9.12.16

Hora Clarice




 
Comemora-se a 10 de Dezembro a Hora Clarice, que celebra, a propósito da data do seu nascimento, a obra da escritora Clarice Lispector, através de debates, leituras e lançamentos.
A Relógio D’Água participa na iniciativa com a publicação do conto «Mistério em São Cristóvão», incluído no volume Todos os Contos, editado em Março de 2016.
A Relógio D’Água publicou em Portugal a maior parte da obra da autora: Onde Estivestes de Noite; Laços de Família; A Hora da Estrela; Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres; A Paixão segundo G. H.; Perto do Coração Selvagem; A Maçã no Escuro; Contos Reunidos; A Cidade Sitiada; Água Viva; O Lustre; A Vida Íntima de Laura; A Mulher Que Matou os Peixes; Um Sopro de Vida (Pulsações); O Mistério do Coelho Pensante; A Descoberta do Mundo e Todos os Contos.

 

«MISTÉRIO EM SÃO CRISTÓVÃO

Numa noite de maio — os jacintos rígidos perto da vidraça — a sala de jantar de uma casa estava iluminada e tranquila.
Ao redor da mesa, por um instante imobilizados, achavam-se o pai, a mãe, a avó, três crianças e uma mocinha magra de dezanove anos. O sereno perfumado de São Cristóvão não era perigoso, mas o modo como as pessoas se agrupavam no interior da casa tornava arriscado o que não fosse o seio de uma família numa noite fresca de maio. Nada havia de especial na reunião: acabara-se de jantar e conversava-se ao redor da mesa, os mosquitos em torno da luz. O que tornava particularmente abastada a cena, e tão desabrochado o rosto de cada pessoa, é que depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa família: pois numa noite de maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha está se equilibrando na delicadeza de sua idade, e a avó atingiu um estado. Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio e sua abundância.
Depois cada um foi para o seu quarto. A velha estendeu-se gemendo com benevolência. O pai e a mãe, fechadas todas as portas, deitaram-se pensativos e adormeceram. As três crianças, escolhendo as posições mais difíceis, adormeceram em três camas como em três trapézios. A mocinha, na sua camisola de algodão, abriu a janela do quarto e respirou todo o jardim com insatisfação e felicidade. Perturbada pela humidade cheirosa, deitou-se prometendo-se para o dia seguinte uma atitude inteiramente nova que abalasse os jacintos e fizesse as frutas estremecerem nos ramos — no meio de sua meditação adormeceu.
Passaram-se horas. E quando o silêncio piscava nos vaga-lumes — as crianças penduradas no sono, a avó ruminando um sonho difícil, os pais cansados, a mocinha adormecida no meio de sua meditação — abriu-se a casa de uma esquina e dela saíram três mascarados.
Um era alto e tinha a cabeça de um galo. Outro era gordo e vestira-se de touro. E o terceiro, mais novo, por falta de ideias, disfarçara-se em cavalheiro antigo e pusera máscara de demónio, através da qual surgiam seus olhos cândidos. Os três mascarados atravessaram a rua em silêncio.
Quando passaram pela casa escura da família, aquele que era um galo e tinha quase todas as ideias do grupo parou e disse:
— Olha só.
Os companheiros, tornados pacientes pela tortura da máscara, olharam e viram uma casa e um jardim. Sentindo-se elegantes e miseráveis, esperaram resignados que o outro completasse o pensamento. Afinal o galo acrescentou:
— Podemos colher jacintos.
Os outros dois não responderam. Aproveitaram a parada para se examinar desolados e procurar um meio de respirar melhor dentro da máscara.
— Um jacinto para cada um pregar na fantasia, concluiu o galo.
O touro agitou-se inquieto à ideia de mais um enfeite a ter que proteger na festa. Mas, passado um instante em que os três pareciam pensar profundamente para resolver, sem que na verdade pensassem em coisa alguma — o galo adiantou-se, subiu ágil pela grade e pisou na terra proibida do jardim. O touro seguiu-o com dificuldade. O terceiro, apesar de hesitante, num só pulo achou-se no próprio centro dos jacintos, com um baque amortecido que fez os três aguardarem assustados: sem respirar, o galo, o touro e o cavalheiro do diabo perscrutaram o escuro. Mas a casa continuava entre trevas e sapos. E, no jardim sufocado de perfume, os jacintos estremeciam imunes.
Então, o galo avançou. Poderia colher o jacinto que estava à sua mão. Os maiores, porém, que se erguiam perto de uma janela — altos, duros, frágeis — cintilavam chamando-o. Para lá o galo se dirigiu na ponta dos pés, e o touro e o cavalheiro acompanharam-no. O silêncio os vigiava.
