Morreu no passado dia 6 de Abril o padre e teólogo Hans Küng, cuja obra Uma Boa Morte a Relógio D’Água editou em 2017.
«“Para muitos cristãos”, escreveu o biógrafo de Küng, o jornalista britânico Robert Nowell, “talvez especialmente para aqueles que não estavam em comunhão com Roma, sempre houve algo bom de mais para ser verdade sobre Hans Küng. Ele apresentava as qualidades que muitos detractores da Igreja Católica consideravam totalmente incompatíveis: uma paixão pela verdade e lealdade a Roma, uma mente aberta disposta a aceitar os frutos da investigação crítica e uma adesão ao que de fora era visto como um sistema dogmático fechado.”» [The Guardian, 8/4/21, https://www.theguardian.com/world/2021/apr/08/hans-kung-obituary]
Durante séculos, foi imposta aos crentes cristãos a proibição de terminar com a vida.
No entanto, Hans Küng defende que uma boa morte se fundamenta no respeito profundo pela vida de qualquer pessoa e nada tem que ver com o infeliz suicídio arbitrário.
Se temos responsabilidade sobre a nossa vida, porque haveria essa responsabilidade de terminar na sua última fase? É precisamente como cristão que Hans Küng apela ao direito de cada qual decidir responsavelmente sobre o momento e a forma da sua morte.
Neste breve ensaio, que procura contribuir para a mudança de atitude da Igreja, Hans Küng mantém a coerência e a autenticidade que revelou no seu conflito com a hierarquia católica romana. A sua defesa da eutanásia (cujo significado etimológico é “boa morte”) insere-se assim nas suas preocupações antropológicas e religiosas.
“Gostaria de morrer consciente e de me despedir digna e humanamente dos seres que me são queridos”, escreve Hans Küng.
Hans Küng nasceu na Suíça em 1928. Depois de estudar Filosofia e Teologia em Roma e Paris, dedicou-se à prática pastoral e, a partir de 1960, foi catedrático de Teologia Ecuménica em Tubinga. Participou como especialista no Concílio Vaticano II.
Em 1979, o Vaticano retirou-lhe a licença eclesiástica para ensinar por ter posto em causa a infalibilidade do Papa. Passou a catedrático emérito em 1996. O seu prolongado estudo das religiões mundiais levou-o ao Projeto para Uma Ética Mundial (1990) e à criação da Fundação Ética Mundial, em torno de quatro aspetos essenciais da convivência humana: compromisso a favor de uma cultura de não-violência e o respeito por toda e qualquer vida; a solidariedade e uma ordem económica justa; um estilo de vida honrado e verdadeiro; e uma cultura de igualdade entre homens e mulheres. A esses aspetos acrescentou os princípios de que não há sobrevivência sem uma ética global, não há paz mundial sem paz religiosa, não há paz religiosa sem diálogo entre religiões.
Hans Küng é autor de uma vasta obra. Entre os seus livros contam-se Os Grandes Pensadores do Cristianismo, Jesus, Terá a Igreja Salvação?, Ser Cristão, A Mulher no Cristianismo, Vida Eterna, Deus Existe?, O Judaísmo. Passado, Presente, Futuro, O Cristianismo. Essência e História, Morrer com Dignidade. Uma Apologia da Responsabilidade (com Walter Jens).
Uma Boa Morte (tradução de Miguel Serras Pereira) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/uma-boa-morte/



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