19.11.20

Sobre Prazer e Glória, de Agustina Bessa-Luís

 



«A ironia mordaz do percurso niilista está patente desde o título Prazer e Glória. Três gerações de personagens que se movem, se casam, procriam, sem viverem nada que lhes proporcione um verdadeiro prazer de viver, que as faça experienciar a glória de uma manifestação da vida que lhes escapa pelos meandros de uma cultura falsa. A obra de Agustina é uma água-forte lançada ao rosto de uma geração que teima em não acordar. A artista bem se esforça por chamar um povo que não desperta. Mas a sua obra tem uma portentosa energia cujo porvir está ainda no início.» [Do Prefácio]


Esta e outras obras de Agustina Bessa-Luís estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/agustina-bessa-luis/

Sobre Fragmentos, de George Steiner

 



A descoberta fictícia de um pergaminho carbonizado nas ruínas da antiga cidade romana de Herculano leva Steiner a interpretar o texto original, atribuído a Epicarno de Agra. E desse modo dá-nos uma síntese das suas preocupações essenciais e da sua visão do mundo.

Steiner reflete sobre a eloquência do silêncio (aquilo que não é expresso na poesia e na filosofia), as virtudes da amizade em comparação com as intensas mas efémeras do amor, sobre o potencial da educação e a raridade do talento, a realidade ontológica do mal, a omnipotência do dinheiro, os perigos da religião e a transcendência da música.

Estes aforismos luminosos, na tradição de Heraclito, podem ser lidos como outros tantos fragmentos de um autorretrato.

No final, Steiner aborda a questão do envelhecimento. O tempo de vida tem aumentado, mas muitas vezes a decadência das capacidades físicas conduz o ser humano à indignidade. Steiner elogia o suicídio e a eutanásia como caminhos difíceis mas possíveis para a liberdade. 


Fragmentos (Um Pouco Queimados) (trad. de Ana Matoso) e outras obras de George Steiner estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/george-steiner/


Sobre Don DeLillo e O Silêncio

 


Don DeLillo em entrevista ao The Guardian, a propósito do seu último e breve romance, O Silêncio, que a Relógio D’Água publicará muito em breve, com tradução de Paulo Faria


«O tamanho incomoda-o? Não se dá o caso de uma grande parte do seu poder se encontrar na concentração?» “Bem, espero que sim”, diz [Don DeLillo]. “Diria que pus neste livro tudo o que tinha.” O desejo continua a existir? Ainda tem o impulso para escrever? “Boa pergunta. Pergunto-me, aos 83 anos, o que virá a seguir, e não tenho uma resposta. De momento, estou a falar com tradutores e outras pessoas sobre este livro. Quando isso terminar e, em teoria, eu tiver a cabeça mais fria, veremos se faz surgir mais alguma coisa. Mas sim, com O Silêncio senti o mesmo desejo de premir as teclas, de olhar para as palavras, de continuar — por muito que demore.”» [Entrevista de Rachel Cooke, The Guardian, 18/10/2020]


Outras obras de Don DeLillo já editadas pela Relógio D’Água estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/don-delillo/


Sobre Cândido ou O Otimismo, de Voltaire

 



Cândido ou o Otimismo é um conto filosófico de Voltaire, publicado pela primeira vez em Genebra em janeiro de 1759. A par de Zadig e Micromégas, é um dos escritos mais famosos de Voltaire, tendo sido reeditado vinte vezes em vida do autor.

O livro é pretensamente traduzido de uma obra alemã do Dr. Ralph, pseudónimo utilizado por Voltaire para evitar a censura.

No essencial, trata-se de uma crítica às teses do filósofo alemão Leibniz, convencido da excelência da criação divina, através dos princípios da «razão suficiente» e da «harmonia preestabelecida». Voltaire faz essa crítica através das aventuras de Cândido, um jovem alemão possuidor de um espírito simples e reto, nascido como filho ilegítimo no seio da nobreza e adotado pelo barão de Thunder-ten-tronckh. É no castelo deste que vai ser educado por Pangloss, partidário, como Leibniz, de que «tudo está o melhor possível».

Depressa se torna evidente para os leitores o sarcasmo com que Voltaire trata não apenas as teses de Leibniz mas também o conservadorismo social e a nobreza arrogante.


Cândido ou O Otimismo (trad. de Júlia Ferreira e José Cláudio) e Tratado sobre a Tolerância (trad. Augusto Joaquim) estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/voltaire/


Sobre A Condição Humana, de Hannah Arendt

 



Os problemas que Arendt identificou então, a partir de uma perspectiva histórica — a diminuição da acção humana e da liberdade política; a relação paradoxal entre o aumento do poder humano através da pesquisa tecnológica e a capacidade cada vez menor de controlar as suas consequências; o declínio da esfera privada —, são cada vez mais actuais.


«De vez em quando encontro livros que me dão a sensação de terem sido escritos para mim... "A Condição Humana" pertence a esse pequeno e seleccionado género.» [W. H. Auden]


«A combinação entre um imenso poder intelectual e um excelente bom senso tornam as concepções de Arendt sobre história e política espantosas e óbvias ao mesmo tempo.» [Mary McCarthy, The New Yorker]


«Uma obra realmente extraordinária, uma das melhores interpretações da história contemporânea surgida nos últimos anos.» [William Barrett, Partisan Review]


A Condição Humana (trad. Roberto Raposo) e outras obras de Hannah Arendt estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/produto/a-condicao-humana/

18.11.20

Sobre Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe

 



«Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister» é um romance do Goethe clássico que dificilmente se deixa reduzir a uma fórmula vulnerável como a de "romance de formação": nem Goethe usou o termo, nem este romance chega realmente a encenar de forma cabal a "formação" do seu problemático protagonista — deixa-o precisamente no limiar desse processo. O próprio Goethe, jogando com o nome alemão do seu herói, ironiza na correspondência com Schiller o processo de transformação, cujo controlo lhe foge, do "Schüller" (discípulo) em "Meister" (mestre). E anos mais tarde, quando já concluía a primeira versão de "Os Anos de Peregrinação" confessava: «Wilhelm, é certo, não passa de um pobre diabo, mas é com personagens destas que melhor se deixam mostrar o jogo inconstante da vida e as inúmeras e diversas tarefas da existência e não com caracteres rígidos e já formados.» [do prefácio de João Barrento]


Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister (Livros I-VIII) (trad. Paulo Osório de Castro) e outras obras de Goethe estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/johann-w-goethe/

Sobre Acidentes, de Hélia Correia

 



Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: Acidentes, de Hélia Correia, obra que reúne poemas da autora de Lillias Fraser e Adoecer.


«ESMOLA


I


Lançai‑me

uma palavra, como alguns

atiram côdea aos cães.

Uma palavra

que, embrulhada nesse cuspo

que vos escorre pelos queixos,

brilha

e desconcerta a própria

repugnância.

Sacudi‑a

de vós, tal como alguém

sacode a lama seca do sapato

sem perceber sequer que lama é

porque não tira os pés

do alcatrão.

Essa palavra abandonada à porta,

eu a recolherei, como se houvesse

nela um pedido,

a súplica de um órfão,

de uma cria deixada para

morrer.

Eu pegarei nessa palavra ao colo

e, não sabendo onde encontrar abrigo

nem alimento,

dormirei com ela,

ouvindo‑a

murmurar,

enquanto os bosques

vão crepitando e a cinza

nos recobre. […]»


Esta e outras obras de Hélia Correia estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/helia-correia/