26.7.17

A chegar às livrarias: Preparação para a Noite, de Jaime Rocha















«11.

O escultor olha para uma fotografia_____,

roupa pendurada escorre para uma braseira
e pequenos talos do caminho desaparecem
sob a fúria dos cavalos. Há homens que dançam
na lama e rasgam os músculos. Uma mulher
adormece debaixo de duas romãs e um violino
tapa-a para sempre.

Junto a ela, um rosto chora para dentro de um
vestido. Um homem com um gancho separa
as migalhas deixadas pelo feno. Empurra-as
para o fundo de uma árvore, calcando as raízes
com as mãos. A mulher, o seu cheiro, sai da árvore
e deixa-se reflectir num espelho__________.

Como se viesse para uma segunda morte, onde já
não há objectos nem desejos. O pensamento
do homem quebra-se como um vento que entra
pela cidade e desaba nas construções.»


Jaime Rocha nasceu em 1949. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa. Viveu em França nos últimos anos da ditadura. Publicou o primeiro livro, Melânquico (poesia), em 1970. Tem editadas várias obras nos domínios da poesia, da ficção e do teatro.Os seus livros de poesia, publicados nesta editora, Os Que Vão Morrer, 2000, Zona de Caça, 2002, Lacrimatória, 2005, e Necrophilia, 2010, constituem uma tetralogia a que o autor chamou Tetralogia da Assombração. Necrophilia foi galardoado com o Prémio de Poesia do PEN Clube 2011. Anteriormente, em 2003, havia publicado Do Extermínio, livro que denominou Livro da Anunciação.Na prosa, destaca-se, além de A Loucura Branca e Os Dias de Um Excursionista, o romance Anotação do Mal, vencedor do Prémio de Ficção do PEN Clube 2008, A Rapariga sem Carne e Escola de Náufragos.A Relógio D’Água tem vindo, também, a publicar alguns dos seus textos dramáticos: O Jogo da Salamandra, 2001, e Azzedine e Outras Peças, 2009.

25.7.17

A chegar às livrarias: A Noite Inteira, de Frederico Pedreira





«a noite fuma dos seus poros azuláceos
estamos no fundo da terra
na selva do sono
correntes de seiva engrossam
a porcelana das árvores

estou desatento
o teu nome brinca nos lábios
como um riacho em flor
é lembrado com uma facilidade canora
sobrevoa todas as fogueiras em marcha

no dorso da ave perdida
o dia empalidece e desagua no meu ombro
soturna poeira que me baralha o peito
breve fantasia para um homem deitado
(sequer o eco de um gatilho à cabeceira)

um buraco no telhado deste casebre:
espreito o teu rosto precário
como arde em rotação lenta
vai trocando a mão do sonho
sob uma neve muito fina» [p. 60]

Frederico Pedreira tem publicados vários livros de poesia, incluindo Presa Comum (Relógio D’Água, 2015). Doutorou-se no Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.Venceu o Prémio INCM/Vasco Graça Moura na categoria de Ensaio (2016) — com Uma Aproximação à Estranheza.

A Associação das Pequenas Bombas, de Karan Mahajan





«Em lista de espera está A Associação das Pequenas Bombas, de Karan Mahajan, de que alguém me falou muito bem.» [Rui Reininho sobre as suas leituras deste Verão, Visão, 20/7/17]

24.7.17

A chegar às livrarias: Fernão de Magalhães, de Stefan Zweig (trad. de Maria de Castro Henriques Osswald)





«Comecei a pensar nas primeiras viagens dos conquistadores dos mares, evoquei-os
em íntima visão; senti profunda vergonha da minha impaciência. Despertado este sentimento, nunca mais me abandonou durante a travessia, e nem por um momento pude libertar-me da obsessão destes heróis. Comecei a desejar saber mais alguma coisa da vida daqueles que primeiro ousaram travar combate com os elementos; necessitava de ler a narrativa das primeiras viagens pelos mares desconhecidos, essas narrativas que tanto alvoroçavam já a minha fantasia de adolescente. Dirigi-me à biblioteca do navio e tomei, ao acaso, uns volumes. Entre todos os vultos, um se ergueu mais dominador, e aprendi a admirar o feito de quem, segundo o meu parecer, realizou o que de mais grandioso existe na história do descobrimento da terra: Fernão de Magalhães — aquele que partiu de Sevilha, com cinco minúsculos barcos, para dar a volta ao mundo. É talvez a mais extraordinária odisseia na história da humanidade, esta expedição de 265 homens decididos, dos quais só regressaram 18 no navio desmantelado, mas trazendo içada no mastro a bandeira da máxima vitória.» [Da Introdução]

