15.2.19

Sobre A Espuma dos Dias, de Boris Vian




«Chamaram‑lhe, alguns, a obra‑prima do autor. E num prefácio que andou durante muito tempo colado ao seu “Arranca‑Corações”, Raymond Queneau não hesitava perante um rótulo hierarquizante e audacioso: “o mais pungente dos romances de amor contemporâneos”. Nos anos sessenta, “A Espuma dos Dias” circulou com estas difíceis responsabilidades.
Enfrentou‑as mostrando a singularidade de um universo ainda não conhecido com tanto talento na literatura; que se comprazia a impor aos homens e aos objectos leis novas, interdependentes. De facto, os objectos que lá existiam tinham um comportamento emotivo e implacavelmente ligado aos estados de alma de quem os utilizava. O que já antes parecia sugerido por Edgar Allan Poe em “A Queda da Casa Usher” assumia ali uma evidência despudorada que corria em dois sentidos, de sol e sombra, e nos informava muito mais sobre o interior das personagens do que qualquer alusão directa que o texto chegasse a fazer.» [Da Apresentação de Aníbal Fernandes]

Sobre O Banquete, de Platão




Carlos Vaz Marques falou sobre O Banquete, de Platão, no programa Livro do Dia de 12 de Fevereiro, na TSF. O programa pode ser ouvido aqui: https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/o-banquete-de-platao-10566807.html?autoplay=true

O Arranca Corações no São Luiz, até 17 de Fevereiro




Estreou ontem no Teatro São Luiz, na Sala Mário Viegas, a encenação de Nuno Nunes de O Arranca Corações, a partir da obra de Boris Vian.

Jacquemort, psiquiatra, chega a casa de Angel e Clémentine, que está em final de gravidez. Jacquemort vai então ajudá-la a dar à luz três rapazes gémeos, Noël, Joël e Citroën, que, ao contrário dos irmãos, nunca grita.
Angel está fechado em casa há dois meses pela mulher, que aceitou mal a gravidez. Só depois do parto é libertado. Jacquemort revela-lhe as razões que o levaram a este recanto aparentemente tranquilo. Ele possui uma capacidade de vazio e procura preenchê-la psicanalisando as pessoas e assimilando os seus sentimentos através de uma psicanálise «integral».
Neste romance, Boris Vian revela um universo terrível, o dos desejos mais implacáveis, em que todo o amor esconde o ódio.
Como escreveu Gilbert Pestureau, no prefácio à edição francesa, neste romance em que o número três desempenha um papel central, «os adultos são selvagens, ferozes ou infelizes, condenados à solidão, enquanto as crianças, cúmplices na magia, procuram secretamente a sua paixão de viver». Tudo isto numa «aldeia entorpecida na vergonha e na religião», onde «os trigémeos exploram o seu universo feérico enquanto uma mãe, que os ama demasiado, lhes reduz inexoravelmente o espaço».

Este e outros livros de Boris Vian disponíveis aqui: https://relogiodagua.pt/?s=boris+vian&post_type=product

14.2.19

Sobre As Estações da Vida, de Agustina Bessa-Luís




«Escrito em 2002, este é um livro bastante peculiar, cruzando influências que resultam numa leitura abrangente e perspicaz, derivada dos interesses por diferentes disciplinas, ainda que não sentido específico e académico com que elas, vulgarmente, são encaradas. Bebendo na Antropologia, na História (dos acontecimentos e datas, mas igualmente das Ideias, da Arte), na Psicologia, Agustina Bessa-Luís consegue, num livro de dimensões reduzidas, produzir um objecto tão luminoso e cativante, que nos ajuda a fazer equacionar diferentes cambiantes do quotidiano, a pretexto da decoração pictórica das estações de caminho-de-ferro. Além de uma deambulação sentida pela melancolia, pelo ritmo muito seu, que as próprias viagens de comboio possuem e transmitem: “o comboio é um mundo. O comboio é o mundo”.» [João Morales, no Blog BranMorrighan, Fevereiro 2019. Texto completo aqui: https://tinyurl.com/y2uxe4ey ]

Sobre Celeste & Làlinha, de José Cardoso Pires




«Celeste é que nem quis saber de mais nada, correu logo para a rua, com a boneca muito presa ao coração. Apertava-a até à dor do bem-querer.
Era uma negrinha só ternura e ainda por cima indefesa porque tinha um braço estropiado, provavelmente roído por qualquer bicho do mato. Mas o braço pouco importava, a criança ainda gostava mais dela por causa dessa fatalidade. Principalmente não podia esquecer os olhos, que eram como duas pétalas de marfim sobre um cheiro de canela.
“Làlinha, minha Làlinha… Fizeram-te mal, Làlinha?”