Mal porém quebrara a haste do jacinto maior, o galo interrompeu-se gelado. Os dois outros pararam num suspiro que os mergulhou em sono.
Atrás do vidro escuro da janela estava um rosto branco olhando-os.
O galo imobilizara-se no gesto de quebrar o jacinto. O touro quedara-se de mãos ainda erguidas. O cavalheiro, exangue sob a máscara, rejuvenescera até encontrar a infância e o seu horror. O rosto atrás da janela olhava.
Nenhum dos quatro saberia quem era o castigo do outro. Os jacintos cada vez mais brancos na escuridão. Paralisados, eles se espiavam.
A simples aproximação de quatro máscaras na noite de maio parecia ter percutido ocos recintos, e mais outros, e mais outros que, sem o instante no jardim, ficariam para sempre nesse perfume que há no ar e na imanência de quatro naturezas que o acaso indicara, assinalando hora e lugar — o mesmo acaso preciso de uma estrela cadente. Os quatro, vindos da realidade, haviam caído nas possibilidades que tem uma noite de maio em São Cristóvão. Cada planta húmida, cada seixo, os sapos roucos aproveitavam a silenciosa confusão para se disporem em melhor lugar — tudo no escuro era muda aproximação. Caídos na cilada, eles se olhavam aterrorizados: fora saltada a natureza das coisas e as quatro figuras se espiavam de asas abertas. Um galo, um touro, o demónio e um rosto de moça haviam desatado a maravilha do jardim… Foi quando a grande lua de maio apareceu.
Era um toque perigoso para as quatro imagens. Tão arriscado que, sem um som, quatro mudas visões recuaram sem se desfitarem, temendo que no momento em que não se prendessem pelo olhar novos territórios distantes fossem feridos, e que, depois da silenciosa derrocada, restassem apenas os jacintos — donos do tesouro do jardim. Nenhum espectro viu o outro desaparecer porque todos se retiraram ao mesmo tempo, vagarosos, na ponta dos pés. Mal, porém, se quebrara o círculo mágico de quatro, livres da vigilância mútua, a constelação se desfez com terror: três vultos pularam como gatos as grades do jardim, e um outro, arrepiado e engrandecido, afastou-se de costas até o limiar de uma porta, de onde, num grito, se pôs a correr.
Os três cavalheiros mascarados que, por ideia funesta do galo, pretendiam fazer uma surpresa num baile tão longe do Carnaval, foram um triunfo no meio da festa já começada. A música interrompeu-se e os dançarinos ainda enlaçados, entre risos, viram três mascarados ofegantes parar como indigentes à porta. Afinal, depois de várias tentativas, os convidados tiveram que abandonar o desejo de torná-los os reis da festa porque, assustados, os três não se separavam: um alto, um gordo e um jovem, um gordo, um jovem e um alto, desequilíbrio e união, os rostos sem palavras embaixo de três máscaras que vacilavam independentes.
Enquanto isso, a casa dos jacintos iluminara-se toda. A mocinha estava sentada na sala. A avó, com os cabelos brancos entrançados, segurava o copo d’água, a mãe alisava os cabelos escuros da filha, enquanto o pai percorria a casa. A mocinha nada sabia explicar: parecia ter dito tudo no grito. Seu rosto apequenara-se claro — toda a construção laboriosa de sua idade se desfizera, ela era de novo uma menina. Mas na imagem rejuvenescida de mais de uma época, para o horror da família, um fio branco aparecera entre os cabelos da fronte. Como persistisse em olhar em direção da janela, deixaram-na sentada a repousar, e, com castiçais na mão, estremecendo de frio nas camisolas, saíram em expedição pelo jardim.
Em breve as velas se espalhavam dançando na escuridão. Heras aclaradas se encolhiam, os sapos saltavam iluminados entre os pés, frutos se douravam por um instante entre as folhas. O jardim, despertado no sonho, ora se engrandecia ora se extinguia; borboletas voavam sonâmbulas. Finalmente a velha, boa conhecedora dos canteiros, apontou o único sinal visível no jardim que se esquivava: o jacinto ainda vivo quebrado no talo… Então era verdade: alguma coisa sucedera. Voltaram, iluminaram a casa toda e passaram o resto da noite a esperar.
Só as três crianças dormiam ainda mais profundamente.
A mocinha aos poucos recuperou sua verdadeira idade. Somente ela não vivia a perscrutar. Mas os outros, que nada tinham visto, tornaram-se atentos e inquietos. E como o progresso naquela família era frágil produto de muitos cuidados e de algumas mentiras, tudo se desfez e teve que se refazer quase do princípio: a avó, de novo pronta a se ofender, o pai e a mãe fatigados, as crianças insuportáveis, toda a casa parecendo esperar que mais uma vez a brisa da abastança soprasse depois de um jantar. O que sucederia talvez noutra noite de maio.»

