24.4.21

Sobre Robinson Crusoe, de Daniel Defoe

 



Escrito quando tinha sessenta anos, Robinson Crusoe foi o primeiro romance de Daniel Defoe. Produto de uma imaginação poderosa, tornou-se um sucesso imediato e mantém-se como uma das obras mais importantes e controversas da literatura inglesa. Robinson Crusoe é a história das viagens e aventuras de um mercador, do seu naufrágio e da sua vida solitária numa ilha. Baseado na vida de Alexander Selkirk, é uma obra fascinante pelas suas descrições de Crusoe, o modo engenhoso e imaginativo como criava e usava utensílios e como conhece e se relaciona com Sexta-Feira. Como é evidente, a imagem que dá dos povos da região e do próprio Sexta-Feira é marcada pelos preconceitos do seu tempo. Mas a obra transcende largamente o horizonte da sua época. Robinson Crusoe é, como escreveu Defoe, uma narrativa ao mesmo tempo alegórica e histórica, uma abordagem do modo como um homem, que dedicado ao comércio, consegue sobreviver, graças ao engenho, numa altura em que bens e dinheiro de nada lhe servem. E como enfrenta a solidão recorrendo aos trabalhos e à imaginação.


Robinson Crusoe (trad. Miguel Serras Pereira) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/robinson-crusoe-2/

Sobre Minha Ántonia, de Willa Cather

 



Minha Ántonia é o mais importante romance de Willa Cather.

O narrador é Jim Burden, que nos fala de Ántonia, uma jovem mulher originária da Boémia, com quem tem uma relação entre o fraterno e o amoroso.

Mas o livro não é apenas o retrato de uma mulher. É também um fresco que evoca com cores nítidas os imigrantes que lutam contra um solo difícil, que têm de lidar com cavalos e lobos que vivem em liberdade na incomparável planície do Nebrasca.

O mundo de que nos fala é intenso, belo e muitas vezes trágico.

Willa Cather é uma pioneira da literatura dos grandes espaços, retomada mais tarde por escritores como Jim Harrison e Cormac McCarthy.


«Nenhuma narrativa romântica escrita na América, por um homem ou uma mulher, alcança metade da beleza de Minha Ántonia.» [H. L. Mencken]


Esta e outras obras de Willa Cather estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/willa-cather/

Sobre Cândido ou O Otimismo, de Voltaire

 



Cândido ou o Otimismo é um conto filosófico de Voltaire, publicado pela primeira vez em Genebra em janeiro de 1759. A par de Zadig e Micromégas, é um dos escritos mais famosos de Voltaire, tendo sido reeditado vinte vezes em vida do autor.

O livro é pretensamente traduzido de uma obra alemã do Dr. Ralph, pseudónimo utilizado por Voltaire para evitar a censura.

No essencial, trata-se de uma crítica às teses do filósofo alemão Leibniz, convencido da excelência da criação divina, através dos princípios da «razão suficiente» e da «harmonia preestabelecida». Voltaire faz essa crítica através das aventuras de Cândido, um jovem alemão possuidor de um espírito simples e reto, nascido como filho ilegítimo no seio da nobreza e adotado pelo barão de Thunder-ten-tronckh. É no castelo deste que vai ser educado por Pangloss, partidário, como Leibniz, de que «tudo está o melhor possível».

Depressa se torna evidente para os leitores o sarcasmo com que Voltaire trata não apenas as teses de Leibniz mas também o conservadorismo social e a nobreza arrogante.


Cândido ou O Otimismo (trad. de Júlia Ferreira e José Cláudio) e Tratado sobre a Tolerância (trad. Augusto Joaquim) estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/voltaire/

23.4.21

Sobre Tolstoi ou Dostoievski, de George Steiner

 



«Tolstoi ou Dostoievski procura mostrar que a estatura destes dois romancistas é inseparável do seu compromisso teológico. Se Anna Karénina é, como Henry James viu, uma “coisa tão maior” até mesmo que Madame Bovary, se Os Irmãos Karamázov supera tão formidavelmente Balzac ou Dickens, a razão é a centralidade para Tolstoi e Dostoievski da questão de Deus. Por sua vez, o que faz legitimar as afinidades de Tolstoi com Homero e as de Dostoievski com Shakespeare é uma comunicação partilhada das realidades, individuais e colectivas, físicas e históricas, além do alcance do empírico. Para ambos os mestres russos, como para Pasternak e para Soljenítsin depois deles, o pressuposto de D. H. Lawrence de que, para ser um escritor ou artista maior, há que enfrentar “nu os fogos de Deus” (ou o não-ser de Deus) era por si mesmo evidente. O constante recurso de Tolstoi ao mistério da ressurreição, as figurações de Dostoievski de um niilismo apocalíptico, são simultaneamente actos incomparáveis de realização narrativa-dramática e de pensamento religioso. Este livro invoca as afinidades profundas que se encontram entre a realização russa e a do cenário teológico em Hawthorne e Melville.» [Do Prefácio]