Sentadas ao portal, Celeste e Làlinha tinham à volta delas um campo de refugiados, casinhotos de cimento, ruas povoadas de galinhas, caixotes de porão às portas. Entre latas de flores havia um manjerico plantado num capacete colonial.»

Sobre A Luz da Guerra, de Michael Ondaatje




«A Luz da Guerra é um mosaico de fragmentos, tão engenhosamente montados que o padrão acabado parece tão inevitável quanto harmonioso. À semelhança dos seus antecessores imediatos – The Cat’s Table e O Paciente Inglês – este é um livro que nos vai dando pequenas migalhas ao longo do caminho e nos vai iluminando a história na medida certa.» [Molly Bloom, Revista Literária Ulysses, 9/2/2019]

A Luz da Guerra pode ser adquirido aqui: https://relogiodagua.pt/produto/a-luz-da-guerra/
De Michael Ondaatje, a Relógio d’Água publicará em breve O Doente Inglês e The Cat’s Table.

13.2.19

Sobre Eugénio Onéguin, de Aleksandr Púchkin (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra)




«Eugénio Onéguin apreende-se desde as primeiras estrofes como uma sátira, nunca violenta ou gratuita, mesclada de tristezas. A ironia (e a auto-ironia) da sua linguagem apelam à inteligência e ao espírito crítico do leitor.
A ligeireza da sua fala, que permite uma leitura fácil e sem tensão, combina-se com uma grande profundidade de ideias, exprimidas sempre como que a brincar, com uma enorme abrangência na descrição da realidade — pessoas, lugares, estações do ano, actividades, costumes, vida cultural, etc. Diz Andrei Siniávski, crítico literário russo, no seu livro Passeios com Púchkin: “Uma ligeireza — é a impressão que nos produzem as suas obras, a sensação geral e instantânea. (…) Mal ele apareceu na poesia, a crítica falou da ‘fluência e ligeireza extraordinárias dos seus versos’, de que ‘eles, aparentemente, não lhe custaram trabalho nenhum’.”» [Do Preâmbulo dos Tradutores]

Sobre A Origem do Homem e a Selecção Sexual, de Charles Darwin




Em A Origem das Espécies, Charles Darwin recusou-se a escrever sobre a evolução humana, por acreditar que o tema estava «rodeado de preconceitos». Mas desde os anos 30 do século XIX que reescrevia as notas de A Origem do Homem, que só seria publicado em 1871. O livro insere abertamente os macacos na nossa árvore genealógica e considera as raças uma única família, diversificada pela «selecção sexual» — a provocadora teoria de Darwin que diz que a escolha por parte das fêmeas dos machos em competição leva a características raciais divergentes. Por tudo isso, A Origem do Homem de Darwin continua a influenciar a maneira como nos vemos enquanto seres humanos.

«Nenhum homem poderia ter escrito sobre A Origem do Homem melhor que Charles Darwin. E nenhum livro criou uma tempestade tão duradoura, desde os tempos vitorianos até aos tempos modernos, com o seu argumento sobre a evolução humana e o mecanismo de divergência racial a que Darwin chamou “selecção sexual”. Sigmund Freud considerou-o um dos “dez livros mais importantes de todos os tempos”. Para George Eliot e Thomas Hardy, a obra intensificou os temas da ficção inglesa. E para cada Leslie Stephen, “feliz por ver os pobres animais a vingarem-se”, houve um deão de Canterbury a queixar-se dos cientistas que “apagaram a nossa existência”. Alguma vez um livro influenciou deste modo o mundo da ciência, literatura, teologia e filosofia?» [James Moore e Adrian Desmond]

Este e outros livros de Charles Darwin disponíveis aqui: https://relogiodagua.pt/?s=darwin&post_type=product

A chegar às livrarias: Na América, disse Jonathan, de Gonçalo M. Tavares





Califórnia, 7 de Julho de 2016

No meio da floresta das sequóias, sinto-me perdido. Já andei muito. Tento situar-me em relação à entrada.

*

Num belo texto, alguém pergunta: «Qual a distância a percorrer para penetrar numa floresta?» E conta-se que uma criança uma vez respondeu, simplesmente: «Até meio.» E, sim, acrescenta-se no mesmo texto, esta resposta é a certa. Entra-se até meio da floresta, a partir daí «está-se a sair».

