5.2.18

Nas livrarias: Os Cães e os Lobos, de Irène Némirovsky




Os Cães e os Lobos, publicado em 1940, tem nítidas relações com a história pessoal de Irène Némirovsky, romancista influenciada pela cultura judaica, francesa e eslava.
Nascida no seio da grande burguesia ucraniana, Irène Némirovsky e a família abandonaram Kiev depois da Revolução de Outubro de 1917, acabando por encontrar refúgio em França.
No centro deste romance está o amor insensato de Ada, uma judia pobre, por Harry, filho de um rico banqueiro judeu. Ada apaixona-se quando é uma criança (viria a tornar-se uma pintora original e revoltada).
Atraídos um pelo outro, nada os reúne excepto o sentimento da sua perda inevitável.
Os Cães e os Lobos é um texto marcado pela melancolia, um romance sobre a infância e a inocência perdida, uma obra-prima indiscutível da literatura do século xx.

De Irène Némirovsky a Relógio D’Água publicou também David Golder, O Baile e O Vinho da Solidão.

No ípsilon, Mário Santos escreveu sobre Mulheres Excelentes, de Barbara Pym (trad. Vasco Gato)





«Mulheres Excelentes é o segundo romance de Barbara Pym (sendo a edição original de 1952). O título — adivinha-se — é irónico e o romance é simultaneamente alegre e triste. Mais alegre do que triste (ou alegre porque triste). Não estivesse o adjectivo tão mal conotado neste nosso mundo ‘globalizado’ e cosmopolita, e eu diria que é um excelente romance paroquial (…)
A acção decorre em Londres, numa paróquia situada “do lado ‘errado’ de Victoria Station”, logo depois da guerra, cujo ascendente é legível de diversos modos e com diversos efeitos: a ala da igreja destruída por uma bomba, a partilha forçada do quarto-de-banho entre vizinhos, os militares que regressam e encontram os fatos comidos pela traça, o racionamento (que durou até 1954, recorde-se), a frugalidade das refeições (“cozi um ovo importado para o almoço”), etc.

No trilho aconchegado de um realismo social e psicológico prosaico, cómico e doméstico — com roupa interior a secar na cozinha, louça por lavar e mobília comida pelo caruncho —, a narração é feita pela protagonista, Mildred Lathbury.» [Mário Santos, Público, ípsilon, 2/2/2018]

2.2.18

A chegar às livrarias: O Santinho, de Georges Simenon (trad. de Catarina F. Almeida)




O Santinho é um marco na obra de Simenon. O livro é um ponto de viragem para o autor, pois é a primeira vez que retrata a vida como algo que se desenvolve serenamente sem ameaças de desintegração.
O pequeno Louis é o filho ilegítimo de uma vendedora ambulante de fruta e legumes que deambula pela Rue Mouffetard, num dos bairros mais sinistros de Paris. É pequeno e delicado, uma exceção num mundo rude e violento. A mãe, a quem Louis é particularmente ligado, apesar de promíscua, é calorosa e enérgica.
Simenon dá-nos a sensação do isolamento da criança de modo discreto. Recriando de forma meticulosa todas as mudanças na vida, moda e conforto que se viviam em Paris antes da Primeira Guerra Mundial, este romance é um elogio aos tempos de Lautrec, Picasso, Braque e Matisse.

“Um dos maiores escritores do século XX.” [The Guardian]

“Adoro ler Simenon. Faz-me lembrar Tchékhov.” [William Faulkner]

“Simenon é autor de várias obras-primas do século XX.” [John Banville]

“O maior e mais genuíno romancista de toda a literatura.” [André Gide]


“Um escritor maravilhoso… Lúcido, simples, em perfeita sintonia com o que escreve.” [Muriel Spark]

A chegar às livrarias: Prefácios, de Søren Kierkegaard (trad. de Susana Janic)





«Os oito prefácios diferem entre si na estrutura, na extensão e no enfoque com que abordam a temática dos livros fictícios e os respectivos autores cuja apresentação pública encenam. Uma coisa, todavia, mantém­‑se constante: o grau de corrosão com que neles se desenha a sátira dos usos e costumes do mundo leitor e dos arautos da cultura de Copenhaga, com incidência maior ou menor na contaminação entre a importância comercial, o valor cultural de obras e de autores, a relação interesseira entre a Filosofia e a Teologia contemporâneas e a estipulação do gosto do público.» [Da Introdução de Elisabete M. de Sousa]

1.2.18

Jaime Rocha e Ana Teresa Pereira finalistas do Prémio Correntes d’Escritas




O Prémio Correntes d’Escritas, atribuído no festival literário que decorre na Póvoa de Varzim, será este ano atribuído a uma obra de ficção.
Entre as 14 obras finalistas, estão os livros Escola de Náufragos, de Jaime Rocha, e Karen, de Ana Teresa Pereira, ambos publicados pela Relógio D’Água.