Tolstoi ou Dostoievski (trad. Jorge Vaz de Carvalho) e outras obras de George Steiner estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/george-steiner/

Sobre Os Últimos Dias de Immanuel Kant, de Thomas de Quincey

 



«De Quincey considera que nunca a inteligência humana se elevou ao ponto que atingiu em Kant. E, no entanto, a inteligência humana, mesmo a um tal nível, não é divina. Não só é mortal como, o que é terrível, pode diminuir, envelhecer, entrar em decrepitude. E, contudo, De Quincey sente talvez ainda mais estima por este clarão final, no momento em que ele vacila. Acompanha o seu pulsar. Anota a hora em que Kant deixou de poder criar ideias gerais e ordenou erroneamente os factos da natureza. Assinalou o instante em que a sua memória desfaleceu. Registou o segundo em que a sua faculdade de reconhecimento se extinguiu.» [Marcel Schwob]


Este relato dos últimos momentos de Kant é composto, entre outras fontes, pelos pormenores que De Quincey retirou das memórias de Wasianski, Borowski e Jachmann, publicadas em 1804 em Kœnigsberg.

Mas, ao mesmo tempo, é inteiramente uma obra de De Quincey (1785-1859), autor de Confessions of an English Opium-Eater.


Os Últimos Dias de Immanuel Kant, de Thomas de Quincey (trad. José Miguel Silva), está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/os-ultimos-dias-de-immanuel-kant/

Sobre Dias Birmanes, de George Orwell

 



«George Orwell deve a sua fama principalmente a dois livros: “1984”, uma distopia em que o totalitarismo vigente assenta numa vigilância omnipresente a que, infelizmente, já abrimos a porta – e dir-se-ia até que de bom grado –, e a “A Quinta dos Animais” (anteriormente, intitulado “O Triunfo dos Porcos”), a história de uma revolução que correu mal, já que alguns animais eram, afinal, mais iguais do que outros. […]

Menos conhecida é a sua vida antes deste episódio, em particular a sua experiência como agente da polícia na Birmânia. Inspirado precisamente nessa época, “Dias Birmaneses”, editado em Portugal pela Relógio D’Água, o seu primeiro romance, mostra-nos uma imagem devastadora do domínio colonial britânico, descrevendo em detalhe a corrupção e intolerância que se viviam numa sociedade onde “apesar de tudo, os nativos eram nativos — interessantes, sem dúvida, mas (…) um povo inferior de pele negra.”» [Palavra de Viajante, O Jornal Económico, 17/10/2020; https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/livro-dias-birmaneses-651034]


Dias Birmaneses (trad. Alda Rodrigues) e outras obras de George Orwell estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/george-orwell/

De Patañjali e o Yoga, de Mircéa Eliade

 



«Yoga, jungere, jugum


Não é fácil definir o Yoga. Etimologicamente, o termo Yoga deriva da raiz yuj, «ligar», «manter unido», «jungir», «pôr sob o mesmo jugo», de que provêm também o latim jungere, jugum, o inglês yoke, etc. O vocábulo Yoga serve geralmente para designar qualquer técnica de ascese e método de meditação. Evidentemente, tais asceses e meditações foram valorizadas de forma diferente pelas múltiplas correntes de pensamento e movimentos místicos indianos. Existe um Yoga «clássico», exposto por Patañjali no seu célebre tratado Yoga-Sûtra, e é deste sistema que deveremos partir para compreender a posição do Yoga na história do pensamento indiano. Paralelamente a este Yoga «clássico», existem, todavia, inúmeras formas de Yoga «populares», assistemáticas, e existem também os Yogas não bramânicos (por exemplo, o dos budistas, o dos jainas).

No fundo, foi o próprio termo Yoga que permitiu esta grande variedade de significados: se, com efeito, etimologicamente, yuj significa «ligar», é no entanto evidente que o «liame» estabelecido por essa acção de ligar pressupõe, como condição preliminar, a ruptura dos liames que unem o espírito ao mundo. Noutros termos: a libertação não pode ter lugar se não nos tivermos primeiro «desligado» do mundo, se não começámos por nos afastar do circuito cósmico, sem o que nunca nos chegaremos a reencontrar, nem a ter o domínio de nós próprios. Mesmo na sua acepção «mística», isto é, mesmo no seu significado de união, o Yoga implica o desapego preliminar da matéria, a emancipação relativamente ao mundo. A tónica recai no esforço do homem («pôr sob o mesmo jugo»), na sua autodisciplina, graças à qual pode obter a concentração do espírito, mesmo antes de ter pedido — como nas variantes místicas do Yoga — o auxílio da divindade. «Ligar», «manter unido», «pôr sob o mesmo jugo», tudo isso tem por objectivo unificar o espírito, abolir a dispersão e os automatismos que caracterizam a consciência profana. Para as escolas do Yoga «devocional» (místico), esta «unificação» não faz mais, evidentemente, do que preceder a verdadeira união, a da alma humana com Deus.» [pp. 11-12]


Patañjali  e o Yoga e O Sagrado e o Profano estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/mircea-eliade/