17.8.16

Sobre A Nova Odisseia, de Patrick Kingsley




 
«Um livro sobre a maior crise humanitária da Europa no pós-guerra — a dos refugiados — tem forçosamente muitas histórias impressionantes. Algumas grandes, de tragédias onde morrem centenas de pessoas; outras pequenas, de coisas inesperadas que se fazem ou dizem. Entre estas últimas inclui-se, por exemplo, a história de Yama Nayab, o cirurgião afegão que se encontra sentado num matagal sérvio à espera de saber literalmente o que vai ser da sua vida. Vendo passar o jornalista, estende-lhe um copo de água suja retirada de um poço e pede-lhe que aceite, explicando que no Afeganistão teria obrigação de oferecer algo ao seu “convidado”. Kingsley é de facto um convidado especial. Em 2015, aos 26 anos, foi nomeado o primeiro correspondente de emigração do jornal The Guardian. Anteriormente tinha coberto o Egito, um país no centro de tantas das questões que hoje afligem os países árabes. Quando os efeitos nos afetam diretamente, começamos a prestar atenção e o alarme público é quase imediato, mas convém ter uma noção de perspetiva. Kingsley lembra que mesmo os maiores números mencionados representam menos de um por cento do total da população europeia.
A Nova Odisseia, A História da Crise Europeia dos Refugiados — título escohido deliberadamente pelo seu poder alusivo, apesar de o autor reconhecer que a Eneida teria sido um paralelo mais adequado – explora as dimensões da crise em 17 países e três continentes.» [Luís M. Faria, Expresso, E, 13/8/2016]

Sobre Macbeth, de William Shakespeare






«Compreender a tragédia de Macbeth passa em grande parte por compreender o que o distingue de Banquo. Ao mesmo tempo que informam Macbeth de que será rei, as bruxas profetizam que Banquo será pai de reis. No entanto, Macbeth será vencido porque será vencedor enquanto Banquo porque vencido, será vencedor. Sendo evidente a qualquer leitor atento que o retrato de Banquo esconde, no meio de muitos elogios, algumas críticas ao seu carácter (críticas essas que Shakespeare pretenderia muito discretas para agradar a Jaime VI, patrono do dramaturgo e rei de Inglaterra, cuja aspiração ao trono escocês dependia fortemente da sua ligação familiar ao Banquo histórico), a verdade é que Banquo é o grande vencedor da história, ao conduzir, já depois de morto, Macbeth à loucura, abrindo caminho à insurreição que colocaria o seu filho no trono. A derrota de Macbeth e posterior vitória de Banquo assentam, por paradoxal que pareça, numa virtude do primeiro (que exagerada se transforma num vício) e num defeito do segundo. Macbeth torna-se rei porque a sua valentia em combate torna todas as honras e distinções com que o rei Duncan o possa distinguir obsoletas, deixando-se seduzir pelo encanto das palavras das bruxas e de Lady Macbeth. Macbeth sabe que o seu futuro lhe reserva o trono e decide resgatá-lo pelas suas próprias mãos. Banquo, por seu turno, menos corajoso e muito mais calculista que Macbeth, decide ficar à espera que o seu destino se cumpra sozinho, não tomando parte em nenhum acontecimento, remetendo-se ao silêncio mesmo quando percebe que Macbeth matara Duncan.» [João Pedro Vala, Observador, 7/8/2016]

Sobre A Salvação do Belo, de Byung-Chul Han





«O belo não é um prolongamento do “eu”, mas uma terrível dissolução do “eu”. O belo é “o insuportável tornado suportável”. É uma magia, mas também uma desmitificação. É um relâmpago, mas também um vínculo duradouro É uma salvação, sem dúvida, mas porque é uma anulação: “‘A salvação do belo é a salvação do diferente’ (…). Na medida em que é o ‘totalmente diferente’, o belo anula o ‘poder do tempo’.” É isso que Agosto, ano após ano, nos promete.» [Pedro Mexia, Expresso, E, 6/8/2016]

12.8.16

Sobre Michel de Montaigne




«Voltando aos seus escritos, agora que sou mais velho do que ele era em 1571, surpreendo-me porque aprecio quase tudo: a auto-análise, mesmo nas suas complacências; a modéstia, mesmo quando por boa educação; a intenção de “nada afirmar audaciosamente, nada negar irreflectidamente”, tão contrária à minha educação; a vida entendida enquanto “cosa mentale”; o cepticismo face às doutrinas que nos dizem como viver bem; o temperamento sossegado e equilibrado que me dizem ser o meu; a escrita toda em digressões e anotações; a recusa da amargura mesmo no abatimento; e, acima de tudo, a divisa “que sais-je?”, que sei eu?, uma pergunta de bibliófilo, tão indispensável quanto inútil.» [Pedro Mexia, Expresso, E, 30-07-2016]

Sobre Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev (trad. António Pescada)




«Sobre este clássico absoluto da literatura russa, escreveu Vladimir Nabokov (um autor geralmente parco em elogios), num texto que serve de posfácio a esta edição: “Pais e Filhos não só é o melhor romance de Turguéniev, mas também um dos maiores romances do século XIX.” Centrado na figura de Bazárov, um jovem intelectual materialista, o livro põe em confronto duas gerações (a de 1860 vs. a de 1840) com ideias opostas sobre o que deve ser e como deve funcionar a sociedade.» [Expresso, E, Obrigatório, 30-7-2016]

Sobre O Aroma do Tempo, de Byung-Chul Han




«Em "O Aroma do Tempo – um ensaio filosófico sobre a Arte da Demora" são desenvolvidas ideias sobre a decisiva influência da organização do trabalho no comportamento do ser humano e na percepção do tempo.
A coacção, explícita em "Psicopolítica", encontra-se implícita nesta obra. A regulamentação comportamental por forças económicas tem o seu substrato em ideias religiosas. A coação existe sem o ser humano ter disso consciência. A optimização de processos físicos e mentais, abordada em "Psicopolítica", é desenvolvida nesta obra por diferentes prismas.
O "idiota" de "Psicopolítica" é aquele que se afasta para contemplar em "O Aroma do Tempo". Ele personifica a solução, aquele que percebe que "o tempo perde o aroma quando se despoja de qualquer estrutura de sentido, de profundidade, quando se atomiza ou aplana, se enfraquece ou se abrevia.” O "idiota" é aquele que contempla. E quem contempla dá coesão ao tempo e permite o resgate da narrativa como força criadora.» [Mário Rufino, Diário Digital, 9-8-2016]

10.8.16

A chegar às livrarias: Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick





O romance que deu origem ao filme Blade Runner, do autor de Minority Report e A Scanner Darkly.

Philip K. Dick morreu em 1982, mas a sua visão futurista, carregada de humor negro, é mais perturbante e poderosa do que nunca.

A Guerra deixou a Terra devastada. Por entre as ruínas, o caçador de recompensas Rick Deckard persegue a sua presa: os androides desertores. Quando não desempenha esta tarefa, Deckard sonha possuir o maior símbolo de status da época: um animal vivo.
É então que Rick recebe a sua principal tarefa: localizar seis Nexus-6, alvos que lhe podem valer uma enorme recompensa. Mas a vida nunca é assim tão linear, e a de Rick transforma-se rapidamente num pesadelo caleidoscópico de subterfúgios e enganos.

«O escritor de ficção científica mais consistente do mundo.» [John Brunner]

«Um dos genuínos visionários que a ficção norte-americana produziu.» [L.A. Weekly]

«Philip K. Dick vê e abraça as possibilidades aterradoras de que os outros autores fogem.» [Paul Williams, Rolling Stone]