*

Estar perdido, entre muitos indicadores, é também isto: não saberes se estás a entrar ou a sair da floresta.


Florida, 17 de Agosto de 2016

Everglades. No pântano, crocodilos.
Alguém pergunta sobre um crocodilo. É verdadeiro ou falso?
Não é verdadeiro nem falso, está morto.

12.2.19

Sobre A História, de Elsa Morante




A História foi publicado em 1974 e tem como cenário a cidade de Roma durante a Segunda Guerra Mundial. 
Num dia de janeiro de 1941, um soldado alemão caminha pelo bairro operário de San Lorenzo. Àquela hora pouca gente se vê nas ruas.
No seu deambular sem rumo, o soldado, alto, louro e um pouco embriagado, encontra Ida, uma professora viúva que regressa a casa depois do trabalho.
O soldado segue Ida até ao humilde andar que partilha com o filho. Viola-a e depois, com um pedido de desculpas, fuma um cigarro, sai e nunca mais saberemos dele.
Deste ato brutal, mas que a guerra torna quase banal, nasce uma criança, e a história da família judia de Ida vai encher as muitas páginas de um romance que iluminou toda a segunda metade do século xx.

“Este nosso mundo cai aos pedaços… Só tu, Elsa, consegues dar-lhe forma e dignidade.” [Italo Calvino]

“Como romancista e como leitora, o que senti ao ler A História foi profunda gratidão para com Elsa Morante.” [Natalia Ginzburg]

Sobre Memórias do Subterrâneo, de Fiódor Dostoievski




«Eu sou um homem doente… Sou um homem mau. Sou um homem nada atraente. Penso que sofro do fígado. Aliás, não percebo patavina da minha doença nem sei ao certo de que é que sofro. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Além do mais, sou supersticioso em extremo; bem, o suficiente, ao menos, para respeitar a medicina. (Tenho instrução bastante para não ser supersticioso, mas sou supersticioso.) É por maldade que não me quero tratar. Isto é uma coisa que vocês, leitores, por certo não podem compreender. Pois, mas eu compreendo.»

11.2.19

Sobre Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg




«Num belíssimo livro de memórias, Natalia Ginzburg escreveu sobre histórias da sua família, situações iguais às de tanta gente, às de toda a gente


Última de cinco irmãos de uma família burguesa de origem judaica instalada em Turim nos anos do fascismo, Natalia Ginzburg (1916-1991) escreveu romances autobiográficos lúcidos e límpidos, mas a sua melhor autobiografia é uma biografia dos outros. Em “Léxico Familiar” (1963) os outros é que importam, e o “eu” apaga-se, de modo que até instantes decisivos como o casamento da autora, o nascimento dos filhos, a prisão e morte do marido, aparecem de fugida, numa frase, meia frase. Ginzburg diz numa nota introdutória que não inventou nada, que escreveu aquilo de que se lembrava, tal como se lembrava; mas também nota que a memória é feita de fragmentos e lacunas, de omissões, e que por isso uma autobiografia se lê “como se fosse um romance”.» [Pedro Mexia, E, Expresso, 9/2/2019]

Sobre Agustina Bessa-Luís



Um retrato de mulher à sombra de Oliveira iluminou a Berlinale



A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, baseado em narrativa de Agustina Bessa-Luís, brilha no Festival de Berlim.

A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, filme seleccionado para a secção paralela Forum, começou em Berlim o seu périplo europeu, depois da estreia em Novembro no festival argentino Mar del Plata. 
O filme tem como argumento um texto de Agustina Bessa-Luís, que por sua vez se inspirou em “A Portuguesa», de Robert Musil. Contrastando com o Inverno grisalho lá fora, a realizadora de A Vingança de uma Mulher e Correspondências constrói, com um passe de magia, uma colorida fábula medieval sobre uma dama lusa casada com um conde guerreiro, o senhor Von Ketten (ou “senhor dos grilhões”) que passa mais tempo fora de casa a guerrear.
Não é – nunca foi – segredo para ninguém a dívida que Rita Azevedo Gomes sempre teve para com o mestre nortenho, de quem se assumiu sempre discípula devota e que nunca escamoteou na sua escassa filmografia. Mas A Portuguesa deixa, de algum modo, a sensação de estar aqui o equivalente de Vale Abraão na obra da cineasta – um retrato de mulher fogosa e desafiadora das normas, que enfeitiça e horroriza aqueles que a rodeiam e que admite ser ateia e blasfema. Já dizia a célebre frase, “as meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado”, e a pele de alabastro e o cabelo cor de fogo de Clara Riedenstein, presença aparentemente de porcelana, escondem uma determinação implacável – ela não é uma menina boa.
[A partir do artigo de Jorge Mourinha, Público, 8/2/2019; imagem do filme A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes]

