8.6.22

Sobre «Rebuçados Venezianos», de Maria Filomena Molder

 

«Como muito bem viu Jean Genet, há um litígio insuperável entre estética e história. A primeira configura-se a partir do reduto secreto que constitui cada ser (seja rosto ou quadro) e só ela lhe pode fazer justiça (Baudelaire chama-lhe “soluço ardente”). Sendo assim, é preciso fazer uma dieta rigorosa do histórico enquanto descrição de “como se passaram as coisas”. Desse modo ganha-se uma visão inédita do contemporâneo — para a qual “Les Phares” aponta inequivocamente e que o conceito benjaminiano do “agora da cognoscibilidade” formaliza —, a simultaneidade possível de todas as obras de arte passadas com o presente e a transformação das obras do presente em oferendas funerárias ao grande povo dos mortos: eles um dia também foram vivos.» [Do capítulo «Um Soluço Ardente»]
 
«Rebuçados Venezianos» é constituído por textos sobre a obra de alguns artistas contemporâneos e sobre questões de crítica e história de arte, redigidos entre 2000 e 2016. O título é uma homenagem à pintora Luísa Correia Pereira.

«Rebuçados Venezianos», de Maria Filomena Molder, está disponível em: https://relogiodagua.pt/produto/rebucados-venezianos/

7.6.22

Sobre «Lincoln no Bardo», de George Saunders

 

«Lincoln no Bardo» é o primeiro romance de George Saunders. Nestas páginas, o autor revela-nos o seu trabalho mais original, transcendente e comovedor. A acção desenrola-se num cemitério e, durante apenas uma noite, a história é-nos narrada por um coro de vozes, que fazem deste livro uma experiência impar que apenas George Saunders nos conseguiria dar.
Ousado na estrutura, generoso e profundamente interessado nos sentimentos, «Lincoln no Bardo» é uma prova de que a ficção pode falar sobre as coisas que realmente nos interessam. Saunders inventou uma nova forma narrativa, caleidoscópica e teatral, entoada ao som de diferentes vozes, de modo a fazer-nos uma pergunta profunda e intemporal: como podemos viver e amar sabendo que tudo o que amamos tem um fim?

«Lincoln no Bardo», de George Saunders, está disponível em: https://relogiodagua.pt/produto/lincoln-no-bardo/

6.6.22

Sobre «Um Tiro no Escuro», de Sandro William Junqueira

 

«Para quem não conhece as suas subtilezas, o “snooker” pode parecer um jogo moroso e aborrecido, com “dois gajos a enfiar bolas nos buracos à vez”. A beleza do “snooker” só surge quando se começa a entender a conjugação de perícia e estratégia, de geometria e paciência, essa “fina membrana que esconde um “tsunami” de dor e glória, de solidão e superação”. É da dor subterrânea, mais do que da eventual glória, que nos fala este poderoso conto de Sandro William Junqueira, adaptado de um texto dramático que não perdeu tensão, nem arrebatamento, ao passar para outra forma narrativa — um trânsito que o autor já experimentara em livros anteriores, como “A Sangrada Família” (2021) ou “Quando as Girafas Baixam o Pescoço” (2017).»

[José Mário Silva, «Onde é sempre noite», «E», 2022/06/03]

«Um Tiro no Escuro», de Sandro William Junqueira, está disponível em: https://relogiodagua.pt/produto/um-tiro-no-escuro-pre-venda/

Sobre «Duas Mulheres», de Maria Filomena Mónica

 


No Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer, da SIC Notícias, João Miguel Tavares sugere o livro de Maria Filomena Mónica, «Duas Mulheres»:

«“Duas Mulheres” de Maria Filomena Mónica é uma espécie de adenda ao “Bilhete de Identidade” (…). Neste caso, contado, a partir de cartas, a história da sua mãe e a história da sua avó.»

https://sicnoticias.pt/programas/programa-cujo-nome-estamos-legalmente-impedidos-de-dizer/ministro-da-oposicao-para-que-ministro-da-pura-provocacao-e-ministro-dos-recursos/

«Duas Mulheres», de Maria Filomena Mónica, está disponível em: https://relogiodagua.pt/autor/maria-filomena-monica/

Sobre «As Ondas», de Virginia Woolf

 

 

