19.7.18

Sobre Caos e Ritmo, de José Gil




A propósito do recente lançamento de Caos e Ritmo, José Gil foi entrevistado por João Céu e Silva, no DN



«Afirma que o cidadão eleitor aborrece-se em democracia. Não é demasiado radical?

Essa frase aplica-se a todos os países e não só aos portugueses porque a democracia não oferece uma promessa. Já o populismo está sempre a fazê-la às massas e elas entusiasmam-se. Não se pode dizer que a sociedade alemã do hitlerismo se aborrecia, pelo contrário, empolgava-se todos os dias com a propaganda de Hitler. A democracia não é uma ideologia, é um regime político menos mau entre todos - como dizia o outro, Churchill - e só empolga quando se passa de um regime ditatorial para democracia como em Portugal nos primeiros anos após o 25 de Abril de 1974.

Entre os governantes portugueses só o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa monopoliza atenções com os afetos. Enquadra-se no populismo?

Sim, se considerarmos como elemento de propaganda e de adesão política, mas Marcelo não é um líder populista. O afeto, contudo, enquadra-se naquilo que contém o discurso populista no seu pior.

Ultrapassou o fascínio por Mário Soares?

Sim, em muito devido às diferenças entre ambos. Soares conservava a sua soberania acima do povo e descia quando queria. Marcelo faz o caminho inverso e transforma-se ele próprio em homem do povo.

O populismo tem hoje a vida mais facilitada?

É uma realidade mundial inquietante o que se está a passar e o que poderá acontecer nas eleições europeias. Também não se deram conta de quanto Hitler estava a subir, aceitando-o. A tendência de muitos políticos é dizer que temos maneira de enfrentar esta vaga ameaçadora, mas não é bem assim.

A que se deve a complacência do eleitor?

Ao falhanço dos sistemas democráticos e à incapacidade dos políticos responderem às populações. É impressionante ver que nos estudos de politólogos e sociólogos sobre as taxas de voto favorável a Trump não era tanto a questão económica que pesava mas a cultural. Tem que ver com a exclusão, humilhação, fatores morais e éticos, identitários e existência espiritual - e isto é uma revolução.

Trump é o aviso mais sério?

Não sei se é fenómeno passageiro, porque está a perdurar e isso é mau. A maioria das pessoas que se referem a Trump não se dão conta de que se está a forjar um clima nunca visto nos EUA, o do messianismo. Ele aparece como um messias e nenhum dos líderes europeus o consegue.

Nem Macron, que derrotou Marine Le Pen?

Que bem queria aparecer como messias! Ainda não há messianismo na Europa como nos EUA, em que Trump é o imbecil iluminado. Recorde-se que havia também uma imbecilidade estrutural no Hitler.

Em Portugal haverá alguma vez terreno próprio para o populismo?


Por enquanto não, mas Portugal não escapará às condições gerais e culturais da globalização. Por enquanto, Portugal - e Espanha - está imune ao populismo, mas não se pode afirmar que com uma mudança não irá aparecer alguém.» [DN, 13/7/18. A entrevista completa pode ser lida aqui: https://www.dn.pt/1864/interior/jose-gil-o-google-nao-pensa-como-nos-9588657.html . Fotografia de Leonardo Negrão/Globalimagens]

Entre os 39 livros de “romance, poesia e vinho” recomendados pelo Observador em 15 de Julho, encontram-se 6 obras publicadas pela Relógio D’Água.




Joana Emídio Marques sugere “Nesta Grande Época”, de Karl Kraus, e "Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais", de Maria Filomena Molder.




Nesta grande época, Portugal ainda mal conhece a obra de Karl Kraus, o locutor do horror do seu tempo, como lhe chamou Elias Canetti. O jornalista que colocou os jornais no banco dos réus ao analisar o papel destes media na 1ª Guerra Mundial, que compreendeu como poucos que pela destruição e manipulação da linguagem todo o tipo de ditaduras seriam possíveis. A sua sátira cabe aos media atuais como uma luva.




Os dias de Maria Filomena Molder são como os seus livros para nós, leitores: alegres, pensantes, fatais. Nos últimos dois anos, a mais ígnea das nossas pensadoras já nos deu Rebuçados Venezianos e agora este Dia Alegre…, em ambos se reúnem ensaios, textos, reflexões, memórias e rememorações, sobre cultura, arte, poesia, uma teia de ligações feita e desfeita num pensamento veloz onde, como em Clarice Lispector, a palavra serve como isco para pescar a entrelinha. Atrevamo-nos a mergulhar nas entrelinhas tantas vezes fatais destes dias.

