5.3.26

Obrigado, António Lobo Antunes



Morreu António Lobo Antunes, sobre cuja vida e obra várias pessoas (Maria da Piedade Ferreira, Ana Margarida de Carvalho, Bruno Vieira Amaral, Dulce Maria Cardoso, Lídia Jorge…) já disseram hoje muito do que é essencial.

Não foi um autor da Relógio D’Água, embora tenha visitado esta editora por várias vezes, mas isso não o impediu de ser meu escritor. Publica-se em seguida um texto que revela a sua generosidade, uma das «fraquezas» que ele tinha e ocultava.

Quando lhe pedi uma apresentação para um livro de Agustina Bessa-Luís, autora de que, pelo menos na aparência, muitas coisas o separavam, aceitou de imediato e veio entregar pessoalmente à Relógio D’Água o manuscrito do texto de que se publica a seguir uma parte:


«Agustina vem cair de súbito, como uma pedra imensa e estranha, em pleno charco neo‑realista. A partir dos anos trinta as pessoas que escreviam em português, quase todas ligadas ao Partido Comunista ou mais ou menos simpatizantes dele, inauguraram uma fase, muito influenciada por escritores franceses e italianos sobretudo, de romance que se queria social, iniciada talvez por Alves Redol (por quem tenho muito respeito) e Soeiro Pereira Gomes, a que se foram juntando uma imensa quantidade de nomes como por exemplo Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Garibaldino de Andrade, Vergílio Ferreira, Mário Braga, Urbano Tavares Rodrigues, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, José Saramago, Antunes da Silva, Augusto Abelaira, etc. porque a lista é infindável, que escreviam histórias de operários bons e patrões maus, como resumia por troça Fernando Assis Pacheco, que a mim, em geral, não me interessavam nada mas que interessavam uns aos outros e eu, adolescente de treze ou catorze anos, lia numa aplicação decepcionada

(havia também José Cardoso Pires mas José Cardoso Pires, que viria a ser o meu melhor amigo, era outra loiça)

e, paralelamente a esses, o que existia era outra corrente, protofascista ou, no mínimo, não agressiva para a Ditadura, como por exemplo Joaquim Paço d’Arcos, Francisco Costa, Manuel Frederico Pressler e nomes assim que o tempo varreu também, que me interessavam ainda menos. Não era nada daquilo que eu queria, nem de uns nem de outros, mas não existia muito mais, o que deixava a criança que fui na aflição de encontrar uma voz diferente para a qual não tinha preparação nem experiência, na triste necessidade de construir, de raiz, outro mundo. O tempo foi varrendo estes autores se bem que um ou outro livro continue ainda (o Barranco de Cegos, meia dúzia de contos de Manuel da Fonseca, também bom amigo meu, pouco mais) e julgo que deles quase nada ficará. Mas nos anos 40 e 50 eram extremamente populares, apoiados numa crítica simpatizante do Partido Comunista, ou no mínimo não hostil, que os incensava com exuberância. E eis que de súbito surge no meio disto o primeiro livro de uma mulher chamada Agustina Bessa‑Luís, que nada tinha a ver com nenhum destes grupos. Alimentada por Camilo (de quem não sou entusiasta) que por sua vez bebeu em Filinto Elísio (conheço mal mas o grande Bocage apreciava‑o muito) aparece com uma prosa completamente diferente, completamente nova, rica, quase barroca, inteiramente inovadora, aguda, inteligente, irónica, riquíssima, surgida do nada (tirando o seu bocadinho de Camilo), de um talento desmedido. Claro que isto não se perdoa, os dois melhores críticos da época, Óscar Lopes hesitou e António José Saraiva leu com entusiasmo, e Agustina foi aumentando a sua obra, segundo regras que não existiam antes dela. As suas personagens não eram bonecos vestidos de ideias que em lugar de pensarem os sentimentos eram pensadas por eles, usava nexos afectivos, não racionais, as suas obras não obedeciam a uma ordenação lógico‑discursiva, obedeciam a uma tumultuosa ordenação do caos, a inteligência não era apanágio do autor, era uma característica da escrita, no sentido em que as palavras solucionavam a tessitura de acordo com uma implacável lógica interna, não nos conduzia a parte nenhuma, mergulhava‑nos em nós mesmos dando‑nos a conhecer o nosso caos interior, descodificando‑o e mostrando‑nos a sua complexa simplicidade

