2.9.15

Sobre É Complicado, de danah boyd







«A probabilidade de termos ouvido falar em “perigo” quando se relacionam na mesma ideia os adolescentes e a Internet é elevada. Desde o mais alarmante e alarmista medo de que as crianças e os adolescentes possam ser vítimas de predadores sexuais online, passando pelo receio da adicção aos mundos virtuais, e consequente perda de faculdades de socialização no mundo real, até à partilha pouco criteriosa de informações pessoais, ignorando noções de privacidade, muitos adultos vivem com um receio dos adolescentes e pelos adolescentes.

Como grande parte dos medos, também este assenta no pilar fundamental do desconhecimento. Foi precisamente para combater esse desconhecimento do que é a vida em rede dos adolescentes que danah boyd decidiu transformar aquilo que era uma tese académica num livro mais acessível ao grande público: “É Complicado: as vidas sociais dos adolescentes em rede”.» [Gonçalo Mira, ípsilon, Público, 21-8-2015]

 

1.9.15

Hermínio Martins 1934-2015






Hermínio Martins faleceu no passado dia 19 de Agosto. Sobre o professor e sociólogo português, Eduardo Pitta escreveu:
«Morreu em Oxford o sociólogo Hermínio Martins, “o único cientista social português da sua geração conhecido na comunidade científica internacional”, na síntese de António Costa Pinto. De tal modo que é hoje um nome central das ciências sociais no Reino Unido. Natural de Lourenço Marques, deixou Moçambique no início dos anos 1950 para estudar na London School of Economics, onde foi aluno de Popper e Michael Oakeshott. Professor em várias universidades, como Leeds e Harvard, fixou-se em Oxford, tendo leccionado no St. Antony’s College entre 1971 e 2001. (…) O essencial da obra está publicada em língua inglesa, mas talvez fosse altura de reeditar Hegel, Texas e Outros Ensaios de Teoria Social (1996) e Classe, Status e Poder e Outros Ensaios sobre o Portugal Contemporâneo (1998).» [Eduardo Pitta, no blogue Da Literatura, 24/8/2015]

No Público, Luís Miguel Queirós escreveu:
«Hegel, Texas, e outros Ensaios de Teoria Social (Século XXI, 1996) é um dos títulos mais conhecidos deste sociólogo-filófoso – “um amigo dele”, conta Rui Feijó, “diz que estava casado com a sociologia, mas que a amante dele era filosofia” –, cujo último livro foi publicado pela Relógio D’Água e se intitulaExperimentum Humanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana.
Num artigo para a revista Análise Social, Viriato Soromenho Marques realça a importância deste "grande pensador português ainda insuficientemente conhecido do grande público” e caracteriza Hermínio Martins como “um sociólogo de matriz filosófica”. Para Soromenho Marques, Experimentum Humanum é  “uma obra profundamente filosófica sobre a vocação e o destino tecnológicos da civilização contemporânea”, que “ousa pensar uma ampla variedade de experiências e fenómenos da contemporaneidade à luz de um conjunto coerente e clarificador”.» [Público, 23/08/2015]


Experimentum Humanum. Civilização Tecnológica e Condição Humana saiu na Relógio D’Água em 2011.

31.8.15

Morreu Oliver Sacks (30/8/2015)





Foi uma morte anunciada, mas nem por isso menos chocante. Oliver Sacks faleceu ontem, dia 30 de Agosto, na sua casa em Greenwich Village, em Nova Iorque.
Já em Fevereiro no New York Times o neurologista anunciava ter uma doença grave e poucos meses de vida. Fazia um lúcido e comovedor balanço da sua vida e dos projectos com que tencionava despedir-se do mundo.




«Há um mês encontrava-me bem de saúde, ou mesmo francamente bem. Com os meus 81 anos, continuava a nadar 1,5 km todos os dias. Mas a minha sorte tinha um limite: pouco depois tomei conhecimento de que tinha metástases múltiplas no fígado. Há cerca de nove anos, descobriram-me no olho um tumor pouco frequente, um melanoma ocular. Apesar de a radição e o laser para remover o tumor terem acabado por me deixar cego desse olho, é muito raro que esse tumor se reproduza. Pois bem, eu pertenço aos desafortunados 2 % a quem isso acontece.
Dou graças por ter desfrutado de nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico inicial, mas chegou o momento de enfrentar de perto a morte. As metástases ocupam um terço do meu fígado, e, ainda que se possa atrasar o seu avanço, é um tipo de cancro que não pode ser detido.
Agora devo decidir como viver os meses que me restam. Tenho de os viver da maneira mais rica, intensa e produtiva que me for possível. Sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos preferidos, David Hume, que, ao saber-se mortalmente doente, aos 65 anos, escreveu uma breve autobiografia num único dia de Abril de 1776. Intitulou-a A Minha Própria Vida. (…)
Tive a imensa sorte de viver além dos 80 anos, e estes 15 anos que vivi a mais do que Hume foram tão prósperos no trabalho como no amor. Nesse tempo publiquei cinco livros e terminei uma autobiografia (bastante mais extensa do que as breves páginas de Hume), que será publicada na Primavera; e tenho mais alguns livros quase terminados. (…)
Nos últimos dias, pude ver a minha vida como se a observasse de muito alto, como uma espécie de paisagem, e com uma profunda sensação da ligação entre todas as suas partes. Isto não significa que dê por terminada a vida.
Pelo contrário, sinto-me intensamente vivo, e quero e desejo, no tempo que me resta, aprofundar as minhas amizades, despedir-me daqueles que amo, escrever mais, viajar se tiver força suficiente, alcançar novos níveis de compreensão e discernimento. (…)
Não posso fingir que não tenho medo. Mas o sentimento que prevalece em mim é a gratidão. Amei e fui amado, foi-me dado muito e dei algo em retribuição, li e viajei e pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial dos escritores e leitores.
Acima de tudo, tenho sido um ser sensível, um animal pensante, neste belo planeta, e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e uma aventura.»


