24.3.17

A chegar às livrarias: Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne (trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira)



«Parte da grandeza das Vinte Mil Léguas (…) reside numa criação em que reminiscências mitológicas se conjugam com influências literárias. O próprio nome do capitão Nemo (“Ninguém” em latim) surge como um duplo do divino Ulisses tal como ele se apresenta, na Odisseia, ao ciclope Polifemo. E é com efeito de uma odisseia que se trata, já não cingida apenas à bacia mediterrânica, mas alargada a todos os mares do globo. Para lá de Homero, Jules Verne vai também beber a outras fontes, nomeadamente ao ciclo de Tebas, à Bíblia e ao imaginário popular dos marinheiros. Nemo aparece como um novo Argonauta, um rival de Jasão, que parece ter encontrado o Tosão de Ouro, ou de Jonas, que viaja no ventre de uma baleia e que, nas suas viagens, encontra alguns monstros marinhos dignos das lendas bretãs. A escrita romanesca de Jules Verne está, pois, contaminada pela amplitude dos mitos presentes sobre os quais assenta.» [Do Posfácio]

23.3.17

Sobre A Balada do Café Triste, de Carson McCullers




«No momento em que se assinalam cem anos sobre o nascimento de Carson McCullers (e 50 sobre a sua morte), a Relógio D’Água decidiu em boa hora editar ou reeditar todos os livros da escritora, uma das mais importantes do chamado Southern Gothic.“A Balada do Café Triste”, de 1951, é um bom exemplo do seu génio e da sua desesperada melancolia. (…) A construção narrativa é perfeita; a prosa, de um vigor e brilho raros. Notável, a atenção aos pormenores, o corcunda, por exemplo, tem mãos “como patitas sujas de pardal”. No fim, em jeito de coda, espreitamos um grupo de doze homens, prisioneiros que tapam buracos numa estrada. Cantam juntos e o seu canto parece brotar da própria terra ou cair do céu. “É uma música que dilata o coração de quem a ouve e provoca estremecimentos gelados de medo e êxtase.” Tal e qual a escrita desolada, belíssima, de McCullers.» [José Mário Silva, Expresso, E, 18-3-2017]

Autores de língua portuguesa na Feira de Leipzig





A Feira de Leipzig é, paralelamente à Feira do Livro de Frankfurt, uma das mais importantes feiras do livro do mundo, com uma componente mais vincada de abertura ao público sem o foco exclusivo na componente negócio. Paralelamente à Feira decorre o evento Leipzig Lê, onde se realizam cerca de 3000 leituras em espaços diversos daquela cidade.
Nas palavras de Hélia Correia que o ano passado integrou a delegação de autores que ali se deslocaram: “É uma Festa do Autor”.
Portugal terá um stand na Feira, que se realiza de 23 a 26 de Março.
Os autores convidados deste ano são Patrícia Portela, Mia Couto, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Kalaf Epalanga, Margarida Vale de Gato, Raquel Nobre Guerra e Miguel Cardoso.

22.3.17

Entrevista a Marlon James, autor de Breve História de Sete Assassinatos




«Mas lá diz o ditado: à terceira é de vez. E foi. Depois de duas marcações falhadas, James sentou-se no seu escritório em St. Paul, no Minnesota, onde vive desde 2007, para falar de Breve História de Sete Assassinatos, o romance que lhe valeu o Man Booker Prize em 2015, e da Jamaica do tempo de Marley . A Jamaica do seu tempo, onde havia violência nas ruas, é certo, mas não uma violência generalizada. Porque havia mais no seu país do que os guetos onde jamaicanos se iam matando uns aos outros.

Quando se fala em Breve História de Sete Assassinatos, considerado por muitos como um dos melhores romances dos últimos anos, que gira em torno da tentativa de assassinato a Bob Marley em dezembro de 1976, o tema da violência desmedida é difícil de ignorar (logo no primeiro capítulo, o leitor vê-se obrigado a engolir a seco e preparar-se para o que aí vem). Mas James, de 46 anos, fala dessa violência com naturalidade. Porque é que haveria de censurar os tiros, as mortes, a pobreza? A vida nos guetos da capital jamaicana, Kingston? Sentado numa cadeira, com um poster de Joy Division como pano de fundo, admite que não havia como fugir à questão. Afinal, as coisas são como elas são. E o livro dele é como é.» [Rita Cipriano entrevista Marlon James, a propósito da edição de Breve História de Sete Assassinatos, no Observador. Texto completo disponível aqui.]