(parece um paradoxo mas não é)

e construiu uma obra única de catalogação do mundo, uma aprendizagem das luzes e das trevas da qual saímos como quem desperta de um sonho, devorados pela prosa, reduzidos às cinzas de um fogo que nos devolve inteiros a nós mesmos. Aprende‑se com ela como as trevas são claras e como tudo é excepcional. […]»


É evidente que muitas das apreciações que António Lobo Antunes faz sobre Agustina se poderiam aplicar a ele próprio.


Francisco Vale


Sobre Tarass Bulba, de Nikolai Gógol

 Tarass Bulba descreve a vida de um antigo cossaco de Zaporójie, Tarass Bulba, e dos seus dois filhos, Andrei e Ostap. Os filhos, que estudam na academia de Kiev, regressam a casa, de onde os três homens partem numa jornada para a Sietch de Zaporójie (a sede dos cossacos de Zaporójie, localizada no sul da Ucrânia), onde se juntam a outros cossacos e vão para a guerra contra a Polónia.

A personagem principal é baseada em várias personalidades históricas, e o enredo pode ser entendido no contexto do movimento de nacionalismo romântico na literatura, que se desenvolveu em torno de uma cultura étnica histórica.


«Um dos dez melhores livros de todos os tempos.» [Ernest Hemingway]


Tarass Bulba (tradução do russo de António Pescada) e outras obras de Nikolai Gógol estão disponíveis em https://www.relogiodagua.pt/autor/nikolai-gogol/

4.3.26

Sobre O Imperador da Alegria, de Ocean Vuong

 A coisa mais difícil no mundo é só viver uma vez.


Numa noite de fim de verão, na cidade de East Gladness, no Connecticut, Hai, de dezanove anos, está numa ponte, sob uma chuva intensa, pronto para saltar, quando ouve alguém gritar do outro lado do rio. A voz pertence a Grazina, uma viúva idosa a sucumbir à demência, que o convence a seguir outro caminho. Sem rumo e sem opções, ele torna-se seu cuidador e, ao longo de um ano, a dupla improvável desenvolve um laço que tem o poder de mudar a relação de Hai consigo próprio, com a família e com uma comunidade à beira do colapso.

Seguindo os ciclos da história, da memória e do tempo, O Imperador da Alegria revela as formas profundas como o amor, o trabalho e a solidão constituem a base da vida. No seu centro está uma corajosa epopeia sobre o que significa existir nas margens da sociedade e confrontar as feridas que se abrem na nossa alma coletiva.

Este é um romance onde estão presentes as marcas distintivas da escrita de Ocean Vuong — inovação formal, destreza sintática e a capacidade de unir dureza e graça através da ternura —, numa história de perda e esperança, sobre a dificuldade que temos para alcançar uma das misericórdias mais fugazes da vida: uma segunda oportunidade.


“Uma obra-prima.” [Bryan Washington]


“Terno e comovente, O Imperador da Alegria fala de pessoas nas margens da sociedade e da sanidade. Para minha surpresa e prazer, o romance de Vuong é também subtilmente espirituoso e, por vezes, ousadamente cómico.” [Rebecca Solnit]


“Uma história poética, dramática e vívida. Épico no seu alcance, o romance trata também a intimidade e o amor com delicadeza e profunda originalidade.” [Colm Tóibín]


“Comovente, caloroso mas sem sentimentalismo, e imensamente cómico.” [The Guardian]


O Tempo É Uma Mãe (tradução de Frederico Pedreira) e O Imperador da Alegria e Na Terra Somos brevemente Magníficos (traduções de Inês Dias) estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/ocean-vuong/

Sobre O Imperador Deus de Duna, de Frank Herbert

 Passaram-se milénios em Arrakis, e o que antes era um planeta desértico é agora um local verdejante e repleto de vida. Leto Atreides, filho do salvador do mundo, o Imperador Paul Muad’Dib, ainda vive, mas está longe de ser humano. Para preservar o futuro da humanidade, ele sacrificou a própria humanidade, fundindo-se com um verme de areia e assim adquirindo uma quase imortalidade como Imperador Deus de Duna durante três mil e quinhentos anos. Mas o reinado de Leto não é benevolente. A sua transformação tornou-o não apenas fisicamente diferente, mas também imoral e inumano.