Sobre O Náufrago, de Thoma Bernhard




Neste seu livro, Thomas Bernhard fala da morte. A do músico Glenn Gould e a de Wertheimer, igualmente músico, que se suicidou.
O narrador é o único que abandonou a música, oferecendo o piano à filha de um professor de província, quando compreendeu que nunca poderia igualar Glenn Gould.

Este romance, onde se fala também de Lisboa e da costa de Sintra, que Bernhard conhecia bem, é um profundo monólogo sobre a arte e a psicologia do artista e uma espécie de composição sinfónica sobre essa mentira/verdade que é a arte.

Sobre Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos, de Sylvia Plath




«Mais ou menos “acabados” ou elaborados, os textos reunidos no presente volume valem seguramente por si. Pela riqueza das imagens, pela precisão e abundância dos detalhes, pela naturalidade ao mesmo tempo distanciada e cúmplice com que evocam a infância ou a loucura, pela arte de transformar um episódio aparentemente insignificante numa “campânula de vidro” ou pesa-papéis vitoriano, contendo, abrigando e dando a ver todo um pequeno mundo. Valem também pelas relações que estabelecem, quer entre si, quer, como sublinha o organizador da colectânea [Ted Hughes], com os poemas da autora — relações que tanto podem passar pelo reaproveitamento e reformulação de textos mais antigos (…).» [Da Nota Prévia de Ana Luísa Faria]


8.2.19

Sobre O Sonho de Bruno, de Iris Murdoch




Bruno tem quase noventa anos. Obcecado com o passado e apaixonado por aranhas, é o centro de uma complexa teia de relações.
Nessa teia estão Danby, o infeliz genro de Bruno; Adelaide, amante de Danby; e Nigel e Will, os irmãos gémeos primos de Adelaide.
Os fios da teia emaranham-se mais ainda quando Bruno insiste em procurar Miles, o filho que o rejeitou e vive com a esposa e a cunhada. 
Pouco demora até que a inquietação que há muito fervilhava venha à superfície, provocando uma vaga de tensão, paixão e violência entre os dois lares…
Em O Sonho de Bruno, o cenário londrino e o ambiente de ameaça são expressos de forma magistral. Este romance, altamente original, mostra-nos Iris Murdoch no apogeu do seu invulgar talento.


De Iris Murdoch a Relógio D’Água publicou também A Máquina do Amor Sagrado e Profano; O Mar, o Mar; O Bom Aprendiz; Um Homem Acidental; O Príncipe Negro; Uma Cabeça Decepada; Sob a Rede e O Sino.

Sobre Não Posos nem Quero, de Lydia Davis




Não Posso nem Quero é a oitava recolha de contos de Lydia Davis, que podem ter apenas duas linhas como em «Bloomington, ou percorrer várias páginas como em «A Carta à Fundação». Mas todos eles dão uma sensação de descoberta do que é estranho ou inesperado.

«A obra de Lydia Davis é única na literatura americana. É uma combinação de lucidez, brevidade aforística, originalidade formal, astuta comédia, frieza metafísica, pressão filosófica e profundo conhecimento humano.» [James Wood, The New Yorker]


«Poderosa como Kafka, subtil como Flaubert e, ao seu modo, definidora de uma era como Proust… Um conto de duas linhas de Lydia Davis, ou um parágrafo aparentemente insignificante, invade-nos e persegue-nos…» [Ali Smith, The Guardian]