Entre os 39 livros de “romance, poesia e vinho” recomendados pelo Observador em 15 de Julho, encontram-se 6 obras publicadas pela Relógio D’Água.



Alexandre Borges recomenda George Steiner em The New Yorker, Infidelidades, de Woody Allen, e O Mandarim, de Eça de Queirós.




A propósito do luxo de se ser contemporâneo de figuras de grande dimensão intelectual. Uma selecção de 28 dos mais de 150 artigos que Steiner assinou, ao longo de 30 anos, para a New Yorker. Cultos, longos e densos, exigem leitura demorada e atenta. Uma boa forma de descansar o polegar de tanto fazer scroll ao Instagram.




Um pouco de teatro para exibir o nome bem visível na capa na praia às senhoras e senhores horrorizados. A bandeira vermelha será hasteada, nadadores-salvadores tentarão afastar os mais impressionáveis – enfim, a praia rapidamente se porá num paradisíaco sossego. Não é novo, mas serve para ir renovando a dose anual recomendada de Woody Allen quando os filmes do próprio já não chegarem para tirar as dores.





As pessoas podem até não ler, mas saem cada vez mais livros. Nós próprios somos bem mais rápidos a comprar livros do que a lê-los, quais Lucky Lukes das fnacs da vida. Durante anos, sofremos para agarrar todos os livros potencialmente interessantes que saem, como quem acompanha as estreias do cinema ou as novidades da pop; com a idade, resignamo-nos. Que importa? Vamos ler o que queremos ler. Um Eça por ano, por exemplo, é um projecto bonito. E saudável.

18.7.18

17.7.18

Sobre Maria Filomena Molder




Na revista «Discurso», do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, Pedro Fernandes Galé (Universidade Federal de São Carlos) escreveu sobre «As Nuvens e o Vaso Sagrado» e «Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais», de Maria Filomena Molder



«Comecemos por observar que o público de filosofia no Brasil deve celebrar o fato de a obra de Maria Filomena Molder, filósofa e ensaísta portuguesa, ter sido escrita em nossa língua. Embora tenhamos um Atlântico e seus gigantes entre nós, a leitura destes livros, um deles, As nuvens e o vaso sagrado, surgido em 2014, o outro, Dia alegre, dia pensante, dias fatais, de 2017, apresenta-nos como que a essencialidade de nossa língua, em seus obstáculos e suas riquezas, diante de objetos que têm sua origem alhures. É para a nossa língua mãe que Filomena Molder arrasta grandes questões, grandes pensadores, grandes poetas que perambulam no mundo multilíngue. Sob sua pena, a filosofia e a poesia ganham uma verve lusófona, na qual notamos a unidade em meio à variedade. Não se trata de uma germanista, mas de uma irmã em letras e filosofia germânicas (quando o caso) em bom português.» [Pedro Fernandes Galé, «Discurso», v. 48, n.º 1 (2018)]

Sobre Este Lado do Paraíso, de F. Scott Fitzgerald




«Esta obra retrata os anos de universidade do autor, desdobrando-se sobre as consequências morais da Primeira Guerra Mundial, com uma roupagem ficcionada, embora as personagens se associem facilmente àquelas que protagonizaram este percurso da sua vida. O seu registo descontraído e relativamente livre, oscilando entre o drama prosaico e o verso espontâneo onde o lirismo sobressai, chegou às bancas em 1920, vendendo mais de 40 mil cópias.» [Lucas Brandão, Comunidade Cultura e Arte, 9/7/18. O texto completo pode ser lido aqui: 


De F. Scott Fitzgerald, a Relógio D’Água publicou também Sonhos de Inverno e Outros Contos, O Último Magnate, Belos e Malditos, Terna É a Noite, O Grande Gatsby e The Crack-Up e Outros Escritos.

