«Há alguns anos, ao visitar, ou melhor, ao esquadrinhar Notre-Dame, o autor deste livro descobriu, na parede de um recanto escuro de uma das torres, a seguinte palavra gravada à mão:
Ἀνάγκη
O autor ficou vivamente impressionado perante aquelas maiúsculas gregas, enegrecidas pelo tempo e profundamente cravadas na pedra, com não sei quantos sinais peculiares da caligrafia gótica impressos nas suas formas e na sua postura, como se quisessem revelar que tinham sido escritas por uma mão da Idade Média, e quisessem sobretudo exprimir o sentido lúgubre e fatal que elas encerram.
Interrogou-se, procurou adivinhar qual podia ter sido a alma atormentada que não quisera abandonar este mundo sem deixar aquele estigma de crime ou de desgraça na fachada da velha igreja.
Mais tarde, a parede foi caiada ou raspada (não sei qual o processo usado) e a inscrição desapareceu. É assim que se tratam há duzentos anos as maravilhosas igrejas da Idade Média. As mutilações vêm de todos os lados, de dentro e de fora. O padre caia-as, o arquiteto raspa-as, e depois vem o povo que as deita abaixo.» [Do Prefácio do Autor]
Notre-Dame de Paris e Os Miseráveis (trad. José Cláudio e Júlia Ferreira) de Victor Hugo estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/victor-hugo/


Sem comentários:
Enviar um comentário