Sobre a Saga de Selma Lagerlöf, de Cristina Carvalho





«Biografias romanceadas há muitas. O que Cristina Carvalho fez foi outra coisa: chamou-lhe romance biográfico. Ainda hoje a escritora sueca de maior projecção internacional, Selma Lagerlöf rompeu a barreira da língua, impondo-se ao vasto mundo. Verdade que o Nobel da Literatura ajudou, mas, em 1909, quando o recebeu, era já autora de um livro que se tornou um clássico, A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson pela Suécia. […] Facto é que, sem ignorar nenhum detalhe relevante, a autora constrói o livro como um patchwork de memórias. Está lá tudo: a casa de Marbacka; a descoberta dos pavões, acontecimento de tal modo marcante que pôs fim às limitações provocadas pela deficiência no quadril esquerdo com que Selma havia nascido («De repente, caminhei»); a morte do pai; os anos da juventude; o intervalo de Falun; a docência com crianças; a descoberta da condição feminina; o combate sufragista; as relações lésbicas (com Sophie Elkan, sua companheira durante 27 anos, mas também com Valborg Olander, amante e consultora literária); as viagens pela Europa e pela Palestina; o sucesso estrondoso do primeiro livro, A Saga de Gösta Berling (1891); a carreira literária ao arrepio dos padrões da época; o Prémio Nobel; o ingresso na Real Academia Sueca em 1914, privilégio até então vedado a mulheres; a troca de cartas com a poetisa Nelly Sachs, vítima do Holocausto e futura Nobel; a amizade com o pintor Carl Larsson; etc.» [Eduardo Pitta, Sábado, 7/2/2019]

Sobre O Despertar, de Kate Chopin




Quando O Despertar foi publicado pela primeira vez em 1899, a crítica considerou-o sórdido e imoral (apenas um jornal realçou a importância do livro), prejudicando a reputação literária e social de Kate Chopin. Contudo, mais de cem anos após a morte da autora, atrai numerosos leitores, é considerado a principal obra literária de Kate Chopin, uma réplica norte-americana a Madame Bovary, e um livro que mantém intacto o seu carácter subversivo.
Através de mudanças de estilo subtis, Kate Chopin mostra o «despertar» de Edna Pontellier, uma jovem esposa e mãe que se recusa a ficar encerrada numa vida doméstica e familiar e exige para si a liberdade erótica.

«É um livro profundamente whitmaniano, não apenas nos ecos da sua poesia, que são múltiplos, mas principalmente na sua perspectiva erótica, que é narcisista e até mesmo auto-erótica, no verdadeiro estilo de Whitman.» [Harold Bloom]

«O mais notável em O Despertar é o modo como nos leva a pensar sobre a verdadeira noção de tempo, sobre estar à frente ou fora do nosso tempo e sobre o tempo da leitura.» [Jinan Joudeh]

7.2.19

Sobre Para lá das Palavras, de Carl Safina




«Um novo grupo de golfinhos, onde inúmeras crias nadavam ao lado das mães, emergiu ao longo da nossa embarcação, saltando e chapinhando, chamando por nós de forma misteriosa com o seu assobio característico.
Queria saber o que eles estavam a sentir, e porque nos parecem seres tão atraentes, tão… próximos. Mas desta vez permiti-me apresentar-lhes a pergunta proibida: “Quem são vocês?”»
Durante décadas de observação de campo, Carl Safina fez importantes descobertas sobre o cérebro dos animais. Agora o autor oferece-nos uma visão íntima do seu comportamento, desafiando os preconceitos que teimam em separar o comportamento humano do animal.
Neste livro o leitor irá viajar até ao Parque Nacional de Amboseli, situado em plena paisagem protegida do Quénia, onde poderá observar como as famílias de elefantes sobrevivem à caça furtiva e às secas; irá depois ao Parque Nacional de Yellowstone observar o modo como os lobos se organizam após a morte de uma alcateia; visitará finalmente as águas cristalinas do noroeste do Pacífico para observar a fascinante e silenciosa sociedade das baleias assassinas.

Para lá das Palavras é uma análise sobre as personalidades únicas dos animais, desvendadas através de histórias de alegria, tristeza, ciúme e amor animal. Um livro que nos ensina que as semelhanças entre a consciência humana e animal deveriam ser motivo mais do que suficiente para reavaliarmos o modo como interagimos com os animais.

Sobre Madame Bovary, de Gustave Flaubert




«Madame Bovary sou eu», disse uma vez Flaubert, a quem o êxito do seu ro­mance publicado em 1856 acabou por irritar, de tal modo eclipsou os seus outros livros.
Emma Bovary persegue a imagem do mundo que lhe é dada por uma certa literatura desligada da realidade. Arrastada pelas suas ilusões, a mulher do prosaico Charles Bovary imagina-se uma grande amorosa.

A realidade revela-se impiedosa. E, no entanto, Madame Bovary, na época judicialmente perseguido devido à sua «cor sensual» e à «beleza provocadora de Emma», está longe de ser uma simples lição de realismo.

Sobre Gratidão, de Oliver Sacks




O vídeo da página Linked Books sobre Gratidão, de Oliver Sacks., pode ser visto aqui.

