11.7.17

Sobre Memórias do Subterrâneo, de Fiódor Dostoievski




«Romance breve e bizarro, “Memórias do Subterrâneo” (1864) antecipa alguns temas da obra-prima que se seguiu, “Crime e Castigo” (1866). À primeira vista, as Memórias parecem apenas o solilóquio de um protagonista doente, amargo, exasperado, às voltas com as recordações de uns confrontos banais, de uns quantos masoquismos e impiedades. O enredo é escasso, as personagens nem chegam a ser esboçadas, de modo que a fúria, o fatalismo e a autocomiseração do “homem subterrâneo” se fazem personagens. E percebemos aos poucos que estamos perante uma diatribe filosófica, um romance de ideias, ou, como diz o protagonista, “ideiazinhas”. (…)
Surge então a única outra personagem digna desse nome: uma jovem prostituta chamada Liza, uma daquelas mulheres dóceis e indómitas que povoam a ficção de Dostoievski. E com ela a dúvida: pode o amor libertar um indivíduo da sua autocondenação? A verdade é que o protagonista, embora se sinta atraído pela rapariga, prefere humilhá-la, ou continuar  as suas infindáveis teorizações, qualificando o amor como uma forma de “subjugação moral”, o que aliás não é falso. O “homem subterrâneo” não ignora que o amor modifica as pessoas, e até é capaz de admitir que o amor é preferível à felicidade. Mas a sua capacidade de acção está em definitivo bloqueada. Liza reage de um modo natural e aflito: “O rosto dela exprimia a princípio como que perplexidade, como que medo, mas apenas por um instante. Abraçou-me com arrebatamento e ardor.” Trata-se porém de um fogacho sem futuro.» [Pedro Mexia, Expresso, E, 1/7/2017]

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