A investigadora e imunologista Maria de Sousa morreu no passado dia 14 de Abril, vítima da COVID-19. Deixou um exemplo e uma obra marcantes.
A escritora Hélia Correia dedicou-lhe um poema, que vamos publicar em três partes (aqui divulgamos a primeira).
«Poietike
Para a Maria de Sousa
I
Vindo o momento, tudo aquilo que separou
ciência e poesia deixará
de existir sobre a terra.
E o mistério terá o seu quinhão
entre as coisas aceites, entre as coisas
que, parecendo sombras, mais não são
do que a graciosidade que se esquiva
àqueles que tudo querem devassar.
O maior dos mistérios é a música, disse ela.
E eu concordei.
Mas penso, às vezes, na respiração.
Por muito que a ciência nos explique
o mecanismo do pulmão, o desempenho
do oxigénio, como se refere
isto ao nosso sufoco, ao nosso anseio,
ao convulsivo sorvo da criança
que perde a protecção, que a própria mãe
expulsa de si, e será sempre alguém
precariamente vivo, alguém que deve,
segundo após segundo, abrir o peito
para que nele entre o invisível e dele saia
imediatamente o invisível?
Há, dir-se-ia, um ritmo musical
como o que enche e esvazia um instrumento,
mas estamos em presença do afogado
e do estrangulado por garrote,
em presença até mesmo do que tem
perfume nos lençóis e o conforto
de uma grande fortuna e, ainda assim,
perde a magnificência, pois não sabe,
como soube, ao ser expulso pela mãe,
o movimento da respiração.
E toda a glória do pensante é breve
e admirável.
É o repicar
de um sino na manhã:
não existente
e absolutamente poderoso.
São os feitos dos homens, é um sino,
ciência do metal, poema em voo,
feitos dos homens que, como ele,
respiram.
E ela quer saber exactamente onde está o poema,
quer tocar
no nervo do poema, sem que exista
frieza ou impiedade,
sem que exista
golpe de bisturi.
Porque é um toque de delicadeza,
a materna leveza que há nos dedos
de quem levanta uma raiz, tremendo
com tudo o que ali há de irreparável,
de precioso, de finito, como o verso,
com tudo o que ali há de
desumano,
enquanto algo de fino,
de espantoso na sua vibração,
atinge o peito
e deixa as criaturas que nós somos
sob o encantamento do que ignoram.»
[continua]


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