«As Ondas» é considerado o mais radical romance de Virginia Woolf — um desses raros escritores que nasceu no «instante em que uma estrela se pôs a pensar».
Marguerite Yourcenar, sua tradutora francesa, descreveu-o assim:
«“As Ondas” é um livro com seis personagens, ou melhor, seis instrumentos musicais, pois consiste unicamente em monólogos interiores, cujas curvas se sucedem e entrecruzam com uma segurança que lembra a “Arte da Fuga” de Bach. Nesta narrativa musical, os breves pensamentos de infância, as rápidas reflexões sobre os momentos de juventude e de confiante camaradagem desempenham o mesmo papel dos “allegri” nas sinfonias de Mozart, abrindo espaço para os lentos andantes dos imensos solilóquios sobre a experiência, a solidão e a maturidade.
Tanto como uma meditação sobre a vida, “As Ondas” são um ensaio sobre a solidão. Trata-se de seis crianças, três raparigas, Rhoda, Jinny e Susan; e de três rapazes, Louis, Neville e Bernard, que vemos crescer, diferenciarem-se e envelhecer. Uma sétima criança, que nunca toma a palavra e que só conhecemos através dos outros, é o centro do livro, ou melhor, o seu coração.»

«As Ondas» e outras obras de Virginia Woolf estão disponíveis em: https://relogiodagua.pt/autor/virginia-woolf/

 

3.6.22

Sobre «Um Tiro no Escuro», de Sandro William Junqueira

 

«“Um Tiro no Escuro” narra um jogo de “snooker” em três “frames” (nome dado às partidas que o compõem) e dois adversários: Alexandre, o Grande, “o maior talento que Esposende já produziu”, e Carlos Magnum, “um revólver de alto calibre”. Mas, e diga-se logo ao começo, o jogo não interessa. É uma paisagem. Uma distracção. Um embuste. Um truque de ilusionismo. (…). Ninguém veio pelo jogo.” Pois não. O que agarra o leitor logo nas primeiras linhas é a escrita subversiva de Sandro William Junqueira a exercitar com talento os seus recursos estilísticos. “No snooker, como na vida, quem não consegue controlar a bola não consegue controlar o jogo. No snooker, como na vida, dá-se a primazia ao monólogo em vez de se promover o diálogo.”»

[José Riço Direitinho, «Da vida dos bons malandros», «Ípsilon», 2022/06/03]

«Um Tiro no Escuro», de Sandro William Junqueira, está disponível em: https://relogiodagua.pt/produto/um-tiro-no-escuro-pre-venda/


Sobre «Contos de Odessa», de Isaac Babel

 

«São oito os “Contos de Odessa”, um ramalhete rubro de sangue e fogo, de humor e vida. Têm em comum o lugar da acção e várias personagens. Os quatro primeiros — “O rei”, “Como se fazia em Odessa”, “O pai” e “Liubka Cossaco” — foram escritos e publicados avulsamente entre 1921 e 1924 e constituem um assombroso exercício de mitificação, simultaneamente nostálgico e paródico, da vida no bairro Moldavanka no início do século XX. “A loja cheirava a muitos mares e a vidas maravilhosas, misteriosas para nós.” — lê-se em “O pai” — e no balcão viam-se “azeitonas vindas da Grécia, azeite de Marselha, café em grão, vinho málaga de Lisboa, sardinhas da marca Philippe & Kano e pimenta-de-caiena.” (p. 30) Sobre o casamento do “rei” do crime odessano, que só o amor derrotou, diz-se que Bênia Krik “conseguiu o que queria, porque todo ele era paixão, e a paixão impera no mundo. Os recém-casados passaram três meses na fecunda Bessarábia entre vinhas, mesa farta e suor amoroso.” (p. 12) A Odessa babeliana é, portanto, uma espécie de faustoso submundo felliniano, violento e vivo, afirmativo, poético e grotesco. Exceptuando algumas imagens mais luxuriantes, o estilo de Babel é conciso e ritmado, expedito e cortante.»

[Mário Santos, «Entre vinhas, mesa farta e suor amoroso», «Ípsilon», 2022/06/03]

«Contos de Odessa» e outras obras de Isaac Babel estão disponíveis em: https://relogiodagua.pt/autor/isaac-babel/