Excerto de «Caos e Ritmo», de José Gil, no JL




«“Caos e Ritmo” é o título do novo livro , editado pela Relógio D’Água, a chegar às livrarias, de um dos mais destacados filósofos e ensaístas portugueses, autor de uma vasta e diversificada obra, que inclui títulos que tiveram tanta repercussão como Portugal, Hoje: O Medo de Existir. Ao longo dos dez capítulos, divididos em até 14 subcapítulos, das 500 páginas do volume, que trata temas muito variados, o autor “procura pensar o que nos acontece, ao nível mais concreto do inconsciente, do sensível e do corpo, bem como ao nível mais abstracto do pensamento e da visão”, “livro sobre a criação, sobre os poderes e impasses”. O último capítulo, de especial atualidade, analisa “o populismo e a catástrofe” […). “ Nunca, como no século XX e no princípio deste século XXI, se levou tão longe o processo de erosão do vínculo social”, salienta o filósofo.» [JL, 4/7/18]

16.7.18

Sobre Obra Completa, de Arthur Rimbaud




«A tradução da Obra Completa de Jean-Arthur Rimbaud, pela Relógio D’Água, constitui um acontecimento de enorme relevo no que respeita à história da tradução de poesia em Portugal. Pela monumentalidade desta edição, com prefácio de Francisco Vale e a tradução a duas mãos de Miguel Serras Pereira e João Moita, reler agora a poesia de Rimbaud, nesta edição bilingue, significa compreender melhor a originalidade do autor de Aprés le Deluge. O enigma do jovem que abandonou a poesia para poder, como diria Hölderlin, habitar poeticamente sobre a terra. Rimbaud: a própria encarnação de algo mais, talvez o furor e mistério de uma verdade, essa de “regressar ao estado primitivo de filho do sol”.
[…]
Esta Obra Completa não deixará de chamar para a poesia leitores ávidos daquilo que, segundo René Char, é o supremo fascínio dessa voz, nele reconhecendo essa dialética do homem que “não cessa de cessar”, como foi o caso de Rimbaud, ansioso de numa vida conter várias vidas. Nele, com efeito, a poesia deixou de ser um género literário e uma competição, para passar a ser a arte total. É, de certo modo, o poder da energia adolescente o que podemos, ao lê-lo, redescobrir. Não se fica o mesmo depois de visionarmos a sua fúria e solaridade, a sua ousadia poética.» [António Carlos Cortez, JL, 4/7/18]

Sobre O Sonho de Bruno, de Iris Murdoch




Bruno tem quase noventa anos. Obcecado com o passado e apaixonado por aranhas, é o centro de uma complexa teia de relações.
Nessa teia estão Danby, o infeliz genro de Bruno; Adelaide, amante de Danby; e Nigel e Will, os irmãos gémeos primos de Adelaide.
Os fios da teia emaranham-se mais ainda quando Bruno insiste em procurar Miles, o filho que o rejeitou e vive com a esposa e a cunhada. 
Pouco demora até que a inquietação que há muito fervilhava venha à superfície, provocando uma vaga de tensão, paixão e violência entre os dois lares…
Em O Sonho de Bruno, o cenário londrino e o ambiente de ameaça são expressos de forma magistral. Este romance, altamente original, mostra-nos Iris Murdoch no apogeu do seu invulgar talento.


De Iris Murdoch a Relógio D’Água publicou também A Máquina do Amor Sagrado e Profano; O Mar, o Mar; O Bom Aprendiz; Um Homem Acidental; O Príncipe Negro; Uma Cabeça Decepada; Sob a Rede e O Sino.

Sobre Breves Notas sobre Literatura-Bloom, o novo livro de Gonçalo M. Tavares




Carlos Vaz Marques falou sobre Breves Notas sobre Literatura-Bloom, o novo livro de Gonçalo M. Tavares, no Livro do Dia, na TSF, de 6 de Julho. O programa pode ser ouvido aqui: https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/breves-notas-sobre-literatura-bloom---dicionario-literario-de-goncalo-m-tavares-9552298.html?autoplay=true

13.7.18

Celeste Ng falou com Isabel Lucas, a propósito de Pequenos Fogos em Todo o Lado




«Pequenos Fogos em Todo o Lado foi uma das sensações de 2017, está traduzido em 30 línguas e põe em confronto duas famílias ficcionais muito diferentes, os Richardsons e os Warrens, num lugar bem real: Shaker Heights. “Em Shaker Heights havia um plano para tudo. Quando a cidade fora criada em 1912 — uma das primeiras comunidades planeadas da nação —, as escolas tinham sido localizadas de forma que todas as crianças pudessem ir a pé para as aulas sem atravessar nenhuma rua principal; as ruas secundárias iam dar a grandes avenidas, com paragens estrategicamente colocadas ao longo da via-férrea para transportar quem trabalhasse no centro de Cleveland. Aliás, o lema da cidade era (...) ‘A maior parte das comunidades limita-se a acontecer; as melhores são planeadas’: a filosofia era a e que tudo podia — e devia — ser planeado e de que, ao fazê-lo, se evitava o inapropriado, o desagradável e o desastroso.” Celeste Ng cresceu nesse lugar.
[…]

