11.12.20

Gonçalo M. Tavares em Conversa com José Mário Silva

 


Gonçalo M. Tavares estará à conversa com José Mário Silva, no Café com Letras das Bibliotecas de Oeiras. O evento terá transmissão em directo no Facebook do Município e das Bibliotecas Municipais de Oeiras hoje, pelas 21h30:

https://www.facebook.com/bibliotecasmunicipaisdeoeiras/posts/3588409391214419

9.12.20

No Centenário de Clarice Lispector

 



Em homenagem ao nascimento de Clarice Lispector, a 10 de Dezembro de 1920, a Relógio D’Água publica o Prefácio que Lídia Jorge escreveu para a obra que deu início à sua edição sistemática em Portugal, o livro de contos «Laços de Família».

O texto de Lídia Jorge tem 31 anos, mas mantém toda a actualidade no que se refere à obra da autora de «A Paixão segundo G. H.». A única diferença é que ela é agora mais conhecida em Portugal do que o era então.

Em Janeiro próximo, a Relógio D’Água publicará «Todas as Cartas», de Clarice Lispector, completando assim a divulgação de praticamente toda a sua obra em Portugal.

FV


«Para Clarice Lispector

Entre nós, poucos são aqueles que têm de Clarice outra referência que não seja o nome, e no entanto, trata­‑se de um dos mais singulares escritores da nossa língua. As razões deste clamoroso desconhecimento não podem deixar de se inscrever na contenciosa fraternidade que existe entre Brasil e Portugal e que leva a que, salvo raras excepções, as ligações em Cultura se produzam pelas cinturas mais frágeis ou já ca­nónicas. No caso de Clarice, porém, a sua obra tarda de mo­do inusitado a chegar até nós e por duas razões — a primeira é que Clarice Lispector deixou há muito de ser um escritor de pequenos grupos aficionados para ser, no Brasil, uma refe­rência obrigatória caída no domínio público universitário que a cada hora a faz e a refaz de análises e suposições teóricas. A segunda razão de estranheza prende­‑se com o facto de que, sendo Clarice parente legítima da dispersão de Pessoa, não tenha aproveitado da onda irreversível em que se vai espa­lhando a fama do poeta português. Que resistam, pois, outras culturas como a francesa a deixar­‑se emocionar com a prosa de Clarice, ainda se entende. Entre nós, que nem se conheça por quase impublicação, é incompreensível. Sobretudo por­que quem leu sabe que a prosa de Clarice assenta em uma da­quelas raras escritas da qual se sai diferente quando uma vez lá se entrou, como se ela mesma fosse e contivesse em si a oferta de uma revelação surpreendente e por vezes devastadora. Deve­‑se dizer quando se oferece ou empresta Clarice Lispector — Protejam­‑se contra a tortura da beleza. 

Ou mais propriamente, protejam­‑se contra a beleza da tor­tura. De facto, as páginas de Clarice, longas ou breves que sejam, incomodam a ponto de doer e ao mesmo tempo empur­ram para a escrita como única forma de compreender e existir. Ou melhor, têm a qualidade próxima da que se reconhece em Faulkner, em Virginia Woolf, em Joyce ou em Kafka, para falar apenas dos seus quase irmãos de tempo literário e pa­rentes na condição de alma. Isto é, contém um mistério que permanece para além de tudo o que na escrita é decifrável e que chama com uma voz parada e luminosa para um estado de alma próximo do êxtase manso, ou ele mesmo. Sem preten­der brandir o ferro da importância e dos papéis que cada um tem no Mundo, devo dizer mesmo que reivindico para Clari­ce, como para nenhum dos outros atrás citados, a capacidade de desencadear o manso e o violento que acontece a partir do limiar onde a linguagem se enaltece antes da ficção. Porque disso se trata — os seus textos, longos, breves ou fragmen­tários, falam de uma experiência inefável em que a escrita sur­ge como salvação, e por isso, o seu jogo é explêndido, hu­milde e derradeiro. Tão derradeiro que dispensa a alegoria e a metáfora, a ficção dispensa a ficção. Quem uma vez se deixou revestir do olhar que dimana da prosa de Clarice compreende como a escrita pode ser a vida, muito mais do que ela, nunca parte dela. Essa, de todas, a melhor revelação. O sentimento de que quem assim escreveu o fez de forma absoluta leva a que ninguém se surpreenda, quando antes da biografia se co­nheceu a obra, que dez meses antes da morte, em Fevereiro de 1977, Clarice tenha declarado numa entrevista que cedeu à TV Cultura de São Paulo — “Quando não escrevo, estou morta.” E que tenha terminado o diálogo com o jornalista de­clarando — “Neste momento estou morta. É do meu túmulo que vos falo.” Naturalmente que teria de ser assim. Estamos perante a vida do “escritor perfeito”, aquele para que muitos tendem mas poucos alcançam, o que não tem a ver com a vontade. 