 


Oliver Sacks escreveu, entre outras obras, O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu, Despertares, Um Antropólogo em Marte, Perna para Que Te Quero, A Ilha sem Cor, O Tio Tungsténio, Musicofilia, Vejo Uma Voz, O Olhar da Mente, Diário de Oaxaca, Alucinações e Enxaqueca, todas elas publicadas em Portugal pela Relógio D’Água. Os seus livros foram premiados, nomeadamente com o Hawthornden Prize, o Polk Award, e recebeu uma Bolsa Guggenheim. Foi membro da Academia Americana de Artes e Letras. Exerceu neurologia e leccionou na Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque.





A Relógio D’Água vai editar em breve a sua autobiografia: Em Movimento — Uma Biografia.

28.8.15

Sobre Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole





«O texto, que abunda em diálogos escandalosos não raro evocativos do jornalismo gonzo, é às vezes interrompido pelo diário de Reilly, bem como pelas cartas que lhe envia uma tal Myrna Minkoff. Beatnik e apologista da cura universal pelo orgasmo. Sátira, sim, mas sobretudo comédia, e talvez isso explique as reservas de Gottlieb [editor que recusou publicar este brilhante romance por achar que lhe faltava um propósito]. Mas é a comédia certa para a época degenerada que Reilly enfrenta.» [Luís M. Faria, E, Expresso, 15-8-2015]

27.8.15

Sobre As Ondas, de Virginia Woolf




«Com As Ondas (1931) Virginia Woolf radicalizou a aposta modernista da fragmentação narrativa. Embora o romance acompanhe a história de seis amigos, da infância à maturidade, as palavras importam tanto quanto as experiências, e as vozes sucedem-se sem uma clara demarcação, fazendo do texto um monólogo a seis, ou seis solilóquios unificados. (…) Em As Ondas, Woolf não recorre à linguagem poética e ao solilóquio para ligar diversas subjectividades a uma realidade externa; em vez disso, usa a realidade como pontuação de uma melancolia comum.» [Pedro Mexia, E, Expresso, 15-08-2015]

25.8.15

Sobre Clarice Lispector





«Lispector é uma figura icónica no Brasil, onde a sua obra é ensinada nas escolas e a sua persona se tornou majestosa. Uma judia ucraniana levada para o Brasil e que também passou muitos anos nos Estados Unidos e em Inglaterra, Lispector foi influenciada por elementos místicos do judaísmo mas também por se mover numa certa sociedade. Talvez por causa do ambiente patriarcal em que vivemos, Lispector é conhecida por escrever de modo impressionante sobre as vidas de mulheres de várias idades.

Mas, como muitos escritores estáveis, Lispector, que morreu em 1977, era mais do que uma só coisa, capaz de desempenhar mais do que um papel. A sua ficção contém multidões. Por exemplo, é frequentemente descrita como “classe média”, mas diabos me levem se não encontro nestes contos afinidades com Charles Bukowski ou Anton Tchékhov.» [Jeff VanderMeer, Slate Book Review, em crítica a Complete Stories, de Clarice Lispector, 2-8-2015]


21.8.15

Sobre O Separar das Águas e Outras Novelas, de Hélia Correia





«O Separar das Águas e Outras Novelas dá a ler (ou reler) o primeiro livro de Hélia Correia, a novela que dá título à recolha (1981), além de Villa Celeste (1985) e Soma (1987). Em qualquer uma destas ficções, sobressai a capacidade de aliar o cuidado da palavra à economia do dizer. A sua escrita oscila entre a modernidade em que a autora claramente se insere e o passado da tradição. O que é sensível numa linguagem isenta da pretensão de novidade, no que esta tem de fugaz e excessivo; como nos temas, tantas vezes procurados no mundo recolhido das pequenas comunidades. É o caso da novela O Separar das Águas, que descreve a localidade de Vilerma. Contudo, esse tipo de enquadramento permite, ainda, à escritora retratar, sem mimetismos excessivos, tensões sociais, epocais e de género. Neste caso, a jovem República, a persistência da memória do regime anterior, a (quase) omnipresença religiosa e as inevitáveis clivagens de uma sociedade fechada e calcificada na sua estratificação. A “novela ingénua” Villa Celeste deixa deliberadamente por resolver as tensões que habitam grande parte da obra de Hélia. Entre o introspectivo e o que se abre ao mundo, entre o naturalista e o maravilhoso, esta novela decide o seu lugar precisamente na fronteira. Talvez por isso possamos ler do “fim da história que não acaba aqui”. Porque esta ficção existe algures onde acaba o irreal e começa a realidade recriada na escrita. É o que sucede em Soma, onde planos opostos se interrogam e uma personagem (António) “lutara contra os dois mil anos anteriores”.» [Hugo Pinto Santos, Time Out, 12-08-2015]