27.2.17

Elena Ferrante, a única certeza em França e na Alemanha




É sabido que são incertas as perspectivas para as próximas eleições presidenciais e legislativas em França e na Alemanha.
A única certeza em ambos os países é, neste momento, a preferência dos leitores pela tetralogia napolitana de Elena Ferrante.
O segundo e o terceiro volumes, História do Novo Nome e História de Quem Vai e de Quem Fica, ocupam os primeiros lugares dos tops de vendas em ambos os países, de acordo com as revistas Lire e Der Spiegel.

A chegar às livrarias: A Ilha do Doutor Moreau, de H. G Wells (trad. de Inês Dias)




«Na minha opinião, a precedência dos primeiros romances de Wells — A Ilha do Doutor Moreau, por exemplo, ou O Homem Invisível — deve-se a uma razão mais profunda. Não só é engenhoso o que referem; é também simbólico de processos que de certo modo são inerentes a todos os destinos humanos. O acossado homem invisível, que tem de dormir como que com os olhos abertos porque as suas pálpebras não excluem a luz, é a nossa solidão e o nosso terror; a seita de monstros sentados que fanhosamente recitam na sua noite um credo servil é o Vaticano e é Lassa. A obra que perdura é sempre capaz de uma infinita e plástica ambiguidade.» [Jorge Luis Borges, em Outras Inquirições]

Nos 100 anos do nascimento de Carson McCullers





Com a edição de O Coração É Um Caçador Solitário e agora de A Balada do Café Triste, a Relógio D’Água celebra o centenário do nascimento de Carson McCullers, nascida em Columbus, no estado norte-americano da Georgia, em 19 de Fevereiro de 1917.
O seu nome de baptismo era Lula Carson Smith e os seus pais eram donos de uma joalharia. Desde muito jovem revelou talento musical, havendo ecos dessa vocação em alguns dos seus contos. Mas uma doença reumática limitou as suas possibilidades de uma carreira como pianista.
Aos 17 anos escreveu o seu primeiro conto, «Sucker», e partiu para Nova Iorque para estudar música e teatro e frequentar a universidade. Em 1936 saiu, na revista Story, o conto «Wunderkind». Em 1940 publicou o que viria a ser considerado um dos seus melhores romances, O Coração É Um Caçador Solitário, revelando uma surpreendente maturidade. Em 1941 editou Reflexos nuns Olhos de Ouro. Frankie e o Casamento surgiu cinco anos mais tarde e foi adaptado ao cinema e ao teatro na Broadway, recebendo, em 1950, o prémio de melhor peça do ano. A novela A Balada do Café Triste saiu em 1951.
Carson McCullers teve um agitado casamento com Reeves McCullers, que considerava «o homem mais belo que alguma vez vira». Relacionou-se também com algumas das personalidades literárias e cinematográficas mais interessantes da sua época, como Richard Wright, Isak Dinesen, John Huston, Marilyn Monroe e Djuna Barnes, por quem teve uma paixão não correspondida.
Carson McCullers deixou uma autobiografia incompleta, Illumination and Night Glare. Numa entrevista que concedeu no Plaza Hotel, no dia do seu último aniversário, revelou as razões que a levaram a escrevê-la. «Penso que é importante para as gerações futuras saber porque é que fiz certas coisas, e isso é também importante para mim. Tornei-me rapidamente uma figura literária conhecida, sendo demasiado jovem para compreender o que me estava a acontecer ou a responsabilidade que implicava. Senti uma espécie de terror sagrado. Foi isso que, combinado com a minha doença, cedo me destruiu.  Talvez, se registar em preservar para outras gerações o efeito que o êxito teve em mim, permita que futuros artistas aceitem melhor o facto.»
Carson McCullers morreu em Nyack, em Nova Iorque, em 1967.

Sobre Karen, de Ana Teresa Pereira




«Também no seu mais recente livro, Karen, Ana Teresa Pereira tematiza a ideia de um outro/uma outra —, levando até aos limites do concebível, do exprimível, a tensão que faz cruzar os corpos e as mentes com os seus pares, lá onde se tocam como tecido sobre pele. Uma luz a travessar uma cortina. Algo assim que pareça real, mas seja, no fundo, a dúvida de toda a irrealidade. A trama de Karen lembra Rebecca, o romance de Daphne du Maurier, e a película homónima de Hitchcock inspirada no livro. A chegada da personagem feminina à moradia antes ocupada por uma outra mulher (ou a mesma?), o misterioso viúvo, a governanta da casa, o ambiente de mistério que cerca e nubla os passos de todos estes seres são condicionalismos e estimulantes na leitura deste romance.» [Hugo Pinto Santos, Público, ípsilon, 24/2/2017]