Mas se o halo da sua misteriosa singularidade se despren­de de toda a obra por inteiro — e cada um vê­‑lo­‑á como en­tenda e possa —, não é nos romances que lhe deram mais fa­ma que Clarice melhor me abre a sua porta. Pelo contrário. Sem pretender diminuir de modo algum a revelação que pode constituir “Perto do Coração Selvagem”, seu romance de estreia, ou “A Maçã no Escuro” ou ainda “A Paixão segundo G. H.”, é no fragmento que a sinto revelada, melhor encontro a sua arte poética e o espanto da existência, no fundo, as duas matérias compulsivas da sua Arte. Suponho mesmo que Cla­rice pertence àquela categoria de escritores para quem o fulgor é encontrado em breves momentos sem antecedente nem con­sequente, ainda que múltiplos e repetidos, sendo os romances tentativas de conjugar parcelas que não precisariam de ser emparceladas para constituírem totais. Mas Clarice quis que se juntassem em parábolas sem espessura para que o fossem. Aliás, também na insistência da junção dos pequenos inci­dentes autónomos Clarice se aproxima da sua quase contem­porânea Virginia Woolf, tal como na tentativa de os fazer convergir e os fazer unir literariamente. Essa tentativa em Clarice desprende­‑me por vezes o gosto da leitura. No fragmento não. Em cada um ela é inteira, não dizendo em três li­nhas menos do que se diria em dez páginas, e no entanto revelando o mundo. É de três linhas a crónica intitulada “A Experiência Maior” e diz tanto, que mais sobre a ficção não se pode dizer: “Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Mi­nha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”

Escrevendo como escreveu, a sua escrita não poderia dei­xar de criar resistência. Então o confronto entre o contar e o apenas dizer era uma contenda e Clarice não pôde afastar­‑se do dilema. Mas colocou­‑se do lado certo, isto é, do seu pró­prio lado, o que é uma felicidade para a escrita e para o escri­tor, já que a perdição acontece exactamente quando esse en­contro não se produz. Mas Clarice achou­‑se. Ela repousa na palavra de Alberto Dines — “As histórias não têm desfecho” — exactamente para abrir uma das suas fulgurantes histórias sem desfecho que constitui o texto inqualificável Onde Estivestes de Noite e que dá o título à publicação onde se encontra. De facto, não tem desfecho. Porque precisaria de ter se se trata de uma oração maligna sobre o imponderável da beleza e da perfeição que o ser andrógino experimenta no cimo da mon­tanha? O mesmo se pode dizer sobre “O Ovo e a Galinha”, no­no conto­‑crónica de “A Legião Estrangeira”, centrado no mistério do ovo, texto tão místico e inqualificável que haveria de levar Clarice a lê­‑lo num congresso de bruxaria em que represen­tou o seu país. 