21.3.17

Sobre A Associação das Pequenas Bombas, de Karan Mahajan







«Mahajan procura romper com algum cânone de escritores como Vikram Seth ou Rohinton Mistry, autores de sagas familiares que Dickens poderia ter escrito, para se concentrar nesta ideia do pequeno estilhaço que se associa em constelação. Pela originalidade de nos dar uma perspetiva interna de um drama que nos chega amassado pelas cadeias de informação global, este segundo romance de Mahajan merece ser louvado e tido em conta.» [Rui Lagartinho, Expresso, E, 18-3-2017]

A chegar às livrarias: Poemas Escolhidos, de Yorgos Seferis (trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)








«XXIII

Um pouco mais

e veremos florescer as amendoeiras os mármores brilharem ao sol

o mar a ondear

um pouco mais,

para nos levantarmos um pouco mais alto.»


Yorgos Seferis — pseudónimo de Yorgos Stylianos Seferiadis — nasceu em Esmirna, em fevereiro de 1900.
Aos 14 anos partiu para Atenas e depois para Paris, onde frequentou as faculdades de Letras e Direito.
Em 1922 a casa da sua infância foi saqueada pelos turcos, sendo os gregos da Anatólia forçados a abandonar a região que tinham habitado durante dois mil anos.
Em 1925 regressou à capital grega, onde se tornou diplomata. Em 1942 a ocupação alemã levou-o ao exílio. Terminada a guerra, desempenhou cargos diplomáticos em diversos países, nomeadamente em Inglaterra, onde viveu de 1957 a 1962. No ano seguinte foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura.
Yorgos Seferis morreu em Atenas, a 20 de setembro de 1971, deixando uma obra que renovou a moderna poesia grega.

Sobre Yu Hua e literatura chinesa contemporânea







«Com a publicação do livro de 1996, um dos autores contemporâneos chineses mais influentes chega este mês a Portugal, pela Relógio d’Água, traduzido do original chinês por Tiago Nabais. É o primeiro dos três de Yu Hua que a editora vai publicar: o romance Viver (traduzido por Márcia Schmaltz) e o conjunto de ensaios A China em Dez Palavras (tradução de Tiago Nabais). Se a publicação de literatura chinesa é rara, mais ainda é a sua tradução do original chinês, o que está ser negociado pela Relógio D’Água para lançar outros escritores.
“A expectativa de uma literatura ‘exótica’, cheia de kung fu, yin yang e incenso não se realiza e desilude leitores e editores”, escreve-nos da China, por email, Tiago Nabais, apontando esta como uma possível razão para a distância dos leitores europeus face aos escritores chineses de hoje. O regime político pode ser outra barreira e quando o jornalismo está estrangulado, está na ficção o retrato mais livre da realidade. “O fantástico e o absurdo podem constituir formas úteis para abordar certos fenómenos da sociedade chinesa contemporânea: evacuar um milhão de pessoas para construir uma barragem, vilas que se transformam em megacidades em poucos anos ou o aparecimento de quinze mil porcos a flutuar no rio em Xangai”, aponta o tradutor, acrescentando que temas como a corrupção, as condições de trabalho, os problemas ambientais e a saúde pública preocupa autores como Yan Lianke, Jia Pingwa ou Ge Fei.
Crónica de Um Vendedor de Sangue é uma janela para a mentalidade actual da China rural, perto de Xangai.» [Catarina Moura, Time Out, 15/3/17]

20.3.17

A chegar às livrarias: O Duplo, de Fiódor Dostoievski (trad. de António Pescada)








«O desconhecido estava sentado à sua frente, também de sobretudo e chapéu, na sua cama, sorria ligeiramente, e, franzindo um pouco os olhos, acenou-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin queria gritar, mas não pôde — protestar de alguma maneira, mas não lhe chegavam as forças. Tinha os cabelos em pé e sentou-se no seu lugar, insensível de horror. E de resto havia razão para isso. O senhor Goliádkin reconheceu completamente o seu amigo noturno. O seu amigo noturno não era outro senão ele próprio — o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas exatamente como ele — numa palavra, aquilo a que se chama o seu duplo em todos os aspetos…»

O Duplo foi publicado em 1846, quando Dostoievski contava apenas 24 anos.
O tema do duplo foi depois muitas vezes abordado na literatura, mas a narrativa de Dostoievski estabelece uma rutura com as convenções literárias até então vigentes.
Goliádkin é o símbolo da revolta do homem contra as instituições sociais, mas também contra si próprio.