O romance arranca com uma tragédia e um mistério por resolver. A casa onde vivem os Richardsons arde e a família, constituída por um casal e quatro filhos adolescentes, vê comprometido um futuro planeado. O fogo acontece quando outra família, composta por uma mulher e uma filha pré-adolescente, sai da cidade, que passa a ser mais um lugar num percurso feito de permanências fugazes. É a família Warren a viver em permanente itinerância.» [Público, ípsilon, 13/7/18. O texto completo pode ser lido aqui: https://www.publico.pt/2018/07/13/culturaipsilon/noticia/celeste-ng-e-o-tempo-em-que-a-utopia-era-possivel-1835744 ]

Sobre As Pessoas do Drama, de H. G. Cancela




«Ao mesmo tempo que existem estas crises entre as personagens, encontramos neste romance uma descrição constante dos efeitos desgastantes do tempo nos objectos, nos edifícios e nas próprias pessoas: “Vivo em Roma, sei reconhecer a ruína.” (página 250). O tempo serve como uma testemunha da atividade humana, um observador omnipotente das suas ruínas, manchas e obsessões. Ao contrário das tragédias gregas, não temos aqui determinismo estruturante que condena as personagens a um castigo divino e superior. Temos antes, personagens mais modernas, mais cientes de uma limitação profunda da natureza humana, que nunca cedem a considerações divinas ou metafísicas, mas agarram-se a uma simples tentativa de sobrevivência, como que assombrados em relação à sua própria existência. As personagens são descritas como se fossem peões que tentam sobreviver jogada a jogada, privilegiando os seus instintos, sem nunca verdadeiramente tentarem alcançar uma qualquer forma de liberdade.
Uma das razões pela qual a prosa de H.G. Cancela tem um teor de grande densidade e de tensão narrativa deve-se ao facto de as suas personagens andarem em deriva pelo mundo, presas a actos repetitivos, não conseguindo escapar de si mesmas ou do seu passado. Em As Pessoas do Drama está ainda presente uma descrição de uma componente biológica, hereditária, da animalidade presente no ser humano que adensa um sentimento de culpa.» [Jorge Ferreirinha Antunes, Revista Intro, 12/7/18. O texto completo pode ser lido aqui: http://www.intro.pt/as-pessoas-do-drama-h-g-cancela-relogio-dagua-2017/ ]

Sobre Pablo Neruda




«Depois desta obra, a poesia de Neruda cresceu com uma abundância que talvez tenha surpreendido o poeta que demorou cerca de dez anos para escrever estes 56 poemas de Residencia en la tierra, para mim o melhor dos seus livros e uma pedra fundamental da poesia de língua espanhola da primeira metade do século XX.» [Do Prólogo de José Bento a Residência na Terra]

De Pablo Neruda, a Relógio D’Água publicou também Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada e Antologia.

A chegar às livrarias: Confabulações, de John Berger (trad. de Maria Eduarda Cardoso)





«Uma língua falada é um corpo, uma criatura viva […]. E o lugar onde esta criatura reside é tanto o que não se diz quando o que se diz.»
O trabalho de John Berger revolucionou o modo como entendemos a linguagem visual. Neste novo livro, o autor escreve sobre a linguagem em si, e como se relaciona com o pensamento, a arte, a música, a narrativa e o discurso político contemporâneo.
O livro inclui ainda os desenhos, notas, memórias e reflexões de Berger, que vão desde Albert Camus ao capitalismo global. 
Confabulações mostra-nos «o que é verdadeiro, essencial e urgente.»

«Berger ensina-nos a pensar, a sentir. Ensina-nos a olhar para as coisas até conseguirmos ver o que pensámos que não estava lá. Mas, acima de tudo, ensina-nos a amar perante a adversidade. É um mestre do seu ofício.» [Arundhati Roy]

«Um dos intelectuais mais influentes do nosso tempo.» [Observer]

«Um dos maiores pensadores do pós-guerra britânico.» [Guardian]

«Berger lida com o pensamento do mesmo modo que um artista lida com a tinta.» [Jeanette Winterson]


De John Berger, a Relógio D’Água publicou também Para o Casamento.

