24.11.20

De Não Sabemos mesmo O Que Importa,de Paul Celan

 



«CORONA


À minha mão vem o Outono comer suas folhas: somos amigos.

Descascamos o tempo das nozes e ensinamo‐lo a partir:

o tempo retorna à casca.


No espelho é domingo,

no sonho dorme‐se,

a boca diz a verdade.


O meu olho desce até ao sexo da amada:

olhamo‐nos,

dizemo‐nos algo sombrio,

amamo‐nos como papoila e memória,

dormimos como vinho nas conchas,

como o mar no jorro‐sangue da Lua.


Estamos abraçados à janela, vêem‐nos da rua:

chegou a altura de se saber!

Chegou a altura de a pedra se dignar em florir,

de o coração do desassossego começar a bater.

Chegou a altura de ser altura.


Chegou a altura.» [Não Sabemos mesmo O Que Importa, p. 19]



«Um dos grandes poetas alemães do pós-guerra, em quem a liberdade do surrealismo e a linhagem do expressionismo intervencionista (Brecht, etc.) ou visionário (Trakl) criam uma linguagem nova.» [Jorge de Sena]


Não Sabemos mesmo O Que Importa de Paul Celan (trad. e posfácio de Gilda Lopes Encarnação) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/nao-sabemos-mesmo-o-que-importa/


Elena Ferrante escolhe os seus quarenta livros preferidos escritos por mulheres

 





A loja online Bookshop.org divulgou a lista dos 40 livros preferidos de Elena Ferrante assinados por escritoras. Entre os 40 títulos encontram-se vários editados pela Relógio D’Água: Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg; A Paixão segundo G. H., de Clarice Lispector; A Ilha de Arturo, de Elsa Morante; Amada Vida, de Alice Munro; O Sino, de Iris Murdoch; Um Bom Homem É Difícil de Encontrar, de Flannery O’Connor; e Pessoas Normais, de Sally Rooney. Gilead, de Marilynne Robinson, será publicado pela Relógio D’Água em 2021.

Todos os títulos escolhidos por Elena Ferrante aqui.



As obras de Elena Ferrante estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/elena-ferrante/

Gonçalo M. Tavares conversa com Alberto Manguel

 



«A erudição de Alberto Manguel e a originalidade de Gonçalo M. Tavares eram o garante de uma conversa invulgar. encontraram.-se na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra para uma cena da série documental Herdeiros de Saramago […].

Quando se iniciaram os preparativos para a rodagem da série documental Herdeiros de Saramago, Gonçalo M. Tavares manifestou de imediato o desejo de se encontrar, no episódio em que é protagonista, com um leitor muito especial: o autor de Uma História da Leitura. Ainda não estava sequer no horizonte a ideia de Alberto Manguel se tornar um lisboeta honorário. a doação à capital da sua célebre biblioteca, trazendo para Lisboa mais de 40 mil volumes, vai fazer nascer o Centro de Estudos da História da Leitura. alberto Manguel é um leitor entusiasmado e um entusiasta da obra de Gonçalo M. Tavares. O escritor português vê em Manguel um leitor que acrescenta novas camadas de sentido aos livros que escreve. O encontro entre ambos (presumivelmente o primeiro de muitos, agora que são quase vizinhos) aconteceu num lugar com fortes ressonâncias literárias: a magnífica biblioteca setecentista do Palácio Nacional de Mafra, lugar a que Saramago deu um passado mítico inesquecível.

Alberto Manguel: Este lugar onde estamos é um lugar imaginário.

Gonçalo M. Tavares: É incrível, sim. Deu origem ao Memorial do Convento, de Saramago.

AM: Ah, eu pensei que Saramago, com o Memorial do Convento, é que deu origem a este lugar.

GMT: [Risos.] Podia ser uma hipótese.

[…]

GMT: Eu tenho montes de cadernos com projetos. Seguindo essa ideia de Borges, qualquer dia publico os projetos. O que é bonito num projeto é que ele tem a potência de não estar ainda materializado.

AM: E o leitor não pode criticar-te um projeto. Tu dizes-lhe: ainda não está terminado. Katherine Mansfield diz, no diário, que quando escreve tem um projeto; e esse projeto é perfeito, como um chá que vai preparar. Tem a chaleira quente, o chá está pronto, mas, quando vai fazê-lo, descobre que afinal o chá não tem sabor. Era preferível tê-lo em projeto.

GMT: Eu gosto do projeto que é também uma síntese. Quando falo de síntese não é tanto da frase perfeita. É mais como se tivéssemos uma ideia que pode ocupar cem metros quadrados e tentássemos reduzi-la para dez metros quadrados, um metro quadrado, um centímetro quadrado… Uma linha de textos deve ter cinco milímetros quadrados. Portanto, é tentar pôr uma ideia que pode ocupar cem metros quadrados em cinco milímetros quadrados. Por isso é que eu falo da coisa como síntese e potência, e não como perfeição. a perfeição era estar lá tudo. O que eu vejo é o leitor a pegar naqueles cinco centímetros quadrados e a começar a desdobrá-los; passar para um metro quadrado, para dez metros quadrados, para cem metros quadrados. Como se fosse uma coisa japonesa em papel. Um desdobrar que é manual e individual, do leitor.» [Visão, 12/11/2020]


As obras de Gonçalo M. Tavares editadas pela Relógio D’Água estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/goncalo-m-tavares/

23.11.20

Sobre Dois Hussardos e A Felicidade Familiar, de Lev Tolstói




Este livro reúne duas narrativas de Tolstói, escritas na década de cinquenta do século XIX.