PVP: €10,00

A chegar às livrarias: Ensaios Biográficos Escolhidos, de J. M. Keynes (trad. Miguel Serras Pereira)





Este livro reúne ensaios biográficos e recordações de John Maynard Keynes, que, além de ser um notável economista, possuía uma cultura sofisticada e participou nas negociações relacionadas com a Primeira Guerra Mundial.
Os primeiros ensaios abordam o livro The World Crisis, de Churchill, que trata de questões tão significativas como as diferentes perceções que sobre a Primeira Guerra Mundial tiveram os dirigentes militares e os responsáveis políticos.
Os textos sobre Newton são dos mais importantes sobre o autor dos Principia e a sua complexa personalidade (Keynes adquiriu grande parte dos documentos da arca de originais que Newton deixou, muitos deles sobre alquimia e religião).
A crítica de Trotsky ao reformismo dos socialistas ingleses leva Keynes a uma refutação das teses revolucionárias.
O breve apontamento sobre um encontro cúmplice com Einstein num banquete em Berlim revela os poderes de observação de Keynes, embora a sua descrição dos financeiros judeus não esteja isenta de preconceitos antissemitas.
«O Dr. Melchior: Um Inimigo Vencido» fala-nos dos corredores das negociações que antecederam o Tratado de Versalhes. É uma descrição da arte da negociação diplomática que sublinha o talento de Keynes para narrar factos históricos e descrever o perfil dos que neles participaram.
O último texto, «As Minhas Convicções Juvenis», evoca a juventude de Keynes, Cambridge nos anos 1900, e as origens do grupo de Bloomsbury, (com as suas ideias filosóficas, éticas e o choque com D. H. Lawrence, que considerava os seus participantes «casos perdidos»). Recorde-se que Keynes foi um dos principais participantes do grupo, ao lado de Virginia Woolf, que lhe admirava o talento literário.



A chegar às livrarias: A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells (trad. Frederico Pedreira)





A Guerra dos Mundos, a par de O Homem Invisível e A Máquina do Tempo, foi uma obra marcante na criação da ficção científica como género literário.
H. G. Wells partiu do relativo desconhecimento que então se tinha sobre Marte e dos progressos da tecnologia para criar uma obra de suspense, espanto e terror.
Tudo começa quando o narrador toma conhecimento da queda de estranhos objetos vindos de Marte nos tranquilos campos dos arredores de Londres. A multidão acorre e depara com misteriosos cilindros de onde saem marcianos que vão ameaçar de destruição todo o país e a civilização tal como era então conhecida.
Esta antevisão do choque entre os habitantes da Terra e os de outros planetas iria servir de modelo a toda uma variante da ficção científica. O seu potencial dramático seria evidenciado pela emissão radiofónica de Orson Welles em 1938, que sobressaltou dezenas de milhares de norte-americanos. E tem sido atualizado nos nossos dias pela descoberta de numerosos planetas no universo, e mesmo na Via Láctea, com condições para a existência de vida.

17.3.17

Tradução de Jane Austen na Universidade Católica





No âmbito do bicentenário da morte de Jane Austen (1775-1817), realizou-se ontem, 16 de março, na Universidade Católica Portuguesa em Lisboa, uma mesa-redonda dedicada à tradução da obra da romancista inglesa para português.







Esta sessão, aberta ao público, contou com a presença dos tradutores Paulo Faria (Sensibilidade e Bom Senso), Ana Saragoça, Jorge Vaz de Carvalho (Emma) e Isabel Veríssimo. A mesa-redonda, inserida no ciclo TRT. Tradutores Refletem sobre Tradução, foi moderada por Rita Bueno Maia (Universidade Católica Portuguesa) e seguida de uma conversa aberta ao público.