12.7.18

Sobre Diários, de Virginia Woolf




«O que nos diz o Diário da pessoa de Virginia Woolf que nos permita conhecê-la melhor? O aspecto mais impressionante, creio ser a evidência de uma mulher extremamente contraditória. Desde logo, as alterações radicais dos estados de espírito, a dramática inconstância dos terrores e euforias vivenciais, de um dia “tão divinamente feliz” e de outro exausta e deprimida. Igualmente a dicotomia entre a necessidade de “estar na vertigem das coisas” (o prazer que diz incomparável de jantares e festas, das visitas, das bisbilhotices) e o isolamento com os livros, a escrita, o jardim, a lareira, Leonard. Deseja a animação, os estímulos que põem a mente à prova, os mexericos fervilhantes, e logo se farta da afluência das visitas, despreza os convivas enfadonhos e banais, acusa o desgaste das frioleiras, a perda de tempo com ninharias, anseia beber uma boa “dose de silêncio”.» [Do Prefácio]

Sobre Breves Notas sobre Literatura-Bloom, de Gonçalo M. Tavares




«“Breves Notas sobre Literatura-Bloom” de Gonçalo M. Tavares (Relógio D’Água) é um dicionário literário extravagante, cheio de ironia e xeque-mates, absurdos, maldades ocasionais, cruéis e permanentes. E corajoso.»  [Francisco José Viegas, Correio da Manhã, 5/7/18]

11.7.18

A chegar às livrarias: Desaparecer na Escuridão, de Michelle McNamara (trad. Alda Rodrigues)




Este livro tem o enredo, suspense e intensidade de um policial. Trata-se, no entanto, de um livro de não-ficção. McNamara morreu de forma trágica a meio da investigação que procurava identificar o Golden State Killer, responsável por uma onda de violações e assassinatos na Califórnia que se prolongou por mais de dez anos. A Polícia arquivou o caso. Mas McNamara continuou a investigação pelos seus próprios meios.
“Desaparecer na Escuridão” é o relato de anos de investigação sobre a mente de um criminoso impiedoso. É também o retrato da obsessão de uma mulher pelo fim da impunidade de um assassino. Este livro está destinado a tornar-se um clássico da literatura policial.

«Não consegui parar de ler este livro.» [Stephen King]

«Uma investigação viva e meticulosa de um predador doentio que aterrorizou a população da Califórnia por mais de uma década. Um retrato de uma escritora que se deixou consumir pela perseguição a um criminoso.» [New York Times]

Os direitos de adaptação para série de televisão foram adquiridos pela HBO.

Sobre A Ronda da Noite, de Agustina Bessa-Luís




No âmbito da iniciativa Ano Agustina, mensalmente, ao longo de 2018, a Comunidade Cultura e Arte publicará uma crítica a um dos livros de Agustina Bessa-Luís, do catálogo reeditado pela Relógio D’Água.
No dia 30 de Junho foi publicado o texto de Catarina Fernandes sobre «A Ronda da Noite»:

«Agustina tem essa capacidade de misturar a reflexão, em jeito de ensaio, com o contar de histórias, nunca de maneira estanque mas, aliada à ironia, sempre em jeito de deambulação. Ler Agustina é descobrir que “o que sabem as mulheres dá para arrasar montanhas”, e, sem dúvida, que o que sabe Agustina dá para arrasar até o mais cético dos leitores.» [Texto completo em: https://www.comunidadeculturaearte.com/ano-agustina-a-ronda-da-noite-um-livro-para-se-ler-de-frente-ao-espelho/ ]

Sobre O Quarto de Marte, de Rachel Kushner




No The Guardian, Lucie Shelly analisa O Quarto de Marte, de Rachel Kushner. O artigo pode ser lido aqui.

10.7.18

Sobre Machado de Assis




«Machado de Assis é leve e divertido, como raramente se espera dos escritores de quem se erguem estátuas.» [Benjamin Moser, New Yorker, 9-16/7/2018. Texto completo aqui. ]


De Machado de Assis, a Relógio D’Água publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba; Dom Casmurro e Esaú e Jacó; e, na colecção Clássicos para Leitores de Hoje, Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Alienista e Outros Contos.

Sobre Vidas de Raparigas e Mulheres, de Alice Munro




O único romance escrito pela vencedora do Nobel da Literatura 2013 — Vidas de Raparigas e Mulheres — é uma obra perspicaz, honesta, «formal, mas não factualmente autobiográfica», que nos conta a vida de uma jovem numa zona rural de Ontário durante os anos 40.
Del Jordan vive no fim da Flats Road, na quinta de criação de raposas do seu pai, onde os seus companheiros são um excêntrico solteiro amigo da família e o seu rude irmão mais novo. Quando Del começa a passar mais tempo na cidade, vê-se rodeada por mulheres: a sua mãe agnóstica, uma mulher teimosa que vende enciclopédias aos agricultores; a inquilina da sua mãe, Fern Dogherty; e a sua melhor amiga, Naomi, com quem partilha as frustrações e as desenfreadas alegrias características da adolescência. 
É através destas influências improváveis, e das suas experiências com o sexo, o nascimento, e a morte, que Del explora as contradições do que é ser uma mulher. O resultado é uma demonstração poderosa, comovente e repleta de humor da consciência incomparável de uma escritora sobre a vida de raparigas e mulheres.

