«O ESPELHO À ENTRADA
A casa rica tinha à entrada
um grandíssimo espelho, muito velho;
comprado pelo menos há oitenta anos.
Um rapaz lindíssimo, empregado num alfaiate
(aos domingos, desportista amador),
estava com um embrulho. Entregou-o
a alguém da casa, e este levou-o para dentro
para trazer o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, e esperava.
Aproximou-se do espelho e olhava-se
e arranjava a sua gravata. Após cinco minutos
trouxeram-lhe o recibo. Pegou nele e foi-se embora.
Mas o velho espelho que a tanto e tanto assistira,
durante a sua existência que muitos anos vira,
milhares de coisas e pessoas;
mas o velho espelho agora alegrava-se
e vangloriava-se por ter recebido sobre si
a beleza inteira por alguns minutos.»
Página 393 de Os Poemas, de Konstandinos Kavafis (tradução revista, prefácio e notas de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis), disponível em https://relogiodagua.pt/autor/konstandinos-kavafis/


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