Nas Livrarias: Dom Casmurro e Esaú e Jacó, de Machado de Assis




Dom Casmurro foi publicado em 1899. O título do livro é retirado do nome, já de si irónico, do personagem, pois lhe foi dado por ter adormecido ao ouvir um jovem poeta declamar-lhe os versos. Forma com Memórias Póstumas, Quincas Borba, Esaú e Jacó e Memorial de Aires o essencial da obra romanesca de Machado de Assis.
A subtileza dos protagonistas é tal que ainda hoje os críticos brasileiros discutem se Capitu «traiu» ou não o marido. Como escreveu José Fernando Tavares «falar de Capitu é falar do próprio mistério», pois ela é hábil na arte de simulação e nunca sabemos em que está a pensar.
A este livro aplica-se o que escreveu Afredo Bosi, que considerava que Machado de Assis dissolvia «paixões e entusiasmos no ácido de uma ironia e um humor que nada poupam: indivíduos e sociedade são aí “delicadamente” desmascarados em seu egoísmo e alienação».
Esaú e Jacó, publicado em 1904, é o penúltimo livro de Machado de Assis e distingue-se por uma maior organicidade narrativa, sem abandono das intenções modernistas do autor que o levaram a subverter a forma tradicional do romance. Um dos seus principais personagens é o conselheiro Aires, que irá ressurgir em Memorial de Aires.
Também em Esaú e Jacó a narrativa é subvertida, o contexto histórico está presente e os homens e as mulheres não são feitos de uma matéria única embora abundem as referências míticas. Como escreve Júlio Castañon Guimarães: «o humor irónico quase constantemente se vincula a uma reflexão sobre a narrativa, quando esta, voltando-se sobre si, desmonta sua própria estruturação. Surge aí a oportunidade do discurso de aparência reticente, que avança por retrocesso, faz-se, desfaz-se e refaz-se. Enquanto isso, aqui e ali, o romance se pontua com referências a factos históricos.»

21.7.17

De leitura obrigatória para Marcelo Rebelo de Sousa








No último número da revista Visão, o Presidente da República destaca várias obras que considera de leitura obrigatória. Além de "Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato", de Ana Margarida de Carvalho, entre outras, Marcelo Rebelo de Sousa recomenda «“Uma Volta ao Mundo com Leitores”, de Sandra Barão Nobre, que andou a percorrer o mundo para ver o que é ser leitor em África, na Ásia, noutros sítios. Não é tanto sobre livros, mas sobre a atitude dos seus leitores.» [Visão, 20/7/17]

20.7.17

A chegar às livrarias: Retalhos do Tempo — Um Memorial de Dublin, de John Banville, com fotografias de Paul Joyce (trad. de Paulo Faria)






Para o jovem Banville, Dublin era um lugar repleto de encantamento e saudade. Todos os anos, pela altura do seu aniversário, ele e a mãe viajavam de comboio até à capital da Irlanda, atravessando os campos cor-de-rosa gelados ao amanhecer, iniciando um dia de aventuras entre as quais se incluíam as viagens ao Clery’s e à geladaria Palm Beach.
O então aspirante a escritor foi viver para Dublin aos dezoito anos. Era um período desanimador, quer para a sociedade irlandesa quer para ele. Foi essa fase que o escritor explorou mais tarde através de Quirke, um protagonista a que deu vida através do pseudónimo Benjamin Black. Mas sob uma superfície aparentemente calma, aproximava-se uma tempestade. A Irlanda estava prestes a conhecer uma profunda mudança.
Alternando entre memórias do passado e explorações históricas recentes que fez pela cidade, Retalhos do Tempo é uma evocação intensa da infância e da memória, daquele “abismo repleto de luz” onde “a alquimia do tempo opera”, uma ode a um tempo e a um local de formação para o artista quando jovem.
O livro é ilustrado por imagens da cidade do fotógrafo Paul Joyce.