A chegar às livrarias: Para lá das Palavras – O Que Pensam e Sentem os Animais (trad. de Vasco Gato)






«Um novo grupo de golfinhos, onde inúmeras crias nadavam ao lado das mães, emergiu ao longo da nossa embarcação, saltando e chapinhando, chamando por nós de forma misteriosa com o seu assobio característico.
Queria saber o que eles estavam a sentir, e porque nos parecem seres tão atraentes, tão… próximos. Mas desta vez permiti-me apresentar-lhes a pergunta proibida: “Quem são vocês?”»
Durante décadas de observação de campo, Carl Safina fez importantes descobertas sobre o cérebro dos animais. Agora o autor oferece-nos uma visão íntima do seu comportamento, desafiando os preconceitos que teimam em separar o comportamento humano do animal.
Neste livro o leitor irá viajar até ao Parque Nacional de Amboseli, situado em plena paisagem protegida do Quénia, onde poderá observar como as famílias de elefantes sobrevivem à caça furtiva e às secas; irá depois ao Parque Nacional de Yellowstone observar o modo como os lobos se organizam após a morte de uma alcateia; visitará finalmente as águas cristalinas do noroeste do Pacífico para observar a fascinante e silenciosa sociedade das baleias assassinas.
Para lá das Palavras é uma análise sobre as personalidades únicas dos animais, desvendadas através de histórias de alegria, tristeza, ciúme e amor animal. Um livro que nos ensina que as semelhanças entre a consciência humana e animal deveriam ser motivo mais do que suficiente para reavaliarmos o modo como interagimos com os animais.
 
«Para lá das Palavras é um livro que terá um impacto enorme em muitos leitores, pelo modo como impulsiona a nossa relação com os animais para um plano mais elevado… A par de A Origem das Espécies de Darwin, e O Gene Egoísta de Dawkins, Para lá das Palavras é um marco essencial para entendermos o nosso lugar na natureza. Tem, de facto, potencial para alterar o modo como nos relacionamos com o mundo natural.» [The New York Review of Books]

A chegar às livrarias: Walden e Ktaadn, de Henry David Thoreau (trad. Alda Rodrigues)





Crítico do crescimento da industrialização americana, Henry David Thoreau abandonou Concord, Massachusetts, em 1845, para se isolar nos bosques junto ao lago Walden.
Walden, livro onde o autor narra essa sua estada no local, transmite um maravilhamento pela natureza de um lugar, assim como um anseio pelo transcendentalismo, pela verdade espiritual e pela independência do homem.
Em Ktaadn, Thoreau narra as suas excursões a uma das mais altas montanhas da Nova Inglaterra e a alguns lagos de Penobscot, no que é considerado um dos seus mais belos textos de viagem.