De Oliver Sacks, a Relógio D’Água publicou O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu, Despertares, Um Antropólogo em Marte, Perna para Que Te Quero, A Ilha sem Cor, O Tio Tungsténio, Musicofilia, Vejo Uma Voz, O Olhar da Mente, Diário de Oaxaca, Alucinações, Enxaqueca, Em Movimento e O Rio da Consciência.

Sombre História em Duas Cidades, de Charles Dickens




«A História em Duas Cidades é, acima de tudo, um jogo de espelhos, de similitudes e contrastes. Antes de mais nada, obviamente, entre as duas cidades do título, Londres e Paris. A Revolução Francesa abalou o mundo, gerou ondas de fascínio e pavor que reverberaram durante muitas gerações. Escrevendo em 1859, setenta anos depois do sucedido, Dickens traçou para o seu público vitoriano um retrato daqueles tempos conturbados, o tempo dos avós dos seus leitores. Um tempo já distante mas ainda bem vivo na memória colectiva, uma viragem decisiva na história do mundo e da Europa. História em Duas Cidades não é, porém, um livro de história. Quando muito, será um romance histórico. (…)» [Da Introdução de Paulo Faria]

«Em História em Duas Cidades a vida está sobretudo na sublime negatividade de Madame Defarge e no seu tricot, uma das mais conseguidas criações de Dickens, e que funciona como evidente metáfora da narrativa do próprio romance.»

[Harold Bloom, em Romancistas e Romances]

6.2.19

A chegar às livrarias: A Chama, de Leonard Cohen (trad. Inês Dias)




A Chama, de Leonard Cohen, é um legado de poemas, canções, desenhos e versos dispersos, às vezes registados em cadernos de apontamentos e até guardanapos de papel. 
É uma despedida deliberada, que evita os sentimentalismos.
Pouco antes da sua morte em novembro de 2016, Leonard Cohen disse em entrevista: «Estou preparado para morrer. (…) A certa altura, e se estás ainda na posse das tuas capacidades, (…) tens de aproveitar a oportunidade para deixar tudo em ordem. Talvez seja um cliché, mas subestima-se o seu poder analgésico. Deixar tudo em ordem, quando se pode fazê-lo, é uma das atividades mais reconfortantes, e os benefícios são incalculáveis.»
Esta despedida de Cohen, que recolhe textos já publicados e inéditos, evidencia a variedade dos talentos de um romancista, poeta e cantor singular, lírico e filosófico, terno e corrosivo, feroz e generoso. Inclui novos poemas sobre a guerra, o arrependimento e a amizade, as letras das canções dos seus últimos quatro álbuns, fragmentos dos cadernos que guardou desde a adolescência e uma série de autorretratos e outros desenhos.
No conjunto, reflete uma sensibilidade que oscila entre o carnal e o místico, a melancolia e o apego à vida, a irreverência e o ceticismo, o perfil de alguém que enfrentou a morte com a mesma inteireza com que viveu.

Livro disponível aqui

Sobre Clarice Lispector




Por ocasião da publicação de «Todas as Crónicas» e «Correio para Mulheres», de Clarice Lispector, Joana Emídio Marques escreve sobre «Clarice e Agustina: a arte da crónica subversiva».



«Foram contemporâneas. Clarice nasceu na Ucrânia, em 1920, Agustina em Vila Meã, em 1922. Filhas da Europa do pós-guerra, membros dessa geração de 20 que conta com tantas cabeças geniais ( Eduardo Lourenço, Mário Cesariny, Jorge de Sena, Sophia, Carlos de Oliveira, José Saramago) à literatura e à cultura de Língua Portuguesas. Vindas de dois mundos tão fechados quanto incomensuráveis como eram para os judeus pobres a Ucrânia pós revolução bolchevique e mais tarde o nordeste brasileiro ou a província nortenha do Portugal salazarista.
Dificilmente Lispector terá lido Bessa-Luís, mas esta última leu, com certeza, a escritora judia que trouxe para a literatura ecos de Kafka, Hermann Broch, Herman Hesse. Se Clarice era uma descendente dos judeus ashkenazi, Agustina é, como todos nós, descente de judeus sefarditas, mouros, berberes. Em comum: uma personalidade singular que espelhava uma inteligência e uma subversão muito particulares, o possuírem qualquer coisa de feiticeiras, magas, senhoras de um tempo antigo. E, em simultâneo, um prazer nas mundanidades que adornam o universo feminino: as roupas, a maquilhagem, a elegância, a má-língua, a astucia, a (auto) ironia.
[…]

