28.11.25

De Os Poemas, de Konstandinos Kavafis

 «O ESPELHO À ENTRADA


A casa rica tinha à entrada

um grandíssimo espelho, muito velho;

comprado pelo menos há oitenta anos.


Um rapaz lindíssimo, empregado num alfaiate

(aos domingos, desportista amador),

estava com um embrulho. Entregou-o

a alguém da casa, e este levou-o para dentro

para trazer o recibo. O empregado do alfaiate

ficou sozinho, e esperava.

Aproximou-se do espelho e olhava-se

e arranjava a sua gravata. Após cinco minutos

trouxeram-lhe o recibo. Pegou nele e foi-se embora.


Mas o velho espelho que a tanto e tanto assistira,

durante a sua existência que muitos anos vira,

milhares de coisas e pessoas;

mas o velho espelho agora alegrava-se

e vangloriava-se por ter recebido sobre si

a beleza inteira por alguns minutos.»


Página 393 de Os Poemas, de Konstandinos Kavafis (tradução revista, prefácio e notas de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis), disponível em https://relogiodagua.pt/autor/konstandinos-kavafis/

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