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7.12.10

Livros da Relógio D’Água nos Media (Semana de 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2010)

No Ípisilon do Público de 3 de Dezembro, Maria da Conceição Caleiro escreve sobre Mistérios de Lisboa, obra de Camilo Castelo Branco prefaciada por Raoul Ruiz: "Quase em simultâneo: Mistérios de Lisboa (1854) de Camilo Castelo Branco, em nova edição, com acutilante prefácio do cineasta Raoul Ruiz, e nas salas o filme de Ruiz com o mesmo nome. Autor que aceitou o convite vertiginoso à valsa de mil tempos cruzados. Ambos geniais, se bem que gerados em mundos e momentos diferentes".

Na mesma edição do Ípisilon, João Bonifácio escreve sobre Depois da Chuva de William Trevor: "Na belíssima capa de Depois da Chuva temos o recorte de uma árvore em dia de chuva, magros ramos, frágeis folhas azuladas. É uma imagem justa para tão triste e precioso livro de um mestre da melancolia íntima".

4.9.09

Livros da Relógio D’Água nos Media em Agosto

No suplemento Ípsilon do Público de 7 de Agosto, Francisco Luís Parreira (FLP) escreve sobre duas obras de Freud, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade e Para Além do Princípio do Prazer, que considera «textos essenciais do fundador da psicanálise». Num texto que revela conhecimento aprofundado dos temas, FLP situa as duas obras referidas na evolução do pensamento de Freud.

No suplemento Actual do Expresso de 8 de Agosto, António Guerreiro (AG) escreve sobre a obra sua Violência do esloveno Slavoj Žižek e faz referência a uma outra obra também recentemente publicada, O Sujeito Incómodo. AG considera que:
«Žižek é um filósofo comprometido com a factualidade do presente, mas que reivindica a sua inscrição no idealismo alemão – dois pólos que estão bem representados por estes dois livros. O primeiro está do lado do Conceito, com maiúsculas, à medida da convocação hegeliana, e o subtítulo tem peso para nos introduzir a um tratado: “O Centro Ausente da Ontologia Política”. O segundo corresponde ao Žižek mais profano e interventivo.»
No mesmo número do Actual, Rogério Casanova (RC) fala sobre O Leilão do Lote 49 de Thomas Pynchon. RC refere que a tradução agora publicada, e que recupera a de 1987, foi revista com correcção de alguns lapsos, mas que introduzindo outros e sublinha que uma frase do texto original continua «misteriosamente truncada».
RC afirma que «surpreendentemente, para um livro tão imerso na atípica cultura hippie californiana, “Lote 49” envelheceu muito bem», mas acrescenta que «como com qualquer obra-prima que exija e recompense leituras repetidas, a última palavra pertence às próximas gerações».

Na revista Os Meus Livros de Agosto, Mónica Maia escreve sobre Cão em Fuga de Don DeLillo. A crítica afirma que:
«Neste romance de 1978, mas perfeitamente actual, são subtilmente visíveis as questões da guerra do Vietname, os seus efeitos sociais e as intenções políticas.»
No mesmo número de Os Meus Livros, Hélder Beja aborda Violência de Žižek, considerando que:
«O esloveno parece tão intelectual quanto um filósofo oitocentista e às vezes divertido como Jon Stewart numa edição do Daily Show.»
Ainda em Os Meus Livros, nas sugestões para o Verão, é recomendado Bullet Park de John Cheever.

No Actual do Expresso de 22 de Agosto, Ana Cristina Leonardo escreve sobre Hadji-Murat, uma obra póstuma de Lev Tolstói: «Hadji-Murat lê-se como um livro de aventuras. O destino (trágico) do protagonista vai-se desenrolando subtilmente à nossa frente, enriquecido por toda uma plêiade de personagens, pinceladas naquele jeito realista que torna qualquer obra de Tolstói num quadro a transbordar de vida».
No mesmo suplemento do Expresso, Carlos Bessa critica O Coração dos Ponders de Eudora Welty. Considera que ao ler esta novela nos tornamos «íntimos de personagens carismáticas, que acompanhamos nos seus episódios de loucura, enquanto observamos os contrastes sociais do velho sul norte-americano, com o seu quê de racismo e uma peculiar maneira de torcer o pescoço à vida».

