«Nos nossos dias, não interessa o ano, ao cair de uma tarde de Outono, um bote sujo e com mau aspecto flutuava no rio Tamisa entre a Ponte de Southwark, que é de ferro, e a Ponte de Londres, que é de pedra.
Nele estavam duas pessoas: um homem forte com cabelo desgrenhado e grisalho, o rosto queimado pelo sol, e uma rapariga morena com dezanove ou vinte anos, tão parecida com ele que se percebia de imediato ser sua filha. Esta manejava um par de remos com agilidade; o homem, segurando as cordas bambas do leme e com as mãos descontraídas na cinta, perscrutava o rio com um olhar atento e ávido. Como não tinha rede, anzol ou fio de pesca, não podia ser pescador; como no bote não havia uma almofada para um passageiro se sentar, não estava pintado, nem tinha qualquer inscrição ou qualquer outro acessório a não ser uma argola ferrugenta e uma corda enrolada, não podia ser um barqueiro; como o bote não passava de um xaveco e era pequeno para transportar carga, não podia ser um arrais. Era impossível saber‑se o que procurava com aquele olhar atento e penetrante. A maré, que tinha mudado uma hora antes, descia, e o seu olhar continuava a observar todos os fluxos e redemoinhos de amplas espirais, quando o bote avançava de proa contra a corrente ou era arrastado de popa, de acordo com as indicações que ele dava à filha com um movimento de cabeça. Ela vigiava o rosto do pai atentamente enquanto ele vigiava o rio. Mas no olhar intenso da jovem havia sinais de medo ou de horror.» [p. 11 de O Amigo Comum, trad. Maria de Lourdes Guimarães]
O Amigo Comum (tradução, introdução e notas de Maria de Lourdes Guimarães) e outras obras de Charles Dickens em https://www.relogiodagua.pt/autor/charles-dickens/


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