18.3.19

Sobre Coisas Que não Quero Saber, de Deborah Levy




«Título e subtítulo são, neste livro, uma conjugação explosiva, matéria capaz de deixar o leitor em meditação, durante largas horas. De um lado, Coisas Que não Quero Saber; do outro, Uma Resposta ao Ensaio de George Orwell “Porque Escrevo”, de 1946. Numa ponta, a negação e a emoção; na outra, a afirmação e a racionalidade. A tensão, na verdade, nunca se resolve, e nesse jogo de forças reside a atração deste primeiro volume da autobiografia de Deborah Levy.
Porque Escrevo, de George Orwell, é um texto clássico que afirma, com uma enorme clareza, o que move um escritor. Das certezas precoces ao posicionamento ideológico, há pouco espaço para a dúvida. Apesar de um duelo interior, travado entre os 17 e 24 anos, época em que quis afastar a “vocação”, no percurso de Orwell há, sobretudo, conflitos exteriores, os que marcaram o século XX e que ele convocou para os seus livros. Em Levy, a expressão Porque Escrevo reclama forçosamente um ponto de interrogação. Perto dos 55 anos, no meio de uma crise pessoal de contornos difusos, exigiu também uma resposta.» [Luís Ricardo Duarte, Visão, 6/1/2019]

Sobre O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade




O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade, ocupa-se da forma como o homem religioso se esforça por se manter num universo sagrado e da diferença entre a sua experiência de vida e a do homem privado de sentimentos religiosos, daquele que vive ou deseja viver num mundo dessacralizado.
Para a consciência moderna, a alimentação ou a sexualidade não são mais do que fenómenos orgânicos, qualquer que seja o número de tabus que os rodeia. Mas, para o primitivo e para algumas populações atuais, um tal ato é, ou pode tornar-se, um «sacramento», quer dizer, uma comunhão com o sagrado.

O sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história. Estes modos não interessam apenas à história das religiões ou à sociologia. Em última instância, os modos de ser sagrado e profano dependem das diferentes posições que o homem ocupa no cosmos.

15.3.19

Sobre O Susto, de Agustina Bessa-Luís




Carlos Vaz Marques falou sobre «O Susto», de Agustina Bessa-Luís, no programa Livro do Dia de 13 de Março na TSF. O programa pode ser ouvido aqui: https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/o-susto-de-agustina-bessa-luis-10673728.html?autoplay=true

Um Bailarino na Batalha na Hoje Macau




«“Um Bailarino na Batalha”, de Hélia Correia, não parece um poema, mas é-o, em certa medida. Percorro definições de poesia que o atestem, que isto da teoria literária pouco diferente será da água benta, cada qual toma de quanta quer e como lhe convém. Benzo-me, com uns salpicos abençoados por Valèry, para dizer ao que venho. Se bem não faz, também não prejudica: “A poesia é o desenvolvimento de uma exclamação”. E por aqui se comprova o lirismo de Hélia Correia, ainda que numa novela que não descuida todas as categorias da narrativa: os vários tempos e ritmos a atravessar a temporalidade ficcional que manipula, por sua vez, os cordéis da acção, as personagens, o espaço e o narrador a um canto, afadigado, gerindo pontos de vista. Tudo isto ao serviço de uma inquietação aguda, de uma exclamação crescente: espécie de ponto luminoso que se acende, brilha até à sua intensidade máxima, quase cegando, e que depois se apaga. A luz fere, desaparece, fugaz, mas o golpe de luz permitiu ver, mesmo por breves instantes, uma imagem que persiste como emoção exclamativa, um brado que se ouve, apesar de embutido na garganta. Meu tão certo secretário, já que cá viestes, dando-vos a esta maçada, permiti-me continuar, que as metáforas são como as cerejas…» [Rita Taborda Duarte, Hoje Macau, 11/3/2019. Texto completo em https://hojemacau.com.mo/2019/03/11/o-desenvolvimento-de-uma-exclamacao/ ]

14.3.19

Sobre A Mulher de Trinta Anos, de Honoré de Balzac




Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: A Mulher de Trinta Anos, de Honoré de Balzac (trad. Dóris Graça Dias)