No Ípsilon de 28 de Agosto, Pedro Mexia escreve sobre Bullet Park de John Cheever.
«Há no romance momentos de grande brilhantismo de escrita, da métrica das conversas banais à relação entre as Escrituras e as épocas do ano, mas Cheever, mestre da violência subentendida, levou à exasperação o conflito entre a aparência e realidade. E construiu uma denúncia demasiado denunciada. Bullet Park é um fracasso, embora um belo fracasso».

Na revista LER de Agosto é publicada uma entrevista com José Gil, a propósito de Em Busca da Identidade – o desnorte. Na entrevista, conduzida por José Riço Direitinho e com fotografias de Pedro Loureiro, José Gil faz uma análise da evolução da sociedade portuguesa nos últimos cinco anos e designadamente do actual conceito governamental de modernização, dos problemas da nossa identidade e aborda a «humilhação dos professores», a «reactivação do medo», a docilidade e a desobediência e o chico-espertismo de José Sócrates.
No mesmo número da LER, José Mário Silva critica O Leilão do Lote 49 de Thomas Pynchon, considerando-o uma obra-prima que lamentavelmente surge editada com numerosas gralhas.
Nos destaques de leitura, José Riço Direitinho fala de O Coração dos Ponders de Eudora Welty. Considera que:
«A história é contada num estilo coloquial, num discurso terno e irónico de grande poder narrativo, com sucessivas interpelações ao leitor. Welty, que também foi fotógrafa, retrata de maneira brilhante a vida numa pequena cidade sulista.»

9.6.09

A Avaliação dos Escritores e o Método das Estrelas


Perdidos no labirinto de uma avaliação burocrática os professores protestam nas ruas. A sua contestação é pública, colectiva e visível.
Tudo é diferente com os escritores. Desde logo, e à excepção de alguns jantares do Pen Clube, das Correntes d’Escritas, do acolhedor de Paraty e das sessões de autógrafos da Leya, é gente pouco dada a aglomerações. E, no entanto, também eles passaram da avaliação qualitativa para outra em que é visível uma expressão quantitativa. Os seus livros vão agora de uma bola negra à cintilação das cinco estrelas. A classificação que se justifica nos hotéis, onde é uma questão de tamanho de quartos e serviços de bar, e talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin é de todo inadequado para literatura e ensaio.
Na apreciação dos filmes, o star system ainda tem algum sentido até porque são vários os críticos a pronunciar-se, o que permite pelo menos conhecer o seu gosto depois de vermos os filmes. Mas é difícil encontrar vários críticos disponíveis para lerem, em tempo útil, o mesmo livro, sobretudo os com mais de duzentas páginas de letra poupada.
E o resultado é o que se sabe. Acompanha-se a tradicional apreciação qualitativa, intuitiva e eventualmente apaixonada de uma obra com uma grosseira avaliação numérica.
Há sempre leitores interessados nas críticas antecedidas por quatro ou cinco estrelas e, por sadismo, nas que caem num «buraco negro». Mas quem estará disposto a ler a crítica antecedida com uma, duas, ou mesmo três estrelas, feita a um autor que se desconhece?
E se são atribuídas cinco estrelas a obras como o London Fields de Martin Amis, como será possível classificar, na mesma escala, a Odisseia, o Rei Lear, o D. Quixote, As Folhas de Erva, A Morte de Virgílio, Em Busca do Tempo Perdido ou o Ulisses?
Ou falando de ciência , se A Evolução para Todos de David Sloan tem cinco estrelas, quantas seriam necessárias para classificar A Origem das Espécies ou A Origem do Homem e a Selecção Sexual? Será que daqui a alguns séculos ainda se ouvirá falar de London Fields e de David Sloan? Não estaremos perante constelações diferentes?
E terá algum sentido lógico que, por exemplo, Rogério Casanova atribua duas estrelas aos Contos Completos I de John Cheever e Eduardo Pitta lhes conceda cinco? Será Cheever duas vezes e meia melhor que Cheever, ou seja, será Cheever muito superior a si próprio?
Uma das poucas «vantagens» do método das estrelas é evidenciar «absurdos» como os de um livro, com apenas duas estrelas, de Tom Wolfe, Eu Sou a Charlotte Simmons, ter um destaque gráfico que está de todo ausente em Diários de Viagem de Eduardo Salavisa, que fez o pleno no mesmíssimo número do Expresso.
Claro que lendo os textos dos críticos talvez alguns destes absurdos, facilmente multiplicáveis, deixem de o ser. Mas isso não anula a confusão gerada pelo método quantitativo.
Este processo é ainda pior por se voltar contra os críticos que o consentem. É que o seu trabalho é, no melhor dos casos, uma disciplina da literatura, o ensaio literário e, como tal, passível de abertura à interpretação dos leitores. Ao pactuar com a avaliação quantitativa, os críticos estão a tornar menos interessante a sua actividade fechando a porta da subjectividade na cara dos leitores.