Às vezes, porém, esses textos inqualificáveis que tanto re­movem são contos. “Laços de Família”, obra com que na práti­ca se inicia a publicação de Clarice Lispector entre nós, é um conjunto de treze contos surgidos no Brasil em 1960, e con­tém alguns dos traços que esse género costuma ter. Tem personagens, tem aventura, acidentes e desfechos. Só que neles, tanto quanto nos romances, os personagens começando por ser comuns, logo se revelam incomuns, avançando como se não tivessem olhos para ver, e quando quisessem ouvir não tivessem ouvidos. Ou inversamente, se têm ouvidos não têm sons, e se têm olhos não há paisagem que se veja. Quando acontece a coincidência, e é por escassos instantes, a visão produz­‑se, dá­‑se a fulminação e a matéria ficcional sucede. É por esses momentos de excepção do conhecimento que labo­ram os personagens e em torno deles labora a peripécia, que, aliás, não é mais do que uma reviravolta interior acompanha­da pela raiva, o ódio ou a náusea diante da abertura no escu­ro, ou dela decorrendo em marcha inversa. Trata­‑se de con­tos sobre a aventura do conhecimento no sentido menos cartesiano possível, acontecido portas adentro do familiar, até se chegar, em última instância, à poderosa visão do nada. Não admira, pois, que se evoque Sartre e “La Nausée” quando se deseja entender “Laços de Família”, obra onde se encontram al­guns dos mais célebres contos brasileiros, como é o caso de “O Búfalo”, “O Jantar”, “Feliz Aniversário” e sobretudo “Amor”, narrativa que se tornou de leitura obrigatória para quem se inicie na compreensão do processo epifânico de Clarice. É justo que se evoque certo modo existencialista de questionar o ser e o não ser, mas, retomando Sartre, onde o autor francês fica pela demonstração, Clarice Lispector cria uma apoteose mística e pagã sobre a marcha da descoberta. Essa a primeira das incomparáveis diferenças. 

Claro que toda a obra vive do influxo do seu tempo histó­rico e a prosa de Clarice não se mantém asséptica em relação ao mundo mental em que viveu e, por isso, com alguma facilidade se pode integrar a autora de “A Maçã no Escuro” no quadro de certo simbolismo e certo decadentismo. Também se pode aproximá­‑la do metamorfismo de Kafka, do psicologismo brutal de Joyce ou do enfoque microscópico de Virginia Woolf, ou ainda da transversalidade temporal de Faulkner. Pode­‑se. Clarice, porém, fica para além das leituras que tenha feito, revelando uma originalidade pessoal tão intensa quanto cada um dos outros autores isoladamente a revelou também. Singularidade que teria levado a que já na adolescência Clarice escrevesse contos que começavam naturalmen­te por “Era uma vez…” para logo interromper e terminar — “… Meu Deus.”

Ao Vergílio Ferreira, que me deu a conhecer Clarice.

Lisboa, 26 de Novembro de 1989

LÍDIA JORGE»

7.12.20

Sobre «A Minha Luta: 6 — O Fim», de Karl Ove Knausgård

 


 

Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: A Minha Luta: 6 — O Fim, de Karl Ove Knausgård.

O Fim é o último volume da saga A Minha Luta, e nele torna-se evidente o alcance do projecto de Karl Ove Knausgård. Enfrentando directamente as consequências da transgressão perante a vida pública e privada, subvertendo os seus limites, este sexto volume da sua principal obra dá-nos uma visão perturbadora e apaixonante da mente de um dos escritores mais conceituados da sua geração.

O livro inclui um ensaio sobre Mein Kampf, de Hitler, particularmente relevante numa altura em que a nível global assistimos à ascensão de regimes ditatoriais. Ao fazê-lo, o autor norueguês explica finalmente porque escolheu o título Min Kamp para a sua obra autobiográfica.

“Afirma-se como o maior acontecimento literário do século XXI.” [The Guardian]

“A primeira produção literária monumental do século XXI.” [The New York Times Book Review]

“Maravilhosamente humano… Ser levado para o mundo de Knausgård é um prazer inevitável.” [The Times]

“Intenso e vital… Knausgård é brutalmente honesto e destemido ao dar voz às ansiedades universais.” [James Wood, The New Yorker


Sobre «O Sítio do Lugar Nenhum», de Norberto Morais

 

 

Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: O Sítio do Lugar Nenhum, de Norberto Morais.