Tanto para as crónicas de Agustina como de Clarice Lispector é preciso saber ler nas entrelinhas, perceber a ironia velada pois, nenhuma delas procura reduzir as zonas de incompreensibilidade da experiência humana (ou animal, também eles protagonistas de vários textos de CL) ou dos acontecimentos, pelo contrário, é sempre o menos visível que lhes interessa e é para lá que elas conduzem os leitores. Se hoje se espera das narrativas jornalísticas que apenas identifiquem, nomeiem, expliquem da forma mais racional e simplificada possível, revisitar ou descobrir as magnificas crónicas de Agustina e Clarice é perceber que o jornalismo pode e deve obrigar os leitores a construírem novas categorias de pensamento.» [Joana Emídio Marques, Observador,3/2/2019. Texto completo em https://observador.pt/2019/02/03/clarice-e-agustina-a-arte-da-cronica-subversiva/ ]

Sobre Na Rússia com Rilke, de Lou Andreas-Salomé




Este diário de viagem, iniciado em Moscovo em abril e terminado em agosto de 1900, é um documento da maior importância para compreender a evolução de Lou Andreas-Salomé. 
Nesta viagem, Lou reencontra o país da sua infância. É uma época em que alcança a maturidade, e o destino surge-lhe com uma promessa de plenitude. O diário é ocasião de uma descoberta de si própria, pois a viagem é para ela uma realização do seu ser.
A Rússia evocada é também a de Tolstoi, que os dois viajantes — Rilke e Andreas-Salomé — visitam, e a dos movimentos que anunciam a Revolução de Outubro de 1917.

5.2.19

Bob Dylan em Portugal





Bob Dylan, vencedor do Prémio Nobel da Literatura 2016, virá a Portugal em Maio deste ano, para um único espectáculo.
O concerto será no Coliseu do Porto, no dia 1 de Maio.
De Bob Dylan a Relógio D’Água tem editados «Canções I», «Canções II», «Tarântula» e «Crónicas (Volume 1)», disponíveis aqui: https://relogiodagua.pt/?s=bob+dylan&post_type=product

Sobre O Banquete, de Platão




Com 39 desenhos de Maria Helena Vieira da Silva, esta edição tem tradução, introdução e notas de Maria Teresa Schiappa de Azevedo.

«Desenvolvendo-se ao longo do tempo, em conversa com um Sócrates jovem, que aqui assume ironicamente o papel de discípulo, a exposição de Diotima orienta-se segundo o esquema antes definido por Ágaton: a natureza de Eros e os seus efeitos sobre os homens. A realidade contraditória do Amor prefigura-se com o mito do seu nascimento (203a-c), onde Platão alcança uma das suas mais belas e sugestivas criações artísticas (…).»[Da Introdução]

Exposição no Flatiron Project Space a partir de Gonçalo M. Tavares




De 12 de Fevereiro a 13 de Março, no Flatiron Project Space, em Nova Iorque, serão apresentados cerca de 300 trabalhos na exposição Wrong House Project.


Os trabalhos foram realizados por estudantes da School of Visual Arts que, em 2017, vieram a Lisboa e colaboraram com Gonçalo M. Tavares num projecto em que o escritor português trabalhava, “A casa errada”. Os desenhos realizados seriam utilizados como material de pesquisa para um novo livro.

A exposição será inaugurada dia 13 de Fevereiro, às 18:00.

A chegar às livrarias: Homens e Bestas, de Donna Leon (trad. de Maria Eduarda Cardoso)





Um corpo completamente desfigurado é descoberto a flutuar num canal.
O Comissário Brunetti é chamado para fazer a identificação, mas o caso não progride, pois a única pista é o sapato que a vítima tem calçado. É então que Brunetti se lembra do homem num violento protesto no ano anterior.
A investigação de Brunetti leva-o dos pacatos canais de Veneza até um mundo assustador de chantagem e corrupção.

