9.4.19

Entrevista de Gonçalo M. Tavares, no Expresso




«A ideia de estar isolado tornou-se rara», diz Gonçalo M. Tavares em entrevista a Cristina Margato, no Expresso.

«— E porque escreve?
— A escrita resulta da necessidade de isolamento, e a leitura também está ligada a essa necessidade. Hoje, escrever ou ler é quase um luxo. É ficar só, sem ninguém à volta, sem estar ligado à internet. A ideia de estar isolado tornou-se rara.

— Escrever é um tipo de prática espiritual ou de fé?
— Não diria isso, mas nas sociedades “supertecnológicas” quem consegue passar três ou quatro horas sozinho, sem estar ligado à internet, está a introduzir ou a manter séculos passados no século XXI. É como se a pessoa transportasse uma mochila às costas e levasse nela o século XVIII ou o século XIX — os últimos em que a presença corporal era o essencial. Hoje, ler e escrever são quase processos de resistência, revolucionários. Não estar ligado à internet, estar sozinho, implica ultrapassar uma quantidade de obstáculos. Não sendo a escrita um processo espiritual é um processo de abdicação. O contacto com a internet é o mais fácil. […]

— Dá aulas. Seria um escritor a cem por cento se pudesse?

— Não. Gosto muito do contacto com as pessoas, e também não é bom depender apenas da literatura ou da arte. Para mim, o espaço da arte é o da liberdade absoluta. Faço o que tenho necessidade e nunca imponho outro critério que não seja o da liberdade, o da vontade, o da necessidade. Quando revejo, por exemplo, corto, corto e corto. E altero. Às vezes estou a cortar frases e sinto que esse corte vai eliminar cem leitores, e mais outro, e já perdi mais 20 leitores, porque o texto se torna mais denso. Se eu por acaso dependesse economicamente da literatura provavelmente iria pensar: “Será que corto?” E eu corto mesmo muito.» [Gonçalo M. Tavares em entrevista a Cristina Margato, E, Expresso, 6/4/2019]

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