Sobre O Sino, de Iris Murdoch







«A pequena comunidade laica anglicana de Imber Court é um microcosmo que Murdoch escrutina minuciosamente, como um entomólogo estudando um formigueiro entre lâminas de vidro, se bem que o olhar da autora acabe por revelar, sob a frieza científica e a ironia fina e algo cruel que é patente nas primeiras páginas, estar imbuído de profunda humanidade e compreensão para com algumas das personagens. (…)
O Sino tem a particularidade de tratar o amor homossexual — mais precisamente a efebofilia, que é assunto mais complexo e delicado — de forma explícita e desassombrada, tratando-o sem censura nem aprovação, apenas como uma das muitas declinações possíveis do amor. É preciso lembrar que o livro foi publicado quando faltavam ainda nove anos para que a lei britânica descriminalizasse a prática e actos homossexuais em privado e, ainda assim, sendo requerido que ambos os intervenientes tivessem mais de 21 anos.» [José Carlos Fernandes, Time Out,1/2/2017]

De Iris Murdoch, a Relógio D’Água editou também O Mar, o Mar, O Bom Aprendiz, O Príncipe Negro, Uma Cabeça Decepada, e Sob a Rede.

16.3.17

Como Anna Karénina sobe ao palco




Está em cena na Sala Garrett do Teatro Nacional D.Maria II Como Ela Morre, uma peça escrita por Tiago Rodrigues em colaboração com Frank Vercruyssen, Isabel Abreu, Jolente de Keersmaeker, Pedro Gil, que a representam.
«Nesta coprodução internacional do D. Maria II com a companhia belga tg STAN, Anna Karénina é a obra-prima de Tolstói mas também é uma coleção de vidas transformadas pela leitura deste romance. Vidas que podem transformar o modo como Anna morre», pode ler-se no site do Teatro Nacional.
A peça pode ser vista até dia 19 de Março.

Sobre Na Penúria em Paris e em Londres, de George Orwell







«Publicado em 1933, Na Penúria em Paris e em Londres baseia-se nas experiências do jovem Eric Blair no grandioso Hôtel X, em Paris, onde trabalhou a lavar louça após uma experiência profundamente transformadora e amarga como polícia na Birmânia.
(...)
Na Penúria em Paris e em Londres mudou a minha vida. Foi a inspiração directa de Kitchen Confidential, o texto que eu tinha em mente em cada página.» [Anthony Bourdain, texto completo no site Lucky Peach: http://luckypeach.com/anthony-bourdain-george-orwell/ ]

15.3.17

Sobre Hélia Correia







«Hélia: um nome suficientemente evocativo da Grécia Antiga, uma geografia que, embora não alheia ao enigma e aos signos do obscuro, se impõe pela sua luminosidade. Uma predestinação, se pensarmos que a autora cedo se enamorou dos Gregos e da cultura helénica, com a qual tem mantido um diálogo íntimo e continuado. Mas também uma ironia, pois é conhecida a incompatibilidade de Hélia Correia (Lisboa, 1949), Prémio Camões 2015, com o sol: os seus livros, sensíveis às condições meteorológicas, apenas aceitam ser trabalhados em dias de chuva.
(…)
É sabido que a sua vida, os gatos ocupam, a par da escrita, um importante lugar. Eis as duas sujeições que Hélia Correia há muito tornou públicas. Ambos instalaram dentro da sua vida um “trono vitalício”, comportando-se com igual sobranceria: “Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.”» [Teresa Carvalho, i, 12/3/2017. Texto completo aqui.]

14.3.17

A chegar às livrarias: Arquipélago das Galápagos ou As Ilhas Encantadas, de Charles Darwin e Herman Melville (trad. de Miguel Serras Pereira e Margarida Vale de Gato)




Este livro reúne o capítulo de A Viagem do Beagle que Darwin dedicou às Galápagos e As Ilhas Encantadas, de Herman Melville, que fala sobre o mesmo arquipélago.

«Contemplai as calcinadas e sombrias Ilhas Encantadas. Este promontório mais próximo, com a forma de uma cratera, pertence a Albemarle, a maior ilha do arquipélago, com sessenta milhas ou mais de comprimento, e quinze de largura. Alguma vez vislumbrastes o verdadeiro e genuíno equador? Alguma vez, em sentido lato, pisastes o Risco? Ora bem, aquele promontório ali que tem também uma forma de cratera, submerso em lava amarela, é atravessado pelo equador exatamente como uma tarte de abóbora cortada ao meio por uma faca de cozinha.»

13.3.17

O Nobel Revisitado no Palácio Fronteira





O Grupo de Leitura “O Nobel revisitado: Três géneros e três autores premiados”, propõe o comentário de obras de três de autores galardoados com Prémio em três géneros diferentes: um romance de Ohran Pamuk (2006) um livro de contos de Alice Munro (2013)  e um ensaio da autoria de Svetlana Aleksievitch (2015).
No próximo dia 14 de Março a obra em discussão será Amada Vida, de Alice Munro, com apresentação e comentários de Ana Raquel Fernandes (Universidade de Lisboa).
As inscrições são gratuitas e obrigatórias.

