1.8.16

Sobre Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust




«E no entanto qualquer leitor descobre que, mais filosofia menos filosofia, o que se mostra no livro é que as nossas memórias não são de fiar: são parte do “erro perpétuo a que se chama vida.” Talvez Proust estivesse aqui a exagerar: mas talvez este romance seja importante por ser tão parecido com quem o consegue ler. E a confirmação disto é que quem o consegue ler percebe-o sempre, mesmo que não se lembre de tudo, que nunca tenha posto os pés em Paris, ou recebido um telegrama.» [Miguel Tamen, Observador, «O que faz de “Em Busca do Tempo Perdido” um clássico?», 24/7/2016]


 


«Avanço para À l’ombre des jeunes filles en fleur. Começa a ser difícil. Passo para Le Temps Retrouvé. Tenho vinte anos, estou a ler ao mesmo tempo A Montanha Mágica, o paralelo é promissor. Proust tem para mim um problema só: é demasiado. É irrespirável de bom. É esmagador de bem feito. É preciso fazer tanto compromisso para tanta sensibilidade! Negociar sempre com ele este caminho, transformar a sensiblerie em sensibilidade, a susceptibilidade em fragilidade, o estético em interessante, o bonito em belo, o bem escrito em bem pensado… e acaba por ser estafante, como Stendhal em Florença, a síndrome instala-se, deixa-me ir ver televisão, uma coisa estúpida e ligeira…

Mas volto a Proust sempre, porque as descrições são extraordinárias, e aquelas tias (mas aqueles salões, as conversas nos salões!…) e a linguagem banha tudo, transforma tudo, empapa tudo, e o que se me impõe é apenas o fantasma de um homem fechado num quarto e em si próprio, a escrever.»

[Luísa Costa Gomes, Observador, «O que faz de “Em Busca do Tempo Perdido” um clássico?», 24/7/2016]

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