O júri é constituído por Fernando Pinto do Amaral, José Mário Silva, Maria de Lurdes Sampaio, Teresa Martins Marques e Javier Rioyo.

O vencedor será anunciado no dia inaugural do festival, 21 de Fevereiro.

Sobre Fanny Owen, de Agustina Bessa-Luís




No âmbito da iniciativa Ano Agustina, em que, mensalmente, ao longo de 2018, a Comunidade Cultura e Arte publicará uma crítica a um dos livros de Agustina Bessa-Luís, do catálogo reeditado pela Relógio d’Água.
No dia 28 de Janeiro foi publicada a crítica de Miguel Fernandes Duarte a «Fanny Owen»:
«No Porto do séc. XIX, dois amigos boémios apaixonam-se pela mesma jovem mulher, sendo que um deles, intimado pela mesma, a rapta para com ela se casar por procuração. As expectativas face à relação saem, no entanto, goradas, e, no espaço de um ano, ela morre, enferma, de desgosto, vítima de tuberculose; um mês depois morre ele, em Lisboa. A jovem mulher era Fanny Owen, filha do coronel Hugh Owen, inglês combatente na guerra peninsular, fixado em Portugal após casamento com D. Maria Rita, filha de um abastado comerciante de vinho do Porto e educada “na corte de Carlota Joaquina, o que não era garantia nenhuma de educação.” Os dois amigos José Augusto de Magalhães – o raptor de Fanny -, morgado e medíocre poeta, e o outro Camilo Castelo Branco, o tal que se tornou um dos maiores escritores da língua portuguesa.
Partindo desta história verídica, Agustina Bessa-Luís escreve em 1979 o romance histórico Fanny Owen, após, segundo a própria, Manoel de Oliveira lhe ter pedido para escrever os diálogos de um filme que ele quereria fazer sobre Fanny Owen, e que veio a ser Francisca, de 1981. Oliveira desmente em posterior entrevista que tenha sido ele a pedir algo a Agustina, afirmando, como indica Hélia Correia no prefácio à mais recente edição do livro pela Relógio d’Água, que “não houve nenhuma combinação prévia. Li o livro e fiquei encantado porque a ideia de fazer Fanny Owen já a trazia comigo há muito tempo.” Quer se concorde em qual das versões está a verdade ou não, é um facto que a história deste dramático triângulo amoroso, que Agustina decide contar, marca também a primeira colaboração entre a escritora e o realizador Manoel de Oliveira.
Fanny Owen é relato dos acontecimentos, de como evolui a relação entre as três personagens, de como se processa a relação amorosa que culmina na morte do casal, mas é, muito mais que narrativa, análise das motivações das personagens, retrato racional de situação fogosa, com o distanciamento que permite a Agustina não cair nos exageros dramáticos das personagens. […]»

Benjamin Moser no Festival Literário da Madeira





A Relógio D’Água acaba de publicar Porquê Este Mundo, a biografia que Benjamin Moser escreveu sobre Clarice Lispector.
O autor estará presente no FLM, que decorre de 13 a 17 de Março, no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal. O tema do festival em 2018 é “Literatura e Jornalismo, a palavra que prende e a palavra que liberta”. Mais informações sobre o FLM em: http://www.festivalliterariodamadeira.pt/pt .


Benjamin Moser nasceu em Houston em 1976. Estudou nas faculdades de Brown (EUA) e Utrecht (Países Baixos), onde recebeu o doutoramento. O seu primeiro livro, Porquê este mundo: uma biografia de Clarice Lispector, recebeu vários prémios e nomeações, foi editado e traduzido pelo mundo inteiro, e abriu o caminho para a redescoberta internacional da obra da escritora brasileira, de quem é editor da nova tradução completa para o inglês. É colunista do The New York Times, fala oito idiomas, e em 2016 publicou Autoimperialismo: Três ensaios sobre o Brasil. Está a terminar a biografia autorizada de Susan Sontag. Vive entre a França e a Holanda.