A Mulher de Trinta Anos foi publicado em 1832 e, tal como outros romances de La Comédie humaine, evidencia a atualidade da obra de Balzac.
Quem afinal é essa mulher de trinta anos, nascida na primeira metade do século xix em França?
Submetida à obrigação do casamento, atravessa um momento decisivo da vida, pois é então que pode conhecer a liberdade, o que para o caso significa ter um amante, ligação que a sociedade pune.
Balzac denuncia a condição das mulheres casadas com homens de quem só descobrem os defeitos a meio das suas vidas. O autor constata o fracasso do casamento de amor e, com os filhos nascidos sem amor, a frustração da maternidade.
Mas esta história, onde a sexualidade desempenha um papel importante, não se confina às relações conjugais e amorosas, cruzando-se com episódios aventurosos e reivindicações políticas e sociais.
Contrariando uma visão que prevaleceu até há pouco, Balzac defende que a mulher tem o direito de amar e ser amada em qualquer idade, mesmo fora do casamento, e de ser reconhecida pela sociedade pelo que é e não apenas como esposa e mãe.

De Honoré de Balzac a Relógio D’Água tem publicados A Rapariga dos Olhos de Ouro, Pierrette seguido de O Padre de Tours e Sarrasine.

Sobre Húmus, de Raul Brandão




Húmus, de Raul Brandão, foi um acontecimento insólito na vida literária portuguesa, como um desses rochedos que, sem razão aparente, surgem no meio de uma planície.
Publicada em 1917, e refundida em posteriores edições, a obra não tem relação com a dos autores da Geração de 90 nem com as dos escritores estrangeiros seus contemporâneos, como Romain Rolland, Pirandello e Gorki. As únicas semelhanças poderão ser com a de Dostoievski e a que Kafka ia escrevendo.
O próprio Raul Brandão situou nas suas Memórias o tempo em que o Húmus se inscreve: «A nossa época é horrível porque já não cremos — e não cremos ainda. O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas, à espera…»
Maria João Reynaud definiu na edição das Obras Completas de Raul Brandão o contributo do autor de Húmus: «Se a arte de Raul Brandão surge muitas vezes na fronteira da vida com a literatura, é porque ele concebeu a função do escritor em termos autenticamente modernos, isto é, em íntima conexão com uma atitude intelectual que a cada momento reivindica o livre exercício do espírito contra todas as formas de degradação dos valores humanos e contra todos os dogmas.»

No centenário do nascimento de Iris Murdoch




No ano em que se comemora a 15 de Julho o centenário do nascimento de Iris Murdoch, a obra da escritora irlandesa adquire renovada importância, sendo objecto de diversas reedições.
Num mundo dominado pela ciência, os seus romances, desde o inicial Sob a Rede, de 1954, até ao último, Jackson’s Dilemma (1995), afirmaram a importância da literatura.
Iris Murdoch nasceu em Dublin, na Irlanda, numa família protestante, mas cresceu e viveu em Londres. 
No final da década de 1930, começou a estudar Filosofia e Línguas Clássicas em Oxford, ao lado de uma brilhante geração de filósofas, como Philippa Foot, Mary Beatrice Midgley ou Elizabeth Anscombe.
Estudou Grego com Eduard Fraenkel, o que lhe permitiu aprofundar o seu conhecimento da obra de Platão, cujas concepções influenciaram toda a sua obra (outras referências foram Kant, Simone Weil e Wittgenstein).
Casou em 1956 com o crítico literário John Bayley, com quem viveu até morrer em 1999. O seu amante, Elias Canetti, inspirou muitas das suas personagens masculinas.
Iris Murdoch começou por escrever ensaios de filosofia, sendo a autora da primeira monografia britânica de Jean-Paul Sartre.
Mas, como afirmaria em entrevista, «a literatura faz muitas coisas, a filosofia só uma».
Vários sos seus romances podem ser considerados como partindo de um gesto em que a autora lançou personagens no meio das casas, das ruas e dos parques londrinos e os deixou à solta, acompanhando as suas vidas, dúvidas, vocações e amores.
Escreveu 25 romances, sendo classificada muitas vezes na década de 70 como a mulher mais brilhante de Inglaterra. Reivindicou a importância da espiritualidade em relação à religião e a narrativa como espaço dramático de averiguação moral.
Recusou o modernismo de Joyce, inspirando-se na tradição do romance clássico de Dostoievski e Tolstoi, Eliot e Proust, que inovou. Mas Shakespeare e o teatro atravessaram toda a sua obra, a começar no que é talvez o seu mais importante romance, O Mar, o Mar.
Na Relógio D’Água tem publicados A Máquina do Amor Sagrado e Profano, O Mar, o Mar, O Bom Aprendiz, Um Homem Acidental, O Príncipe Negro, Uma Cabeça Decepada, Sob a Rede, O Sino e O Sonho de Bruno.