«Neste livro, Donna Leon provoca Brunetti com um crime que realmente perturba a sua alma…» [The New York Times Book Review]

«Complexo e muito interessante.» [Independent]

«Donna Leon tem uma maravilhosa intuição para as complexidades sociais de Veneza, onde a corrupção é tão antiga, profunda e traiçoeira como os canais.» [Daily Mail]


Este e outros livros de Donna Leon disponíveis em https://relogiodagua.pt/produto/homens-e-bestas/

4.2.19

Sobre Sanditon, de Jane Austen




Carlos Vaz Marques falou sobre Sanditon, de Jane Austen, no programa Livro do Dia, da TSF, de 4 de Fevereiro de 2019. O programa pode ser ouvido aqui: 


Mais informação sobre esta e outras obras de Jane Austen publicadas pela Relógio D’Água aqui: https://relogiodagua.pt/?s=jane+austen&post_type=product

A chegar às livrarias: Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul, o mais recente livro de contos de Alexandre Andrade




«— Esforcei‑me por obter uma superfície com uma tonalidade uniforme, mate, com um mínimo de relevo. Pretendia uma superfície lisa, sem rugosidades visíveis, neutra, repousante para quem olha. Quis que a cor fosse refractária a qualquer tentativa para a nomear: cor de terracota, alaranjado, ocre, rosa. Quanto ao formato, pode parecer um círculo perfeito com as fronteiras muito nítidas, quase recortadas, mas na verdade não é um círculo perfeito. É uma elipse muito pouco excêntrica, e com algumas irregularidades muito subtis. Só estou arrependido de a ter pintado tão alto. Precisava de subir ao degrau mais alto do escadote para chegar lá, e mesmo assim não conseguia pintar numa posição normal. Tinha de esticar muito o braço. Era cansativo.»

Este e outros livros de Alexandre Andrade disponíveis em: https://relogiodagua.pt/autor/alexandre-andrade/

Sobre O Enraizamento, de Simone Weil




O Enraizamento é um ensaio escrito em 1943 e que permaneceu inacabado devido à morte da autora. O seu subtítulo é Prelúdio para Uma Declaração dos Deveres para com o Ser Humano
Simone Weil procura criar as bases de uma doutrina, regressando aos princípios que permitiram às civilizações estabelecerem-se de um modo durável.
Nesse ano de 1943, após vinte anos de amadurecimento interior, trata-se para Simone Weil de reatar um pacto que apoia sobre a «exigência do bem absoluto que habita no coração do homem, mas que tem a sua origem numa realidade situada fora do mundo». 

«O enraizamento talvez seja a necessidade mais importante e mais ignorada da alma humana. (…) Todo o ser humano precisa de ter múltiplas raízes, precisa de receber a quase totalidade da sua vida moral, intelectual, espiritual, por intermédio dos ambientes a que naturalmente pertence.»

1.2.19

Sobre A Carta de Lorde Chandos, de Hugo von Hofmannsthal




A Carta de Lorde Chandos, publicada em 1902, é uma missiva ficcionada a Francis Bacon, em que Lorde Chandos, atravessando uma crise literária e filosófica, explica porque não é capaz de continuar a escrever.
O texto corresponde a uma crise do seu autor. Em 1901, Hofmannsthal renunciara à carreira universitária, reviu a sua obra poética, casou com Gerty Schlesinger e foi viver para uma pequena povoação próximo de Viena. Debate-se com a falta de sentido da expressão poética e literária e com o absurdo dos conceitos abstractos, e pensa que um novo começo só pode surgir de uma atitude, a decência de ficar calado.

«Lorde Chandos, um jovem da nobreza rural da época isabelina, em quem no entanto se pode sem dificuldade pressentir o homem culto, formado em Oxford, e o cavalheiro esteta dos nossos dias, escreve ao seu amigo paterno, o Lorde‑Chanceler Bacon, o pensador mais vigoroso da sua época, e descreve, é certo que com a reserva e o mutismo a seu respeito impostos pela sua educação e pela sua natureza, uma experiência extremamente terrível. A unidade intuitiva mística do Eu, da expressão e da coisa perdeu‑se para ele de uma só vez, de tal forma que o seu Eu é brutalmente conduzido ao isolamento mais hermético, isolado num mundo rico ao qual deixou de ter acesso e cujas coisas nada lhe querem dizer, nem sequer os respectivos nomes.» [Da Introdução de Hermann Broch]

Sobre “You Know You Want This”, de Kristen Roupenian




«“You Know You Want This” encanta e horroriza, em simultâneo. (…) no seu melhor, a escrita de Roupenian evoca os sombrios contos de fadas feministas de Angela Carter. Esta antologia confirma a sua reputação como uma das mais surpreendentes novas vozes da ficção.» [The Economist,12/1/2019]


A Relógio D’Água publicará a tradução de “You Know You Want This” no primeiro semestre de 2019.