15.2.19

Sobre A Espuma dos Dias, de Boris Vian




«Chamaram‑lhe, alguns, a obra‑prima do autor. E num prefácio que andou durante muito tempo colado ao seu “Arranca‑Corações”, Raymond Queneau não hesitava perante um rótulo hierarquizante e audacioso: “o mais pungente dos romances de amor contemporâneos”. Nos anos sessenta, “A Espuma dos Dias” circulou com estas difíceis responsabilidades.
Enfrentou‑as mostrando a singularidade de um universo ainda não conhecido com tanto talento na literatura; que se comprazia a impor aos homens e aos objectos leis novas, interdependentes. De facto, os objectos que lá existiam tinham um comportamento emotivo e implacavelmente ligado aos estados de alma de quem os utilizava. O que já antes parecia sugerido por Edgar Allan Poe em “A Queda da Casa Usher” assumia ali uma evidência despudorada que corria em dois sentidos, de sol e sombra, e nos informava muito mais sobre o interior das personagens do que qualquer alusão directa que o texto chegasse a fazer.» [Da Apresentação de Aníbal Fernandes]

Sobre O Banquete, de Platão




Carlos Vaz Marques falou sobre O Banquete, de Platão, no programa Livro do Dia de 12 de Fevereiro, na TSF. O programa pode ser ouvido aqui: https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/o-banquete-de-platao-10566807.html?autoplay=true

O Arranca Corações no São Luiz, até 17 de Fevereiro




Estreou ontem no Teatro São Luiz, na Sala Mário Viegas, a encenação de Nuno Nunes de O Arranca Corações, a partir da obra de Boris Vian.

Jacquemort, psiquiatra, chega a casa de Angel e Clémentine, que está em final de gravidez. Jacquemort vai então ajudá-la a dar à luz três rapazes gémeos, Noël, Joël e Citroën, que, ao contrário dos irmãos, nunca grita.
Angel está fechado em casa há dois meses pela mulher, que aceitou mal a gravidez. Só depois do parto é libertado. Jacquemort revela-lhe as razões que o levaram a este recanto aparentemente tranquilo. Ele possui uma capacidade de vazio e procura preenchê-la psicanalisando as pessoas e assimilando os seus sentimentos através de uma psicanálise «integral».
Neste romance, Boris Vian revela um universo terrível, o dos desejos mais implacáveis, em que todo o amor esconde o ódio.
Como escreveu Gilbert Pestureau, no prefácio à edição francesa, neste romance em que o número três desempenha um papel central, «os adultos são selvagens, ferozes ou infelizes, condenados à solidão, enquanto as crianças, cúmplices na magia, procuram secretamente a sua paixão de viver». Tudo isto numa «aldeia entorpecida na vergonha e na religião», onde «os trigémeos exploram o seu universo feérico enquanto uma mãe, que os ama demasiado, lhes reduz inexoravelmente o espaço».

Este e outros livros de Boris Vian disponíveis aqui: https://relogiodagua.pt/?s=boris+vian&post_type=product

14.2.19

Sobre As Estações da Vida, de Agustina Bessa-Luís




«Escrito em 2002, este é um livro bastante peculiar, cruzando influências que resultam numa leitura abrangente e perspicaz, derivada dos interesses por diferentes disciplinas, ainda que não sentido específico e académico com que elas, vulgarmente, são encaradas. Bebendo na Antropologia, na História (dos acontecimentos e datas, mas igualmente das Ideias, da Arte), na Psicologia, Agustina Bessa-Luís consegue, num livro de dimensões reduzidas, produzir um objecto tão luminoso e cativante, que nos ajuda a fazer equacionar diferentes cambiantes do quotidiano, a pretexto da decoração pictórica das estações de caminho-de-ferro. Além de uma deambulação sentida pela melancolia, pelo ritmo muito seu, que as próprias viagens de comboio possuem e transmitem: “o comboio é um mundo. O comboio é o mundo”.» [João Morales, no Blog BranMorrighan, Fevereiro 2019. Texto completo aqui: https://tinyurl.com/y2uxe4ey ]

Sobre Celeste & Làlinha, de José Cardoso Pires




«Celeste é que nem quis saber de mais nada, correu logo para a rua, com a boneca muito presa ao coração. Apertava-a até à dor do bem-querer.
Era uma negrinha só ternura e ainda por cima indefesa porque tinha um braço estropiado, provavelmente roído por qualquer bicho do mato. Mas o braço pouco importava, a criança ainda gostava mais dela por causa dessa fatalidade. Principalmente não podia esquecer os olhos, que eram como duas pétalas de marfim sobre um cheiro de canela.
“Làlinha, minha Làlinha… Fizeram-te mal, Làlinha?”

Sentadas ao portal, Celeste e Làlinha tinham à volta delas um campo de refugiados, casinhotos de cimento, ruas povoadas de galinhas, caixotes de porão às portas. Entre latas de flores havia um manjerico plantado num capacete colonial.»

Sobre A Luz da Guerra, de Michael Ondaatje




«A Luz da Guerra é um mosaico de fragmentos, tão engenhosamente montados que o padrão acabado parece tão inevitável quanto harmonioso. À semelhança dos seus antecessores imediatos – The Cat’s Table e O Paciente Inglês – este é um livro que nos vai dando pequenas migalhas ao longo do caminho e nos vai iluminando a história na medida certa.» [Molly Bloom, Revista Literária Ulysses, 9/2/2019]

A Luz da Guerra pode ser adquirido aqui: https://relogiodagua.pt/produto/a-luz-da-guerra/
De Michael Ondaatje, a Relógio d’Água publicará em breve O Doente Inglês e The Cat’s Table.

13.2.19

Sobre Eugénio Onéguin, de Aleksandr Púchkin (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra)




«Eugénio Onéguin apreende-se desde as primeiras estrofes como uma sátira, nunca violenta ou gratuita, mesclada de tristezas. A ironia (e a auto-ironia) da sua linguagem apelam à inteligência e ao espírito crítico do leitor.
A ligeireza da sua fala, que permite uma leitura fácil e sem tensão, combina-se com uma grande profundidade de ideias, exprimidas sempre como que a brincar, com uma enorme abrangência na descrição da realidade — pessoas, lugares, estações do ano, actividades, costumes, vida cultural, etc. Diz Andrei Siniávski, crítico literário russo, no seu livro Passeios com Púchkin: “Uma ligeireza — é a impressão que nos produzem as suas obras, a sensação geral e instantânea. (…) Mal ele apareceu na poesia, a crítica falou da ‘fluência e ligeireza extraordinárias dos seus versos’, de que ‘eles, aparentemente, não lhe custaram trabalho nenhum’.”» [Do Preâmbulo dos Tradutores]