Francisco Vale

27.5.09

Crítica dos Críticos II

A Vida Difícil dos Bons Livros

António Guerreiro é um jornalista atento. Sem o seu trabalho muitas obras de poesia ou de ciências sociais seriam injustamente ignoradas.
E, no entanto, o seu artigo publicado no Expresso de 1 de Maio, sobre a vida editorial, é redutor ao atribuir a factores como o excesso de produção e à comercialização livreira a responsabilidade principal pelas ameaças à «sobrevivência de espécies bibliográficas» e à sua «diversidade».
O excesso de produção só pode ser um fenómeno conjuntural sem consequências a longo prazo. E o problema de «diversidade» no sector é o mesmo que existe para certos vírus, ou seja, a diversidade até tem aumentado mas criando espécies indesejáveis – o «vampirismo casto», os variados dragões, o realismo urbano imediatista, o género «estrelas televisivas», etc.
Por outro lado, o comércio livreiro não tem o poder de inflectir duravelmente a procura dos leitores e uma prova disso é que, quando uma delas, com uma área razoável num local central, expõe apenas «livros de referência», acaba em falência inglória. O caso de «O Navio de Espelhos» é disso exemplo.
A razão principal para as melhores estantes das livrarias não estarem ocupadas por «bons livros», resulta de um processo em que confluem tendências sociais e culturais de que são responsáveis específicos o sistema de ensino, os media, os editores, os jornalistas, os autores e os livreiros.
Tendo como pano de fundo uma reprodutibilidade técnica que subtraiu às obras de arte a aura da sua «distante proximidade», a massificação de ensino e uma vida urbana que retira vagar e silêncio à leitura, verifica-se a apropriação por parte da sociedade do divertimento de um meio cultural prestigiado como o livro – hoje há editoras especializadas em publicar figuras televisivas com audiências garantidas em prime time, juntando-lhe um ou outro escritor «sério» nada preocupado com a companhia.
Este processo é comum à generalidade dos países e levou à criação de um público em que a maioria prefere Paulo Coelho, Dan Brown ou Stephenie Meyer a Kafka, Cormac McCarthy ou mesmo Philip Roth. É o surgimento, entre os leitores, de uma maioria que prefere livros apenas de divertimento que está na origem da situação actual.
Em Portugal pesa ainda o facto de se ter mudado de uma sociedade quase iletrada para uma outra herteziana e digital, passando por cima da «Galáxia de Gutenberg». Isso sucedeu devido à fragilidade da nossa revolução industrial, que dispensou certas formas de literacia e conduziu de uma economia ruralizada para a actual sociedade de serviços.
Mas mesmo antes de chegarmos às «culpas» específicas do sector como as dos escritores, livreiros e editores, devemos falar dos media, onde se reduzem os espaços destinados aos livros e é quase impossível encontrar um jornalista especializado em divulgação científica. Poderíamos citar dezenas de obras de «ciências duras» e «sociais» de referência que não tiveram um segundo de atenção nos media portugueses.
Por outro lado, o sistema de ensino desencoraja a leitura e a escrita, ou seja, não cria públicos para os géneros referidos – e também para o teatro, poesia e artes plásticas.

