Jack Kerouac estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/jack-kerouac/

Sobre O Homem Que Via Tudo, de Deborah Levy

 “Olá, Saul. Como vão as coisas?”

“Estou a tentar atravessar a rua”, respondi.

“Sim”, disse ela. “Há trinta anos que tentas atravessar a rua, mas aconteceram várias coisas entretanto.”


Em 1988, Saul Adler é atropelado em Abbey Road. Aparentemente fica bem. Levanta-se e vai ter com a namorada, Jennifer Moreau. Fazem sexo e terminam o relacionamento amoroso, mas não antes de ela o ter fotografado a atravessar a mesma rua onde fora atropelado.

Saul parte para estudar na Berlim Leste comunista, dois meses antes da queda do Muro, onde encontra o tradutor que lhe foi atribuído e a irmã deste, que jura ter visto um jaguar a deambular pela cidade. Saul apaixona-se; preocupa-se obsessivamente com o pai, um homem difícil e autoritário; e trava amizade com um hippie, que pode ou não ser um agente da Stasi, mas que o vai assombrar num futuro próximo. 

Movendo-se entre tempos diferentes e deixando um rasto em espiral, Levy analisa o que vemos e o que não conseguimos ver, as consequências do descuido, o peso da história e as nossas desastradas tentativas de o sacudir dos ombros. 


“Levy é uma escritora indelével.” [The New York Times]


“Os prazeres de sedução da prosa de Levy estão nas suas várias camadas de brilhantismo.” [The Washington Post]


“Um trabalho de arte e filosofia. A cada novo romance, Levy aproxima-se da perfeição.” [New York Journal of Books]


“Deborah Levy é uma das escritoras e intelectuais mais importantes da Grã-Bretanha.” [New York Times Book Review]


O Homem Que Via Tudo (trad. Alda Rodrigues) e outras obras de Deborah Levy estão disponíveis em https://www.relogiodagua.pt/autor/deborah-levy/