Alexandre Andrade no Todas as Palavras






A propósito da edição de Benoni, Alexandre Andrade foi entrevistado por Inês Fonseca Santos no programa Todas as Palavras, que pode ser visto em:


De Alexandre Andrade a Relógio D’Água publicou também O Leão de Belfort.

7.12.16

A chegar às livrarias: Até já não É adeus, de Cristina Carvalho





«Dessa vez não cheguei a perceber se era o Sol a desaparecer lá longe, muito longe, na bainha da moldura, entre o rio e o céu ou se era a luz da manhã a regressar, surgindo devagarinho como mais um dia nascido das brumas lilases, nascido das nuvens, uma aurora espantosa.
Sei que quando ali cheguei não era nem dia nem noite, nem manhã nem tarde, nem as horas existiam, nem sei se o tempo era tempo. Uma interminável fila de automóveis, estacionados uns atrás dos outros, formava uma barreira sólida e escura entre o ar existente e a muralha a escorregar para o rio. Também a escorrer pela muralha alguns casais entrelaçados, confundidos no musgo da pedra quase, quase a tocar a água com as pontas dos sapatos.
Eu tinha saído de casa a pensar que te ia encontrar, ou a ti ou a alguém no caso da tua ausência. Era de amor que eu precisava. Podias ser tu, podias não ser. (…)»


Este livro reúne dez contos, escritos pela autora em diferentes épocas, vários deles inéditos.

6.12.16

A chegar às livrarias: Veneza, Um Interior, de Javier Marías (trad. José Bento e Manuel Alberto)




«Veneza produz simultaneamente duas sensações na aparência contraditórias: por um lado, é a cidade mais homogénea — ou, se se prefere, harmoniosa — de todas as que conheci. Por homogénea ou por harmoniosa entendo principalmente o seguinte: que qualquer ponto da cidade, qualquer espaço luminoso e aberto ou recanto escondido e brumoso que, com água ou sem ela, entre a cada instante no campo visual do espectador é inequívoco, isto é, não pode pertencer a nenhuma outra cidade, não pode confundir-se com outra paisagem urbana, não suscita reminiscências; é, portanto, tudo menos indiferente. (…)
Por outro lado (e aqui está o contraditório), poucas cidades parecem mais extensas e fragmentadas, com distâncias mais intransponíveis ou lugares que provoquem uma maior sensação de isolamento.»

5.12.16

Livros da Relógio D’Água sugeridos pelo Expresso



No número de 3 de Dezembro do suplemento E do Expresso, vários críticos recomendam livros para o Natal, entre os quais quatro obras editadas pela Relógio D’Água.



Pedro Mexia sugere Ficar na Cama de G. K. Chesterton, em que Alberto Manguel escolheu «uma centena de textos sobre literatura, ideias, costumes. Ensaios argumentados, brilhantes, paradoxais, divertidos. E invulgarmente felizes».

 

Luís M. Faria propõe Eugénio Onéguin, de Aleksandr Púchkin, e considerou: «Está para a Rússia como Os Lusíadas para Portugal, com a vantagem de ter dado origem a obras musicais bastante superiores e de ser mais moderna.»

 


José Mário Silva escolheu Todos os Caminhos Estão Abertos, de Annemarie Schwarzenbach: «Viajante compulsiva, Annemarie partiu de Genebra em junho de 1939 num Ford Roadster Deluxe, com a fotógrafa Ella Maillart ao lado. Destino: o Afeganistão. Dos milhares de quilómetros percorridos, com ecos da guerra que entretanto começara, a escritora fez um retrato de olhos muito abertos no meio da poeria e dos fulgores do Oriente, transmutando a prosa em poesia.»

 
José Mário Silva destaca como «prenda especial» a Poesia Completa de Manoel de Barros:

«São esses os desenhos feitos de palavras que nos atingem, ao ler Manoel de Barros, como um prodigioso aluvião de maravilhas. Sigamos o olhar oblíquo do poeta, a sua voz mineral, capaz de tornar simples a complexidade do mundo. Mas deixemos de lado a lógica, a fúria das explicações, porque o poema não tem de servir para nada, “é antes de tudo um inutensílio”.»