As Responsabilidades no Sector

É evidente que a «fuga em frente» do excesso de produção de alguns editores leva a que livros de qualidade fiquem submersos nas estantes das livrarias que tendem por isso a encurtar os «prazos de devolução». Há mesmo grupos editoriais que praticam deliberadamente esse excesso de produção para asfixiar concorrentes. Mas como referimos isso não suprime as «obras de referência» nem tem efeitos estruturais como os referidos por António Guerreiro.
Por sua vez, os livreiros tentam impor condições que dificultam a vida às editoras mais exigentes, aumentando as margens, exigindo um pagamento de espaços nas suas brochuras duas vezes mais caro que na New Yorker e procedendo às devoluções num prazo que não permite que a crítica possa ter efeito nas vendas. Isso contribui para a brilhante monotonia dos seus expositores.
Como, apesar de tudo, já existe um público para obras de qualidade, os livreiros poderiam retirar os «bons livros» dos esconsos, especializar-se em certas áreas, ou vender fundos em lojas amplas na periferia onde as rendas são mais acessíveis evitando naufrágios como a da Byblos. Os livreiros são ainda responsáveis pelo facto de qualquer «livro televisivo» ter assegurado uma centena das suas melhores montras, independentemente do que lá venha escrito – só isso explica que «o livro mais esperado do ano» possa ter uma autora sem «antecedentes» na escrita.
Mas se as livrarias ajudam ao eclipse dos «livros de referência», a verdade é que são sobretudo a sua expressão visível no final de um processo.
Afinal quem publica os maus livros são os editores e quem faz as capas com letras douradas em relevo são os designers. E são autores os que escrevem essas obras e aprovam essas capas. E tudo isso porque há leitores que os procuram.

Francisco Vale



22.5.09

A Crítica dos Críticos I*

Helena Vasconcelos e a «Grande Literatura»
No Ípsilon de 30 de Abril, Helena Vasconcelos escreve sobre o Regresso do Soldado de Rebecca West, afirmando tratar-se de uma obra inscrita «no âmbito da literatura de guerra», sendo pioneira na abordagem «dos efeitos do “stress pós traumático”». Conclui, no entanto, que «não pode ser considerada “grande literatura”».
Helena Vasconcelos comete um duplo erro.
Dizer que O Regresso do Soldado é pioneira na abordagem do «stress pós traumático» é passar ao lado, é como dizer que O Coração Solitário Caçador de Carson McCullers inicia a «literatura dos deficientes», só porque os personagens, Singer e Antonópoulo, são dois jovens mudos.
A tensão dramática em O Regresso do Soldado tem a ver com a destruição das paixões adolescentes pelo tédio calculada da vida adulta. O trauma sofrido por Christopher nas trincheiras confere à narrativa uma dimensão de actualidade, mas é algo de instrumental – por exemplo em The Revolutionary Road de Richard Yates, a circunstância dessa ruptura dramática é a desistência de Frank Wheeler em partir para Paris com a mulher devido a uma promoção no emprego.
Por outro lado, a recusa de Helena Vasconcelos em considerar O Regresso do Soldado «grande literatura» não pretende ser uma abordagem teórica, no sentido em que se discutiu numa dada época se os ready-mades de Duchamp eram ou não obras de arte. Helena Vasconcelos dá razão aos críticos que acham que Rebecca West «escrevia demais, descurando, por vezes, a qualidade». É pena que Helena Vasconcelos, que enumera os amigos e amantes intelectuais de Rebecca West, não indique de que críticos se trata, nem aborde outras importantes obras de West, como The Birds Fall Down, Harriet Hume ou The Thinking Reed, dando exemplos de tal incúria.
Considero O Regresso do Soldado uma dessas raras novelas quase perfeitas e, sem querer usar o argumento de autoridade, devo dizer que sou acompanhado pelos críticos do El País que, no balanço do ano literário de 2008, a colocaram em primeiro lugar entre as dez melhores obras de ficção, injustamente esquecidas, publicadas em Espanha.
É uma novela breve que se caracteriza pelo despojamento da linguagem, a tensão narrativa e a subtileza das situações, personagens e desenlace. Desafiamos qualquer leitor a apontar uma frase em excesso.
O Regresso do Soldado tem uma perfeição comparável a Os Adeuses de Onetti, ao Falcão Peregrino de Glenway Wescott, à Balada do Café Triste de Carson McCullers, ao Golpe de Misericórdia de Marguerite Yourcenar, a Pedro Páramo de Juan Rulfo, a Um Copo de Cólerade Raduar Nassar, a Djamila de Aikmatov e a O Primeiro Amor de Turguéniev (entre nós podemos referir apenas, e a alguma distância, O Barão de Branquinho da Fonseca ou A Paixãode Almeida Faria).
Só não é caso para desejarmos que se aplique a Helena Vasconcelos a conhecida frase de Oscar Wilde («quando li o crítico odiei o livro, quando li o livro odiei o crítico»), porque se trata de alguém que, noutras ocasiões, tem divulgado a melhor literatura.

* A «crítica dos críticos» é algo que escasseia em Portugal, embora, claro, para um editor só tenha sentido quando se trata de autores que já não se podem defender.

Francisco Vale