15.10.20

Sobre Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís

 



«“Nós devemos escrever sobre aquilo que conhecemos”, foi sempre o conselho dado por Agustina aos que se iniciavam na escrita. E foi por onde também começou — pelo mundo rural que tão bem conhecia, a Casa do Paço, em Travanca, aquele mundo fechado que frequentara em criança e adolescente, onde o convívio com as tias Maria e Amélia, sobretudo Amélia (a Sibila), fora o exemplo para a sua vida, um legado de sabedoria transmitido como uma profecia. As duas últimas páginas d’A Sibila testemunham, numa linguagem oracular, como num transe arrepiante e comovente, pela revelação do profundo, a transmissão de um destino, que ela, Agustina, terá de continuar a cumprir, depois da morte da Sibila. Deuses de Barro, se por um lado é um esboço para a descoberta dos mundos fechados que integram estes três romances iniciais, por outro, representa já um grito de liberdade, ousadia, revolta e desafio contra os deuses de barro que nos vigiam, nos tolhem, com quem somos obrigados a conviver e a venerar.» [Do Prefácio]


Deuses de Barro é o romance inédito que Agustina Bessa-Luís escreveu aos dezanove anos.

Esta e outras obras de Agustina Bessa-Luís, que comemoraria hoje 98 anos, estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/agustina-bessa-luis/

Sobre Para além do Bem e do Mal, de Friedrich Nietzsche

 




«Talvez mais do que qualquer outro livro de Nietzsche, o Para além do Bem e do Mal (1886) é uma obra programática, no sentido em que expõe com relativa clareza figuras do futuro e aponta formas positivas da moral e da política. É como se apenas nesse momento a filosofia de Nietzsche adquirisse a qualidade daquilo a que Hegel chamava «espírito objectivo», ou seja, uma estrutura de pensamento que já não depende de uma subjectividade e adquiriu autonomia. O que caracteriza esse espírito é que ele recolhe todos os traços relevantes que desde o início se desenvolveram e foi construindo uma figura própria ao longo da sua história. Na verdade, agora Nietzsche recupera e sistematiza a seu modo temas, estilos, argumentos e obsessões que, desde o Humano, Demasiado Humano, tomaram forma no seu pensamento. Veremos no entanto que esse carácter programático consiste mais numa ordenação de características típicas do filósofo do futuro, do que num programa moral novo.» [Do Prefácio de António Marques]


Esta e outras obras de Friedrich Nietzsche estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/friedrich-nietzsche/

Apresentação de Hoje, «O que Move o Silêncio do Cavalo e Anteriores Lugares», de Maria Andresen

 



Hoje, às 18:30, na Cinemateca Portuguesa, Joana Matos Frias apresenta «O que Move o Silêncio do Cavalo e Anteriores Lugares», de Maria Andresen.

Sobre Carson McCullers

 



«Carson McCullers (1917-1967) é uma escritora norte americana que se estreou muito jovem com o conto “Wunderkind” e aos vinte e três anos vê iniciado o seu trilho literário com O Coração é um Caçador Solitário, seguido de vários, entre eles Reflexos num Olho Dourado, Frankie e o Casamento e mais tarde em 1951 A Balada do Café Triste.

Em todos os seus livros McCullers traz rente a solidão pelo freio. São livros desconcertantes com sabor a caos, descontrole, impotência. São livros sem pessoas felizes, sem casas felizes, sem casamentos felizes, sem finais felizes, o que vai certeiramente ao encontro do pensamento da escritora que considerava que “as pessoas felizes não têm história”. Será que não têm história mesmo? A verdade é que na ausência de felicidade, o que assistimos em toda a sua obra é a uma aflição angustiante e um sentido inóspito de recusa. Há uma visão implacável do ser humano, do seu teatro, dos seus trejeitos moribundos, da sua capa imunda de remendos.» [Rita Homem de Mello, i, 14/10/2020. Texto completo aqui.]


As obras de Carson McCullers editadas pela Relógio D’Água estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/carson-mccullers/

14.10.20

Sobre Contos de Katherine Mansfield

 



Nascida em 1888, amiga de Virginia Woolf e D. H. Lawrence, contemporânea de um James Joyce que admirava e leitora atenta de Tchékhov, que morreu quando ela começava a escrever, Katherine Mansfield participou na renovação da difícil arte do conto, ajudando-o a libertar-se da moral vitoriana e do clássico enredo e dissolvendo a rigidez das perspectivas em sensações e recordações em subtil relação com a realidade exterior. 


Contos de Katherine Mansfield está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/contos-de-katherine-mansfield/

Apresentação de «Sapatos de Corda — Agustina», de Mónica Baldaque

 




«Minha Mãe estava tranquila quanto à minha educação, e passava as semanas por casa, a escrever, a ler; no inverno vestia um kilt comprido, uma manta de xadrez nas pernas, a botija no colo, a lareira acesa; no verão, os vestidos leves de linho branco, as portas abertas para o pinhal.

Não esqueço as caminhadas de minha mãe, na praia, os sapatos de corda brancos que descalçava e sacudia da areia quando chegava ao caminho. Nenhuma pegada ficara para trás. De longe, eu via, com sobressalto, que às vezes a imagem de minha mãe desaparecia, ou porque um raio de sol a assombrasse, ou porque partia no dorso de um tubarão branco num passeio vertiginoso e imprudente, ou porque…»


De Poesia Completa, de Manoel de Barros

 



«Os girassóis de Van Gogh


Hoje eu vi

Soldados cantando por estradas de sangue

Frescura de manhãs em olhos de crianças

Mulheres mastigando as esperanças mortas


Hoje eu vi homens ao crepúsculo

Recebendo o amor no peito.

Hoje eu vi homens recebendo a guerra

Recebendo o pranto como balas no peito.


E, como a dor me abaixasse a cabeça,

Eu vi os girassóis ardentes de Van Gogh.» [p. 34]


Poesia Completa, de Manoel de Barros, está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/poesia-completa/