8.6.18

Sobre O Quarto de Marte, de Rachel Kushner




Rachel Kushner em entrevista a Isabel Lucas, a propósito da edição do romance Quarto de Marte

«Entrou em prisões como voluntária, falou com reclusas, guardas, advogados. Queria que a sua vida os incluísse. Como se vive com o “para sempre” de uma pena perpétua numa prisão de mulheres da Califórnia? Um mergulho no íntimo mais negro, com humor para sobreviver: O Quarto de Marte, edição simultânea em Portugal e nos EUA. (…)
“Sempre me perturbou o facto de as pessoas ficarem numa prisão para toda a vida. É uma coisa muito americana, e uma ideia bizarra de punição; resulta de uma decisão estruturalmente arbitrária. Nunca se sabe quanto tempo uma pessoa irá viver. Podem ser quatro ou 40 anos, mas é como se com a vida pudessem reparar os danos que causaram. É muito estranho”, diz a partir de Londres, onde está a promover este romance com edição simultânea em língua inglesa e em Portugal e que tem sido classificado como o mais político dos seus livros. Será? Se assim for, é também o mais negro e o mais divertido, o mais livre de um enredo, mas o mais comprometido com uma personagem a partir da qual tudo se estrutura: Romy, a rapariga educada no silêncio de uma mãe que lhe deu o nome de uma mulher trágica. “A minha mãe deu-me o nome de uma actriz alemã que disse a um assaltante de bancos, num programa de televisão, que gostava muito dele.” Nessa frase parece traçado um destino de sombra.
ideia do romance terá surgido em 2012, quando Rachel terminou Os Lança-Chamas, romance situado nos anos 1970, com os movimentos políticos radicais na Europa a contaminarem o imaginário americano. Isso feito, era tempo de entender o seu tempo e a sua geografia com um foco preciso: o sistema prisional da Califórnia nos anos da Administração Bush.
“Sabia que queria escrever um romance contemporâneo, e isso mudava muita coisa, já que ao fazê-lo se pede ao escritor que sintetize algum tipo de significado do que observa no seu próprio tempo. Eu queria escrever um livro sobre o mundo em que vivia e as mudanças que aconteceram desde os anos 1970”, sintetiza. Referindo em particular a Califórnia e São Francisco, não tem dúvidas, “as mudanças são de vulto”, com um factor a condicionar os outros: “A transição de uma economia industrial para um capitalismo financeiro excluiu muita gente.”
Romy pertence aos excluídos. Rachel nem por isso, apesar de terem partilhado — ficção e realidade — o mesmo bairro em São Francisco. Natural de Oregon, onde nasceu em 1968, filha de dois cientistas beatnick, mudou-se para “Frisno” (diminutivo da cidade) com dez anos e fez lá toda a escola.

“Talvez por isso quisesse, finalmente, entender como é que a sociedade se estruturou ali, no lugar de onde sou, onde vivo.”» [Isabel Lucas, ípsilon, Público, 8/6/18]

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