No ípsilon de 8 de Fevereiro, Alexandra Lucas Coelho
conta-nos o seu encontro na cidade de Curitiba com Dalton Trevisan, Prémio
Camões 2012 e o mais «invisível» escritor brasileiro.
«Estou assim, cara na grade, quando uma figura entra no meu
campo de visão. É um homem de boné, um pouco curvado, mãos atrás das costas,
passo firme. Caminha ao longo das árvores como se matutasse, quase falasse com
ele mesmo. Vai até ao fim e volta, na mesma cadência. Cai o vermelho, cai o
verde, Curitiba roda à volta do seu vampiro. Não me ocorre tirar fotografias
nem esconder-me. Ocorre-me que talvez Dalton saiba que eu ia ver a casa. Chain
[livreiro de Curitiba], fiel, não lhe diria? Se disse, terá Dalton saído ao
jardim para me deixar com estas perguntas? E nisto o boné desaparece em
direcção à casa. (…) “Era ele mesmo”, confirma Chain, quando volta à livraria.
Tem a certeza? Dalton vive sozinho? E usa aquele boné? Sim, sim e sim. (…)
Não sei se Dalton alguma vez escreveu “Raskolnikov sou eu”,
mas sei que escreveu “Capitu sou eu”, e os amigos contam que ele não tem
dúvidas sobre o maior enigma da literatura brasileira: Capitu (heroína de Dom
Casmurro) traiu Bentinho? Machado de Assis é o herói de Dalton Trevisan
(juntem-lhe Flaubert, Tchékhov e cinefilia).
Na manhã seguinte paro na livraria a caminho do aeroporto.
Lá estão os livros que comprei, todos assinados. E mais dois com dedicatória:
oferta do vampiro.»
Sem comentários:
Enviar um comentário