22.2.17

No vigésimo aniversário da morte de António Gedeão




Fez no passado dia 19 de Fevereiro vinte anos que morreu Rómulo de Carvalho.
Como Rómulo de Carvalho, foi autor de diversas obras de divulgação científica, como A Física no Dia-a-Dia ou A Ciência Hermética.
Aos 50 anos escreveu o seu primeiro livro de poesia, intitulado Movimento Perpétuo. Seguiram-se, entre outros, Teatro do Mundo, Máquina de Fogo, Linhas de Força, Poemas Póstumos e Novos Poemas Póstumos.
Rómulo de Carvalho foi também um professor e pedagogo de referência. Ensinou Física e Química, disciplinas em que se formou na Universidade do Porto, em Lisboa, desde 1934, em Coimbra durante sete anos, e depois novamente em Lisboa, onde se reformaria em 1974.
Foi ainda historiador, devendo-se-lhe a História do Ensino em Portugal, desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano.
Divulgou a ciência, com obras como Cadernos de Iniciação Científica e A História dos Balões, ou Memória de Lisboa.
A sua Obra Completa de poesia está publicada na Relógio D'Água, assim como a maioria dos seus livros de divulgação científica.
Rómulo de Carvalho foi casado com a romancista Natália Nunes e pai da contista e romancista Cristina Carvalho e de Frederico de Carvalho.
Em 1996, viu publicamente reconhecida a sua obra, quando o Governo português instituiu o dia do seu aniversário, 24 de Novembro, como o Dia Nacional da Cultura Científica.

Sobre Desobediência Civil, de Hannah Arendt




«Este ensaio constrói-se por meio de uma apertada malha de referências, interligando dois fios condutores: a lei e as ciências sociais. Hannah Arendt forja, com enorme segurança e elasticidade, um fundo teorético que sustenta cabalmente as suas asserções. Esta base, filha de um estudo aturado dos princípios e das regulações que organizam a sociedade e a civilização — «artefacto criado pelo homem para alojar sucessivas gerações» (p.37) –, permitiu à autora, sem riscos de demagogia, fazer a apologia da desobediência civil, para a qual defende um «nicho constitucional» (p.42) e mesmo o «estabelecimento da desobediência civil entre as nossas instituições políticas» (p.59). É, precisamente, por se ter posicionado de tal forma dentro da esfera legal que Arendt pode fazer a vindicação de um posicionamento que subverte a lei. Ao estudar e analisar os limites e contradições do sistema judicial americano, pois é dele que se trata (embora se estudem raízes que recuam à filosofia continental), Arendt detecta as brechas, as lacunas que podem, argúi, ser preenchidas por uma atitude sobremaneira alternativa, a da desobediência civil.» [Hugo Pinto Santos, Caliban, 12/2/17]

21.2.17

Sobre Os Prazeres dos Lugares Inóspitos, de Robert Louis Stevenson









« (…) Robert Louis Stevenson, era um viajante entusiástico, curioso e desejoso de compreender o desconhecido. Em 1878, empreendeu uma viagem pelas Cevenas, uma cadeia montanhosa no centro-sul de França, acompanhado por um burro. De facto, por uma burra, a que deu o nome de Modestine.
Pouco antes, numa das suas frequentes viagens a Paris, o jovem flâneur e boémio Stevenson conhecera e apaixonara-se por uma norte-americana, Fanny Osborne, mais velha onze anos e casada com um advogado do Kentucky. Desanimado com o regresso de Fanny à América, empreende esta caminhada de 120 milhas, que relata por escrito com o fito de ganhar algum dinheiro rapidamente. Stevenson usa Modestine para carregar a bagagem – e, a partir de certa altura, apenas parte da bagagem – enquanto o escocês percorre o itinerário a pé. “Viagens com Uma Burra pelas Cevenas” (“Travels with a Donkey in the Cévennes”, no original, publicado em 1879) rapidamente adquiriu o estatuto de clássico da literatura de viagens e Modestine, essa burra tímida e teimosamente lenta, tornou-se uma das suas mais memoráveis personagens.
(…)
A viagem com Modestine está incluída em “Os Prazeres dos Lugares Inóspitos”, que é o título do texto que antecede o relato da viagem e que serve como uma espécie de introdução ao sentido de lugar que o autor defende, e é o mais recente título da coleção de viagens da Relógio d’Água.» [Sugestão da livraria Palavra de Viajante no Jornal Económico, 4/2/17]

De Robert Louis Stevenson, a Relógio D’Água publicou O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde e A Ilha do Tesouro.