De Alice Munro, a Relógio D’Água publicou também os livros de contos Fugas, O Amor de Uma Boa Mulher, A Vista de Castle Rock, Demasiada Felicidade, O Progresso do Amor, Amada Vida, Falsos Segredos e  Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento.

Sobre Na Primavera, de Karl Ove Knausgård




«A terceira parte do Quarteto das Estações é algo estranho e inesperado.»


Na Primavera, de Karl Ove Knausgård, recebe cinco estrelas na crítica de Sam Leith no The Telegraph (9/7/2018).

9.7.18

Expresso recomenda Obra Completa de Arthur Rimbaud e Nesta Grande Época de Karl Kraus



Entre as obras recomendadas como leituras para as férias, os críticos do Expresso escolheram Obra Completa de Arthur Rimbaud e Nesta Grande Época de Karl Kraus.



A propósito da Obra Completa de Arthur Rimbaud, Luís M. Faria afirma: «Génio adolescente poeta visionário do descontrolo dos sentidos, Rimbaud parou de escrever aos 21 anos, quando já produzira as obras extraordinárias que este volume reúne em português e francês. Paul Valéry disse que Rimbaud era o único escritor que não usava a linguagem do senso comum. Difícil imaginar maior elogio.»



Sobre Karl Kraus, Pedro Mexia destaca Nesta Grande Época como uma duas edições «dos seus artigos e aforismos, hostis à moralidade dominante e inclinadas a ver o jornalismo como um dos males do mundo». [Expresso, E, 7/7/2018]

Sobre Gratidão, de Oliver Sacks




Durante os últimos meses de vida, Oliver Sacks escreveu um conjunto de ensaios em que explora, de forma comovente, os seus sentimentos sobre o momento de completar uma vida e aceitar a morte.
«É o destino de cada ser humano», escreveu Sacks, «ser um indivíduo único, descobrir o seu próprio caminho, viver a sua própria vida, morrer a sua própria morte.»
Estes quatro ensaios são uma ode à singularidade de cada ser humano e à gratidão pela vida que nos é concedida. 

De Oliver Sacks, a Relógio D’Água publicou também O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu, Despertares, Um Antropólogo em Marte, Perna para Que Te Quero, A Ilha sem Cor, O Tio Tungsténio, Musicofilia, Vejo Uma Voz, O Olhar da Mente, Diário de Oaxaca, Alucinações, Enxaqueca, Em Movimento e O Rio da Consciência.

6.7.18

A chegar às livrarias: Nunca Dancei num Coreto — Crónicas, 2011/2018, de Maria Filomena Mónica





«Desde que, em 1990, comecei a escrever regularmente para os jornais, houve colegas que me criticaram com o argumento de que estaria a desperdiçar os meus supostos talentos. Não tardei a verificar que o facto de escrever para um público mais vasto do que o constituído pelos círculos universitários não só em nada me prejudicava como até me ajudava a pensar com mais clareza.» [Do Prefácio]

H. G. Cancela entre os finalistas do Grande Prémio APE




Com o seu romance As Pessoas do Drama, H. G. Cancela é finalista do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2017.
Já em 2015, com o romance Impunidade, H. G. Cancela ficou no segundo lugar das obras mais votadas pelo júri de então. Desta vez, H. G. Cancela é acompanhado por José Eduardo Agualusa, Marlene Ferraz, Carla Pais e Luís Cardoso.
O júri é constituído por Isabel Cristina Mateus, Isabel Ponce de Leão, José Carlos Seabra Pereira, José Manuel de Vasconcelos e Paula Mendes Coelho. A escolha dos finalistas foi feita entre 72 obras de 35 chancelas que se apresentaram a concurso.
O prémio tem um valor pecuniário de 15 mil euros.

Em 2017, o romance vencedor foi “Não se pode morar nos olhos de um gato”, de Ana Margarida de Carvalho, que já três anos antes havia ganhado o mesmo prémio, com o romance “Que importa a fúria do mar”.