De Alice Munro, a Relógio D’Água publicou Fugas, O Amor de Uma Boa Mulher, A Vista de Castle Rock, Demasiada Felicidade, O Progresso do Amor, Amada Vida, Vidas de Raparigas e Mulheres, Falsos Segredos e Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento.

10.3.17

A chegar às livrarias: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis






«Machado de Assis, o mais destacado discípulo de Laurence Sterne no Novo Mundo, escreveu a sua obra-prima em 1880 num Brasil esclavagista, sendo ele próprio neto de libertos. Mas Machado, génio da ironia, nunca ataca directamente a sua sociedade, antes se propondo atingi-la com uma comédia maliciosa e um niilismo embotado. O seu Brás Cubas é maravilhosamente estimável e magnificamente alienado: nunca sofre e por isso nunca sofremos com ele. E, no entanto, das suas Memórias Póstumas emana uma tranquilidade quase sobrenatural, uma atmosfera tão original, que não posso compará-la com nenhuma outra narrativa, apesar da influência de Sterne.
O verdadeiro tema de Machado é a nossa comum mortalidade. Um tema que é difícil considerar com despreocupação e ironia, mas que nos obriga nas Memórias Póstumas de Brás Cubas a adoptar uma perspectiva ao mesmo tempo distanciada e irónica.» [Harold Bloom, Génio]

PVP: € 10,00

9.3.17

A chegar às livrarias: Na Penúria em Paris e em Londres, de George Orwell (trad. de Miguel Serras Pereira)




«É bastante curioso, o primeiro contacto que travamos com a pobreza. Pensámos sempre muito, para começar, acerca da pobreza — foi ela o que tememos durante toda a vida, aquilo que sabíamos que nos iria acontecer mais tarde ou mais cedo; mas quando acontece é completamente diferente, na sua configuração absolutamente prosaica. Pensávamos que ia ser muito simples; mas é extraordinariamente complicado. Pensávamos que ia ser terrível; é apenas sórdido e aborrecido. É a extraordinária baixeza da miséria o que se descobre de início; os expedientes que implica, a mesquinhez intrincada, o poupar dos cotos de vela.»

8.3.17

Sobre Para lá das Palavras — O Que Pensam e Sentem os Animais, de Carl Safina




Carlos Vaz Marques falou sobre Para lá das Palavras — O Que Pensam e Sentem os Animais, de Carl Safina, no programa Livro do Dia, na TSF, de 22 de Fevereiro. O programa pode ser ouvido aqui.

7.3.17

A chegar às livrarias: O Negro do Narciso, Coração das Trevas, Linha de Sombra e Outras Histórias, de Joseph Conrad




Este livro reúne cinco das principais novelas de Joseph Conrad.

O Negro do Narciso é uma das mais belas narrativas escritas sobre as paixões dos homens e do mar.
«A passagem tinha começado, e o navio, fragmento separado da terra, continuou o seu caminho, solitário e rápido como um pequeno planeta. À sua volta, os abismos do céu e da terra encontraram-se numa fronteira inatingível. Uma grande solidão circundante movia-se com ele, sempre diferente e sempre idêntica, sempre monótona e sempre imponente.»

«Bastante mais terrível [do que o Inferno de Dante] é o de Coração das Trevas, o rio de África que o capitão Marlow sobe, entre margens de ruínas e de selvas (…).» [J. L. Borges]

«No Extremo Limite não é menos trágico. A chave da história é um facto que não revelaremos e que o leitor descobrirá gradualmente.
H. L. Mencken, que certamente não é pródigo em ditirambos, afirma que No Extremo Limite é uma das melhores narrativas, extensa ou breve, nova ou antiga, das letras inglesas.» [J. L. Borges]

«Desde o primeiro título proposto, O Segundo Eu, à evocação insistente da duplicidade psíquica, o conto [O Companheiro Secreto] convida a leituras que se concentrem no mistério da personalidade, nas ameaças e oportunidades da autodivisão, no esforço da integração.» [Michael Levenson]

Imaginem um homem na «linha de sombra», essa fase indecisa da vida em que não se é mais jovem e a maturidade atrai e repele. Imaginem que esse homem é um marinheiro. Imaginem finalmente um veleiro quase imóvel esperando o sopro da brisa, enquanto a febre e o delírio se apoderam dos tripulantes e os acontecimentos parecem tecer sobre o navio a sombra de uma maldição.