Um homem pendurado pelos pés no centro da praça. Um jovem que trai a família no dia do casamento. Uma menina sem história que só conhece uma palavra. Um país em êxodo no rasto da fortuna. Um menino órfão como promessa de eternidade. Uma luta armada no coração da montanha. Um homem capaz de transformar vícios em ouro. Um amor destinado desde o princípio dos tempos. Uma velha que aguarda o noivo enforcado. Um grupo de viajantes que se perde para sempre. Um batoteiro que se regenera por apego a uma criança. Uma prostituta que ensina rapazes a amar. Um jornalista à procura da história perfeita. Um escravo cego que encanta ao piano. Uma carrinha azul e o seu enorme chofer. Um amor impossível entre dois homens. Um cigano que rouba uma menina da vida. Uma ilha de loucos no meio do oceano. Um velho que dá saltos mortais para espantar a morte. Um padre que vende a alma ao Diabo por uma noite de amor. Uma história esquecida no meio do nada... Um sítio perdido em lugar nenhum.

Editado pela primeira vez, em 2008, com o título Vícios de Amor, O Sítio do Lugar Nenhum é agora editado na sua versão integral e com o título original.

4.12.20

Kai-Fu Lee na Web Summit de 2020

 


 

Kai-Fu Lee esteve presente na Web Summit de 2020, onde falou sobre o futuro e os benefícios da Inteligência Artificial, entre outros temas.

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/kai-fu-lee-preve-que-empregos-em-cadeias-de-fast-food-e-telemarketing-serao-substituidos-por-ia-671838

Do autor, a Relógio D’Água publicou As Superpotências da Inteligência Artificial:

https://relogiodagua.pt/produto/as-superpotencias-da-inteligencia-artificial/

3.12.20

Em Homenagem a Eduardo Lourenço (1923/05/23-2020/12/01)


 

«1. Múltiplas e imediatas são as dificuldades que se levantam a quem aborda a obra de Eduardo Lourenço com o fito de nela encontrar linhas de força visíveis: primeiro, a necessidade de seguir os meandros de um pensamento complexo, expresso numa escrita densa que se desdobra em estratos diversos de sentido, sob pena de simplificar e reduzir o que se quis deliberadamente profuso, labiríntico, inesgotável; obrigando assim a desvios metodológicos e heterodoxias várias, e sobretudo a uma distância em relação ao seu trabalho, em nome precisamente dos seus próprios princípios. Depois, o âmbito considerável da obra, que se abre para inúmeros campos, filosófico, literário, artístico, político, histórico; obra que se vai construindo paradoxalmente ao acaso dos acontecimentos, mas seguindo sempre a lógica singular de um mesmo pensamento crítico: “work in progress”, que vai pensando a modernidade e a produção cultural mais recente. De Eduardo Lourenço se poderia também dizer que “não evolui, viaja”, e no entanto, ele é capaz de acompanhar as mais finas mutações da obra de um escritor, como se a sua, de pensador e crítico, dispusesse sempre dos instrumentos conceptuais aptos a captar os movimentos da contemporaneidade mais imediata.
Enfim, existe uma outra dificuldade que é já uma lacuna paradoxalmente, não há estudos de fundo sobre a sua influência na literatura e na cultura portuguesas, nada sobre o impacto que teve e tem nos escritores, políticos, e na “inteligentzia” em geral. Quando esses estudos surgirem — e surgirão um dia, certamente —, bom seria que participassem dessa mesma vida inquieta do espírito, atenta ao real e ao presente móbil e recusando toda a forma de autcomplacência que caracteriza o pensamento do autor do Labirinto da Saudade

[José Gil, do texto «O Ensaísmo Trágico», publicado em O Ensaísmo Trágico de Eduardo Lourenço, de José Gil e Fernando Catroga, Relógio D’Água, 1996.]

 



2.12.20

Hamnet de Maggie O’Farrell vence Prémio do Livro do Ano

 Hamnet, de Maggie O’Farrell, vence o Prémio do Livro do Ano da livraria britânica Waterstones.

https://www.theguardian.com/books/2020/dec/02/maggie-ofarrell-hamnet-waterstones-book-of-the-year

A obra, que será publicada em 2021 pela Relógio D’Água e terá tradução de Margarida Periquito, é inspirada no filho de William Shakespeare, que morreu, vítima da peste bubónica, aos 11 anos.
Conta a história da mulher do poeta e dramaturgo, Agnes Hathaway, do filho que perderam, de um casamento ameaçado pela dor e do poder da criatividade.