Uma rebelião liderada por Siona, membro da família Atreides, ergueu-se como oposição ao governo despótico. Mas Siona não sabe que a visão de Leto de um Caminho Dourado para a humanidade exige que ela cumpra um destino que nunca quis.


«Uma quarta visita a Arrakis, tão fascinante quanto as outras três, e tão atual quanto elas.» [TIME]


O Imperador Deus de Duna (tradução de Elsa T. S. Vieira) e outras obras de Frank Herbert estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/frank-herbert/

A chegar às livrarias: Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev

 Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev (tradução de António Pescada)


«Pais e Filhos não só é o melhor romance de Turguéniev, mas também um dos maiores romances do século XIX. Turguéniev conseguiu fazer aquilo que se propôs: criar um personagem masculino, um jovem russo, que afirmasse a sua — do personagem — ausência de introspecção e que, ao mesmo tempo, não fosse uma marioneta nas mãos de um repórter social. Bazárov é um homem forte, sem dúvida — e muito possivelmente, tivesse ele vivido além dos vinte anos (acaba de sair do liceu quando o conhecemos), ter-se-ia tornado um grande pensador social, um médico famoso ou um revolucionário activo, para lá dos limites do romance.» [Do Posfácio de Vladimir Nabokov]


Esta e outras obras de Ivan Turguéniev estão disponíveis em https://www.relogiodagua.pt/autor/ivan-turguenev/

Sobre Céu em Fogo, de Mário de Sá-Carneiro

 «Oscilando entre a angústia da fugacidade do tempo e a tragédia da repetição, as personagens de Céu em Fogo abismam-se fatalmente no tédio e, numa luta penosa — que é também um confronto fascinado com a morte —, tentam inventar maneiras de o vencer. É esta a tarefa fantástica que vai empreender o Fixador de Instantes. Tomado por um «tédio mortal» no momento em que constata a inevitabilidade da sua morte, acaba por realizar no crime a sua obsessão de posse total. Também na novela «A Grande Sombra», que diríamos o diário de um psicopata dos tempos modernos, o protagonista renasce «outra vida» após o assassínio violento de uma rapariga que acaba de conhecer, com quem se envolve sexualmente. Este crime acorda-o da sonolência monótona em que vivia até aí, e tem o efeito imediato de «parar os instantes», de suspender o tempo, e, paralelamente, eliminar a angústia da morte que o vinha deprimindo. O suicídio final, para o qual se encaminha em euforia louca, está para além do remorso: é o culminar triunfal da sua busca do mistério e do desconhecido.

O crime e o suicídio, tão presentes nestas novelas, são as duas faces da mesma moeda, aquela com que ilusoriamente se quer pagar o preço da modernidade, na sua paixão pelo Novo: a morte é a única região inexplorada, não há novidade senão na morte. Para estes heróis de tragédia moderna, o suicídio não é um puro acto de desespero, mas a única forma de heroísmo, a última procura que vale a pena — um acto estético, ou uma deserção.» [Do Prefácio de Maria Antónia Oliveira]


Céu em Fogo e outras obras de Mário de Sá-Carneiro estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/mario-de-sa-carneiro/

De Almanaque do Céu e da Terra, de Cristina Carvalho

 “E sabemos a alegria que é passear à noite, no Verão, sob um céu estrelado. Gritamos com as estrelas-cadentes, esperamos todos os anos, lá para Agosto, pela chuva de São Lourenço, e as auroras boreais são o deslumbramento total. Desejamos, então, que nem um só farrapo de nuvem nos tolde a visão, para apreciarmos uma estrela a deslizar velozmente ou a rodopiar no mais alto firmamento.”


Almanaque do Céu e da Terra (editado em 2023) e outras obras de Cristina Carvalho estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/cristina-carvalho/