Sobre Carson McCullers




«As “vidas invisíveis” que se revelam em páginas de uma prosa que parece tocar o silêncio segundo as flutuações de um blues. O ambiente do sul dos Estados Unidos, onde Lula Carson Smith nasceu há cem anos - 19 de fevereiro de 1917 - e cresceu, morrendo meio século depois sem nunca ter despido o vestido de menina. Nos seus livros vive toda aquela infância presa entre acordes de desolação, e uma adolescência tremida, partilhada com essas personagens que atravessam a juventude povoando cantos sombrios, numa timidez bravia. Um catálogo de inadaptados: figuras que carregam alguma deformidade, física ou íntima, algum estigma social, os seres errantes, as vidas presas por um fio.
E há os sonhos vigiados de perto pela vergonha, as contradições próprias das zonas mais agrestes desses territórios beirando o fim do mundo. O isolamento e com ele a suspeita de tudo, as comunidades como meios de clausura e castigo moral, a intolerância racial, a subjugação das mulheres aos maridos com existências sumidas em fundo doméstico, tudo isso comparece nos seus contos e romances. A sua é uma literatura da defesa dos espíritos desfeitos pelo embate num mundo que preza a forma do quadrado em que as suas dimensões se encerram.
No ano em que se cumprem o centenário do nascimento e os 50 anos da morte de Carson McCullers, a Relógio d’Água relançou o romance com que se estreou aos 23 anos, “O Coração É Um Caçador Solitário”, mas também a “A Balada do Café Triste”, seguindo-se “Relógio sem Ponteiros”, “Reflexos nuns Olhos de Ouro” e “Frankie e o Casamento”. Do catálogo da editora faz já parte uma antologia de contos da autora - “Contos Escolhidos”.» [Diogo Vaz Pinto, i, 2/3/2017, texto completo em: https://ionline.sapo.pt/551644 ]

6.3.17

A chegar às livrarias: O Alienista e Outros Contos, de Machado de Assis







Machado de Assis escreveu cerca de duzentos contos. Esta antologia reúne aqueles que consideramos os vinte melhores.
Além da quase novela «O Alienista», escolheram-se contos tão notáveis como «Missa do Galo», «Noite de Almirante» e «Uns Braços».
O autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas passeia pelos bairros do Rio de Janeiro, criando personagens que compõem uma gama variada de histórias em termos de cenários, caracteres, temas e estilos.
Machado de Assis confirma assim a sua capacidade de observador e crítico das paixões, grandezas e misérias humanas, analisadas com irónico distanciamento.
Os contos estão ordenados cronologicamente, o que permite acompanhar a evolução do autor.

PVP: € 10,00

Sobre Homenagem a Barcelona, de Colm Tóibín




«Homenagem a Barcelona, original de 1992 revisto em 2000, e editado agora em Portugal pela Relógio D’Água, é um livro de gratidão por um escritor capaz de captar a essência do lugar e de a transmitir sem defraudar ou decifrar o seu mistério. Como se escrever Barcelona fosse uma tentativa de perceber uma dupla identidade: a do lugar e a do escritor que a transportou também para a sua literatura no seu romance de estreia, The South, a história de uma mulher protestante que chega à capital da Catalunha nos anos 50.
Este ensaio é como o passeio de um caminhante por um lugar que conhece bem. São 16 capítulos de uma escrita vibrante, viagem profunda desde a fundação ao trauma da Guerra Civil; o terror da ditadura, o medo mais ou menos camuflado e o modo como a literatura foi tratando essa identidade; o quotidiano, o povo ou as elites intelectuais, a arte, a arquitectura, o mercado da Boqueria que “marca o tempo” mais do que as estações do ano; a religião, os lugares interditos, a droga, os Jogos Olímpicos ou a relação ambígua com o turismo, a eterna vibração das ruas, os nacionalismos, a vontade de autonomia que vem de uma espécie de rebeldia primordial que se manifesta na forma efusiva como os habitantes vivem aquele espaço entre a montanha e o Mediterrâneo. Ou não tão efusiva, afinal… Mas vincada.» [Isabel Lucas, Público, ípsilon, 3/3/2017]

