5.2.21

Sobre a obra de Louise Glück

 




 

«Não erraremos muito se dissermos que Louise Glück seria, à partida, uma candidata invulgar ao Prémio Nobel. É autora de uma poesia que poderá situar-se num dos possíveis pólos opostos de uma escrita voltada para as manifestações públicas, ou que fosse especialmente interessada na política do seu tempo, mesmo na História ou apta a fazer frente a uma contemporaneidade pautada pela rapidez, o consumo imediato, o apagamento posterior à utilização, a ultrapassagem constante — o eterno agora.
Poderia mesmo arriscar-se que os poemas de Louise Glück surgem em contraciclo perante todos esses dados que dão a conhecer o nosso tempo. A sua poesia caracteriza-se, muito ao contrário do ar do tempo, por uma desaceleração. E, no entanto, os seus versos configuram, não tanto uma viragem para o interior, conforme a tradição confessionalista — “Ah,/ a alma! a alma! Bastará/ olhar para dentro de nós?” (“A Íris Selvagem”, Relógio D’Água, 2020), diz um dos seus poemas —, mas a atenção ao que se encontra algures nos espaços que ficam por entre o acontecer imediato do quotidiano. Sem ter deixado de reflectir o seu próprio universo concreto, mesmo familiar, os seus poemas — desde o primeiro livro, “Firstborn”, de 1968, até “Noite Virtuosa e Fiel” (Relógio D’Água, 2021) — parecem recusar uma obediência clara a qualquer nexo de causalidade impositivo. A própria poeta tem amiúde enjeitado enfileirar nos “ismos” com que se tenta sempre, e fatalmente, etiquetar um artista.»

[Hugo Pinto Santos, «A candidata menos óbvia», «Ípsilon», 2021/02/05]

As obras obras de Louise Glück estão disponíveis em: https://relogiodagua.pt/autor/louise-gluck/ 


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