5.7.18

No centenário do nascimento de Ingmar Bergman





No ano em que se comemora o centenário do nascimento de Ingmar Bergman, a Leopardo Filmes e a Medeia Filmes preparam um programa de homenagem ao realizador que decorrerá de 11 de Outubro a 15 de Novembro (no Espaço Nimas, em Lisboa, e Teatro Campo Alegre, no Porto), coincidindo também com a apresentação, em Lisboa, do novo trabalho da coreógrafa Olga Roriz, “A Meio da Noite”, uma homenagem a Bergman e aos seus actores.
A Relógio D’Água editou a sua autobiografia Lanterna Mágica (publicada originalmente em 1987), um olhar sobre a sua vida passada marcada por uma educação rígida, uma imaginação fecunda e uma vida amorosa acidentada.
Através da sua leitura vemos como foi um homem do teatro e do cinema, tendo vivido com intensidade os seus momentos de crise e de graça.
Bergman avalia sem autocomplacência as suas relações familiares, de amizade e amorosas, e fala com lucidez dos seus encontros com actores como Laurence Olivier, Greta Garbo ou Ingrid Bergman. Revela ainda episódios desconhecidos das filmagens de Morangos Silvestres, Mónica e o Desejo e Sonata de Outono.
A obra testemunha as suas feridas e crises, mas também os seus momentos de felicidade, iluminados pelo persistente fulgor da infância.

Sobre Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick




«O conjunto de contos que aqui encontramos pode, por sua vez, servir de porta de entrada no universo de um autor que usava muitas vezes cenários temporais do nosso futuro enquanto seres humanos, cruzando-os com lógicas do quotidiano de então, criando semelhanças e analogias desconcertantes que não nos deixam indiferentes. Mesmo longe, no espaço, no tempo, aquelas figuras, os seus comportamentos, são os nossos, do aqui e do agora. Seja quando um robot “faz tudo” se resolve vender a si mesmo a um potencial comprador em O Vendedor. Quando, de um ponto de vista longínquo, reflete sobre o seu tempo em Peça de Exposição. Ou ensaia as periferias da loucura (pessoal ou coletiva) em O Enforcado. Sempre desafiante. Mas sempre humano. Demasiado humano… E, sem surpresa, nota como podemos, de facto, ser assustadores.» [Nuno Galopim, Máquina de Escrever, 28/6/2018. Texto completo aqui: https://maquinadeescrever.org/2018/06/28/novos-modos-para-chegar-a-escrita-de-philip-k-dick/ ]

4.7.18

Sobre A Letra Encarnada, de Nathaniel Hawthorne




Depois de ter sido declarada culpada por adultério, Hester Prynne é obrigada a usar a letra vermelha “A” bordada nas roupas como castigo pelo seu crime. Enquanto o seu vingativo marido procura descobrir a verdadeira identidade do seu amante, Prynne tem de enfrentar as consequências da sua infidelidade e encontrar um lugar para si e para a sua filha ilegítima no ambiente hostil da Boston puritana em pleno século XVII.
Esta narrativa de Hawthorne surpreendeu os leitores pela sua densidade psicológica sem precedentes. O romance é agora considerado um marco na literatura americana.


«É belo, admirável, extraordinário (…) tem o encanto e o mistério inesgotáveis das grandes obras de arte.» [Henry James]

Sobre Breves Notas sobre Literatura-Bloom, de Gonçalo M. Tavares




«“Bloom Books” é, como sabemos, uma das múltiplas “séries” em que se organiza a obra de GMT, embora, até à data, tenha sido publicado um único livro-Bloom, intitulado “A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil”; agora, o escritor diz-nos que “Biblioteca” e “Uma Viagem à Índia” talvez fossem livros-Bloom, ao passo que este dicionário de literatura-Bloom talvez não seja bem um livro-Bloom. Pouco importa o grau de adesão que estes jogos conceptuais nos suscitam, o a pertinência deste texto fragmentário enquanto “poética da prosa”; as “Breves Notas sobre Literatura-Bloom” são sobretudo úteis como “interpretação autêntica”, quer dizer, interpretação das intenções de um autor pela mão do próprio autor.» [Pedro Mexia, Expresso, E, 30/6/2018]

3.7.18

Sobre O Processo, de Franz Kafka




«O mundo das repartições e dos arquivos, dos gabinetes e dos quartos escuros, bafientos e degradados, é o mundo de Kafka. (…)
O Processo deixa-nos perceber que o procedimento judicial que é levantado contra o réu não lhe deixa, regra geral, qualquer esperança, inclusivamente nos casos em que poderia subsistir a esperança da absolvição. Ora, talvez seja precisamente esse desespero que transforma os réus nas únicas personagens belas no universo kafkiano.» [Do Posfácio de Walter Benjamin]

De Franz Kafka, a Relógio D’Água publicou também O Castelo, O Desaparecido, Contos (com selecção e prólogo de Jorge Luis Borges), Carta ao Pai e A Metamorfose (prefácio de Vladimir Nabokov), Diários e Contos Escolhidos.
Em breve, a Relógio D’Água editará Cartas a Milena.

