23.2.15

As despedidas de Oliver Sacks



 

Num artigo divulgado em vários órgãos de informação, o escritor neurologista Oliver Sacks, autor de obras como O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu, Despertares e Musicofilia, anunciou a sua morte próxima: «Há um mês encontrava-me bem de saúde, ou mesmo francamente bem. Com os meus 81 anos, continuava a nadar 1,5 km todos os dias. Mas a minha sorte tinha um limite: pouco depois tomei conhecimento de que tinha metástases múltiplas no fígado. Há cerca de nove anos, descobriram-me no olho um tumor pouco frequente, um melanoma ocular. Apesar de a radição e o laser para remover o tumor terem acabado por me deixar cego desse olho, é muito raro que esse tumor se reproduza. Pois bem, eu pertenço aos desafortunados 2 % a quem isso acontece.
Dou graças por ter desfrutado de nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico inicial, mas chegou o momento de enfrentar de perto a morte. As metástases ocupam um terço do meu fígado, e, ainda que se possa atrasar o seu avanço, é um tipo de cancro que não pode ser detido.
Agora devo decidir como viver os meses que me restam. Tenho de os viver da maneira mais rica, intensa e produtiva que me for possível. Sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos preferidos, David Hume, que, ao saber-se mortalmente doente, aos 65 anos, escreveu uma breve autobiografia num único dia de Abril de 1776. Intitulou-a A Minha Própria Vida. (…)
Tive a imensa sorte de viver além dos 80 anos, e estes 15 anos que vivi a mais do que Hume foram tão prósperos no trabalho como no amor. Nesse tempo publiquei cinco livros e terminei uma autobiografia (bastante mais extensa do que as breves páginas de Hume), que será publicada na Primavera; e tenho mais alguns livros quase terminados. (…)
Nos últimos dias, pude ver a minha vida como se a observasse de muito alto, como uma espécie de paisagem, e com uma profunda sensação da ligação entre todas as suas partes. Isto não significa que dê por terminada a vida.
Pelo contrário, sinto-me intensamente vivo, e quero e desejo, no tempo que me resta, aprofundar as minhas amizades, despedir-me daqueles que amo, escrever mais, viajar se tiver força suficiente, alcançar novos níveis de compreensão e discernimento. (…)
Não posso fingir que não tenho medo. Mas o sentimento que prevalece em mim é a gratidão. Amei e fui amado, foi-me dado muito e dei algo em retribuição, li e viajei e pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial dos escritores e leitores.
Acima de tudo, tenho sido um ser sensível, um animal pensante, neste belo planeta, e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e uma aventura.»


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