24.2.21

Homenagem a Lawrence Ferlinghetti

 





Morreu no passado dia 22 de Fevereiro , aos 101 anos, o poeta, dramaturgo e editor Lawrence Ferlinghetti, um dos impulsionadores da Beat Generation, ao lado de Jack Kerouac e Allen Ginsberg.

Descendente de uma família italo-portuguesa, Ferlinghetti nasceu em Nova Iorque em 24 de Março de 1919.

O pai, imigrante, morreu seis meses antes do seu nascimento. Quando tinha dois anos, a mãe teve sérios problemas nervosos. Por isso, foi criado por um tio materno e por uma tia de origem francesa, de nome Emily. Quando o casal se separou, Ferlinghetti teve de mudar-se para França com Emily. De regresso aos EUA, viveu num orfanato, pois a tia ficara desempregada.

Apesar das dificuldades, conseguiu formar-se como jornalista na Universidade da Carolina do Norte em 1941, indo então servir na marinha americana durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de esta terminar, obteve um mestrado em Columbia e um doutoramento na Sorbonne. Em Paris, conheceu a poesia de Eliot e Pound e encontrou Kenneth Rexroth, que o convenceu a ir para São Francisco para participar na cena contracultural da cidade.

Aí fundou como sócio a livraria e editora City Lights, especializada em poesia (publicou o livro Howl de Allen Ginsberg, censurado e confiscado pelas autoridades norte-americanas, que processaram o editor).

O papel de Ferlinghetti foi essencial na criação do movimento da Beat Generation. Como refere Larry Smith, autor do livro Lawrence Ferlinghetti: Poet-at-Large: “O que resulta do panorama histórico em que Ferlinghetti se envolveu é um padrão social envolvente de experimentação literária.” Smith acrescenta que o papel de Ferlinghetti foi muito superior ao de editor e organizador: “Além de ter moldado a ideia do que é ser um poeta no mundo, criou uma forma poética que é ao mesmo tempo retoricamente funcional e socialmente vital.”

Ferlinghetti defende que a arte deve ser acessível a todos, não apenas a um punhado de intelectuais com educação superior, e a sua carreira foi marcada por um constante desafio ao statu quo.

O seu livro A Coney Island of the Mind é um dos livros de poesia mais vendidos na história dos EUA.


De Lawrence Ferlighetti, a Relógio D’Água publicou em 2017 A Poesia como Arte Insurgente, o testemunho de uma geração para quem a poesia era sinónimo de subversão.


«MANIFESTO POPULISTA #2

(1978)


Filhos de Whitman, filhos de Poe

filhos de Lorca & Rimbaud

ou suas filhas obscuras

poetas com outro fôlego

poetas com outra visão

Quem de entre vós fala ainda de revolução

Quem de entre vós desaparafusa ainda

as fechaduras das portas

nesta década revisionista?

“São Presidentes do vosso próprio corpo, América”

Assim falava Kush em Tepoztlan

poeta anjo de cabelo selvagem e sangue jovem

membro de uma estirpe de poetas selvagens

à imagem de Allen Ginsberg

vagueando pela América selvagem

“Vós, Rimbauds com outro fôlego”

cantava Kush

antes de se afastar com a suas próprias paranóias particulares

enlouquecido como a maioria dos poetas

por uma ou outra razão louca

na cama desfeita do mundo

Filhos de Whitman

na vossa “solidão pública”

unidos pelo duende no seu sangue

“Presidentes do vosso próprio corpo, América”

Reconquistem‑no

a quem vos enlouqueceu

a quem o roubou

e o rouba diariamente» [pp. 97 e 99]


A Poesia como Arte Insurgente (tradução de Inês Dias) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/a-poesia-como-arte-insurgente/


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