7.3.23

Entrevista de Rui Nunes

 



«Em 2022, Rui Nunes escreveu um livro com o título Irradiante, o negro. Nele, um homem vai morrendo, mas nesse processo vislumbra-se uma espécie de luz. É um livro difícil de catalogar, desafiador, como quase tudo o que escreve este homem de 76 anos, formado em Filosofia, ex-professor, que diz que não gosta de fazer frases, que gosta de conversas, de ter hesitações, que aprecia não saber nada muito bem. E que não gosta da palavra morte. Desafiado para pensar o tema, ri e aceita porque acha divertido.

A conversa acontece em casa, numa das salas. Quando a luz incide demasiado numa divisão, ele sai para outra. Vê mal. Escreve à mão numa caligrafia certa e sem olhar as palavras que está a desenhar, até que alguém lhas lê. Foi assim que nasceu o moribundo de Irradiante, o negro. Naquele espaço, sob os olhos gigantes de Kafka numa fotografia a preto e branco, mesmo por cima da estante onde está o livro da sua vida: Guerra e Paz, um livro de guerra, de mortos. Seguimos com ele e com aquilo a que Rui Nunes chama “os seus mortos”, as suas memórias de pessoas que começou a ver morrer muito cedo, porque vivia com velhos. Nisto não há nada de tétrico: apenas um olhar de frente para o morto não anónimo, o único que conhecemos, e que teremos desaprendido de olhar.


— Estava ali às voltas com a luz para a fotografia e disse: há lá coisa mais divertida do que falar da morte?! Uma provocação?


— Também, mas é divertido falar da morte. É rir daquilo que é considerado sério e importante. É muito mais divertido falar das coisas graves do que as outras. Mas não gosto nada de falar da morte. Gosto de falar dos mortos. A morte é uma abstracção. Ao longo dos séculos, produziram-se imensos tratados sobre a morte, mas não há tratados sobre os mortos a não ser os de anatomia. Não se pensa o morto.


— Porquê?


— Porque cada morto somos nós e essa visão não é agradável. Mas pensar a morte é fascinante, porque estamos a pensar qualquer coisa que não existe, porque não há uma experiência da morte. Há uma experiência de ir morrendo.» [Rui Nunes em entrevista a Isabel Lucas, Público, 5/3/2023: https://www.publico.pt/2023/03/05/culturaipsilon/entrevista/rui-nunes-civilizacao-aprendizagem-horror-morte-2040460]


Irradiante, o negro e outras obras de Rui Nunes estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/rui-nunes/

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