2.7.18

Sobre Karen, de Ana Teresa Pereira




Ana Teresa Pereira na imprensa brasileira

Na sequência da obtenção do Prémio Oceanos pelo seu romance Karen, surgiram na imprensa vários artigos e entrevistas sobre Ana Teresa Pereira.

«• Todos temos um traje cotidiano e um traje de baile quando o assunto é dizer de quem somos? De que maneira a inveja pelas habilidades humanas que não desenvolvemos pode se tornar uma potência?
Tão importante como a identidade, é a atracção pela metamorfose. Uma das ideias iniciais de Karen era a existência de duas realidades. O desafio era que as duas fossem impossíveis. Se a narradora é Karen, por que motivo o cão não a reconhece? Se ela é uma pintora que vive em Londres, como é que não sabe desenhar? Talvez a noite em que está mais próxima de si mesma, em que quase atinge a unidade, seja aquela em que usa o vestido vermelho. A ideia de que há outras possibilidades, de que podemos ser outras pessoas, não deixa de ser fascinante. Como um actor que procura as partes de si mesmo que correspondem à personagem que quer interpretar (mesmo o fascista ou o santo, diria Orson Welles); como tocar teclas de um piano que tínhamos ignorado até então.» [Entrevista a Andressa Barichello, «Rascunho», Maio 2018]

«Consistência
Vencido o percalço inicial e aberto o livro, o leitor vai se deparar com a objetividade de quem sabe o que quer e para onde vai desde a primeira linha. Nada de experimentalismos nem de prefácios ou de outras filigranas que só retardam a entrada no principal. Depois da breve epígrafe de W. G. Sebald, o romance abre direto e firme no primeiro capítulo para seguir numa estrutura de capítulos curtos cuja simetria garante um mesmo ritmo até o final (é interessante observar que muitos autores, no afã da busca pelo original, acabam perdendo a noção de que simetria, objetividade, assepsia quanto a aspectos gráficos são detalhes que deixam a leitura mais confortável; se o objetivo for inquietar o leitor, nada rouba a primazia da força do texto sobre qualquer outro artifício). O máximo de subversão a que se permite a autora é uma abertura in finis res, com uma surpresa formal no último capítulo que não se vai aqui antecipar. Em todo o resto, a sobriedade veterana de quem sabe que é sempre melhor investir na consistência do conteúdo do que na decoração da fachada.» [Luiz Paulo Faccioli, «Rascunho», Maio 2018]


«Talvez a expectativa do leitor nas primeiras linhas do romance seja a de encontrar, nas páginas seguintes, uma revelação, a solução de um mistério. A insegurança quanto à lucidez ou à credibilidade do ponto de vista da personagem narradora parecem despertar a procura por respostas mais “confiáveis”. Essa procura, todavia, logo é substituída pelo gesto de, agarrados à sua lógica e capacidade de encadear acontecimentos, andarmos de braços dados com uma mulher capaz de fazer de suas interrogações as nossas. A incerteza produzida pelo intrincado dos acontecimentos no livro solicita do leitor certo despojo quanto ao racional, permitindo-se também ele deixar-se guiar pela intuição ao acompanhar os dias da personagem dentro de uma residência isolada, com ares aristocráticos, um dos cenários principais de ambientação da narrativa.
A certo ponto, a casa – e a mulher – podem ser lidos como uma fotografia, uma memória, um pesadelo, uma fuga, um cômodo, um ateliê; qualquer morada [ou herança] paralela dentro da qual é difícil precisar a identidade não só de um, mas de todos os personagens.
Ler Karen é estar diante de um romance onde o que vale é o que é contado, pois tanto o que é narrativa quanto o que é escassez dialogam com a capacidade de se entregar e com o desejo de resistir que movem o curso das águas, da vida.» [Lucas Verzola, «Revista Lavoura», 28/05/2018]