A investigadora e imunologista Maria de Sousa morreu no passado dia 14 de Abril, vítima da COVID-19. Deixou um exemplo e uma obra marcantes.
A escritora Hélia Correia dedicou-lhe um poema, que vamos publicar em três partes (aqui divulgamos a segunda).
«II
Há um terceiro rosto à nossa mesa que, de tão belo,
inspiraria crimes, ou, pelo menos,
devaneios de crimes, não houvesse
nele um outro mistério,
o da bondade.
Não há bondade numa natural
composição do mundo.
Pois o que é vivo tem de alimentar-se
e, para isso, mata.
Tem de reproduzir-se e, nisso,
esmaga.
Tem de expandir-se
e nisso faz a guerra.
E o que parece dádiva —
o bom fruto,
um canto de ave,
a fonte — mais não é
do que uma etapa química, o invólucro
que protege a semente e vai cair,
e vai apodrecer, para que de novo
tudo comece e tudo se desfaça;
mais não é
do que um alerta
ou a chamada para o sexo
na passagem do ar pela siringe;
mais não é
do que a teimosa física
de um fluido.
Mas este rosto à mesa
estabelece
regras extraordinárias, não apenas
quanto aos jogos da luz
que nela troca
a doirada alegria pelo fulgor
que há no entardecer —
transformando-a em pura
intensidade,
que não é transição, mas o momento
em si mesmo suspenso, a eternidade
que nos é dado,
por instantes,
contemplar.
Fica a luz neste rosto tão serena
porque entre os dois há laços de família.
Porque o fulgor
não pousa e brilha nele:
ele próprio é o fulgor
e tudo em volta
se inclina, deslumbrado pela sombra.
De palpável há só o chamamento,
a formosa bondade
e, ao vê-la, estamos
a vê-la, simplesmente,
como vemos o pôr-do-sol,
sob o fascínio
da impossibilidade,
daquilo que é levado pelo tempo
e, no entanto, o tempo imobiliza
pois não quer despedir-se.
Assim o rubro escuríssimo do sol,
assim o rosto que, sobre o pão
e as centenárias chávenas, esquece,
por gentileza, que de modo algum
é um rosto vulgar,
um rosto de passagem
nesta mesa
ainda que nela esteja louça antiga
e uma antiga amizade entre pessoas
que ainda há pouco se desconheciam.
Esquece que
a beleza nos leva
a emudecer.
Do belo, tudo o que a ciência sabe
é o mero equilíbrio
das medidas,
o agrado ocular.
Que mais?
Não pode
confrontar-nos a ciência com a estátua,
com o brinco de Vermeer, com o rosto
que nos visita para o chá,
em toda a glória
da sua proporção.»
[continua]


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