Dois Hussardos (1856) tem, segundo Italo Calvino, as melhores características da primeira fase criativa de Tolstói.

«Um dos textos em que a “construção” tolstoiana é mais visível é Dois Hussardos, e como este é um dos seus contos mais típicos – do primeiro e mais directo Tolstói –, e dos mais belos, observando como é feito podemos aprender alguma coisa sobre o modo de trabalhar do autor.

Escrito e publicado em 1856, Dois Hussardos apresenta-se como reevocação de uma época já remota, os inícios do século XIX, e o tema é o da vitalidade, irrompente e sem freio, uma vitalidade vista como já longínqua, perdida, mítica. As estalagens onde os oficiais em marcha esperam a muda dos cavalos para os trenós e se depenam uns aos outros jogando às cartas, os bailes da nobreza de província, as noites de boémia “com os ciganos”: é na classe alta que Tolstói representa e mitifica esta violenta energia vital, quase um fundamento natural (perdido) do feudalismo militar russo.» [Porquê Ler os Clássicos?, Italo Calvino]


Dois Hussardos e A Felicidade Familiar (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra) e outras obras de Lev Tolstói estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/lev-tolstoi/

 

Sobre Madame Bovary, de Gustave Flaubert

 



«Madame Bovary sou eu», disse uma vez Flaubert, a quem o êxito do seu ro­mance publicado em 1856 acabou por irritar, de tal modo eclipsou os seus outros livros.

Emma Bovary persegue a imagem do mundo que lhe é dada por uma certa literatura desligada da realidade. Arrastada pelas suas ilusões, a mulher do prosaico Charles Bovary imagina-se uma grande amorosa.

A realidade revela-se impiedosa. E, no entanto, Madame Bovary, na época judicialmente perseguido devido à sua «cor sensual» e à «beleza provocadora de Emma», está longe de ser uma simples lição de realismo.


Madame Bovary (trad. João Pedro de Andrade) e outras obras de Gustave Flaubert estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/gustave-flaubert/


Sobre Demasiada Felicidade, de Alice Munro

 



Na primeira história, uma jovem mãe é libertada, por um volte-face surpreendente, do sofrimento de ter perdido os seus três filhos. Noutra história, uma rapariga reage a um caso humilhante de sedução com uma solução astuta ainda que pouco louvável. Outros contos revelam as zonas de sombra de um casamento, a crueldade insuspeita das crianças ou a maneira como a cara desfigurada de um rapaz é o motor de tudo o que há de bom e de mau na sua vida. E na longa história que dá título ao livro, acompanhamos Sophia Kovalevsky — emigrante russa e matemática de finais do século XIX — numa viagem que empreende no Inverno através da Europa, até chegar à Suécia onde encontra finalmente uma universidade disposta a contratar uma mulher para leccionar Matemática.

Alice Munro transforma uma vez mais acontecimentos e emoções complexos em histórias que iluminam a maneira imprevisível como os homens e as mulheres acomodam e muitas vezes transcendem o que acontece nas suas vidas. 


«Na sua mais recente recolha de contos, Demasiada Felicidade – um título que é a um tempo de uma ironia cortante e de uma sinceridade apaixonada – Munro explora temas, ambientes e situações já familiares na sua obra, agora vistas numa surpreendente perspectiva temporal. O uso que faz da linguagem poucas mudanças conheceu ao longo das décadas e a sua concepção do conto permanece inalterada. Munro é herdeira do realismo lírico de Tchékhov e Joyce, demonstra pouco interesse pela ficção tensa e despojada dos diálogos de Hemingway e a ostentação literária de Nabokov é-lhe inteiramente estranha – como de resto qualquer espécie de “experimentalismo”.» [Joyce Carol Oates, The New York Review of Books]


Demasiada Felicidade (trad. José Miguel Silva) e outras obras de Alice Munro estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/alice-munro/


Sobre O Conteúdo da Felicidade, de Fernando Savater

 



«Na memória, de resto, a felicidade é qualquer coisa como um poço de beatitude em que nada acontece e nada falta: um espaço em branco, mas de um branco brilhante. Daí que Tolstoi afirmasse que as famílias felizes não têm história; e Hegel, que os períodos de felicidade são como vazios na história dos povos. Outro paradoxo, pois: a felicidade é uma das formas da memória, mas também como que o reverso amnésico da mesma. Recordamos o momento feliz como aquele em que nos esquecemos de tudo o resto. É precisamente porque não há realmente nada que contar da felicidade que nos agarramos à sua recordação — à recordação de um vazio, de um espaço em branco, de uma perda — com a força inamovível e algo ridícula de um ato de fé. Enquanto objeto conceptualizável, a felicidade é opaca, revela‑se refratária à tarefa reflexiva. A sua expectativa ou a sua nostalgia dão que pensar, mas ela própria — enquanto presença recordada — não.»


O Conteúdo da Felicidade (trad. Francisco Vale) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/o-conteudo-da-felicidade-2/