3.3.17

A chegar às livrarias: As Artes do Sentido, de George Steiner (Org., Introd. e Trad. de Ricardo Gil Soeiro)




As Artes do Sentido reúne seis ensaios de George Steiner.
“Narciso e Eco” foi publicado em 1981 e aborda o estatuto da criação e da crítica e o sentido do sentido, temas que o autor desenvolveria em Presenças Reais.
“Uma Leitura bem Feita” saiu em 1995 na revista Le Débat e, como o nome indica, apresenta a conceção de Steiner do que deve ser uma leitura, reconhecendo embora que todas são seletivas e parciais.
“‘A Tragédia’, Reconsiderada”, de 2004, analisa o “absolutamente trágico”.
“A Longa Vida da Metáfora” (1987) é central para o entendimento que Steiner tem do Holocausto e aborda os limites da linguagem perante uma experiência-limite como a Shoah.
“O Crepúsculo das Humanidades?” assume particular importância no atual contexto histórico e cultural.
O livro inclui ainda “Quatro Poetas: A Arte de Fernando Pessoa”, que evidencia a admiração crítica que o autor tem pela obra pessoana.

1.3.17

Sobre A Arte da Vida, de Zygmunt Bauman







«Um clássico da primeira à última linha»

«Não é uma lufada de ar fresco: antes o ar puído de uma biblioteca antiga, pesado como se exumássemos uma filosofia perdida de antanho. É que esta Arte da Vida, de Zygmunt Bauman, é clássica da primeira à última linha. O leitor sente as páginas como feitas dos pergaminhos de Marco Aurélio ou Epicteto, sente no pensamento limpo a solidão monacal dos moralistas, sem grandes transes, como quereriam Pascal ou La Bruyère, sereno como um anacoreta feliz com a contemplação que Aristóteles recomendava.
Tudo neste livro é clássico, desde o tema – aquilo que é necessário para a vida feliz, como escreveria um estóico – até ao tratamento: não tem pauis psicanalíticos, neurociência aplicada à moral, ou labirintos conceptuais. Trata do problema do desejo como os gregos o tratavam: como um problema de desejo e não de hormonas ou saudades dos pais.
Bauman parte de uma ideia que, embora verbalmente todos reconheçamos, tentamos frequente ignorar. O progresso não nos está a fazer mais felizes, diz. Nem o conforto baixa as doses de prozac, nem o conhecimento técnico construiu ainda uma máquina de felicidade, nem os médicos encontraram ainda o verdadeiro remédio santo. Quanto a isto, estaremos, sem grande discussão, de acordo. Bauman acrescenta, porém, que isto não é, estranhamente, razão suficiente para não o procurarmos como cura para a infelicidade. O mecanismo perverso do desejo faz-nos crer que se trata de uma questão de quantidade. Isto é, o progresso aumenta as necessidades, o consumo não as satisfaz, mas apenas porque não consumimos em dose suficiente. A felicidade apresenta-se sempre como alcançável, mas apenas no degrau acima do nosso.» [Carlos Maria Bobone, Observador, 28/2/2017]

Sobre Carson McCullers




«O seu primeiro livro, de 1940, chama-se O Coração É Um Caçador Solitário (agora relançado em Portugal, pela editora Relógio D’Água), seguindo-se Reflexo0s num Olho Dourado (1941) e Frankie e o Casamento (1946). De repente, Carson colocava-se entre os nomes alinhados para definir uma “literatura sulista”. Aos poucos, o teatro e o cinema vão debruçar-se sobre a sua obra: Frankie e o Casamento começa pela Broadway e, pela mão de Fred Zinnemann (com o título Member of the Wedding), chega ao estatuto de filme, conseguindo que uma das atrizes, Julie Harris, seja nomeada para o Oscar de Melhor Atriz.
A estreia de Reflexos num Olho Dourado, realizado por John Huston, com Marlon Brando e Elizabeth Taylor, acontece duas semanas depois da morte de Carson. No ano seguinte, será a vez de O Coração É Um Caçador Solitário (…). Muito mais tarde, Simon Callow realiza A Balada das Paixões, com Vanessa Redgrave, Keith Carradine e Rod Steiger. De resto, a saga mantém-se: no ano passado, houve mais uma curta-metragem baseada num conto de McCullers, A Tree A Rock A Cloud.» [João Gobern, DN, 19/2/2017]