17.8.16

Sobre Macbeth, de William Shakespeare






«Compreender a tragédia de Macbeth passa em grande parte por compreender o que o distingue de Banquo. Ao mesmo tempo que informam Macbeth de que será rei, as bruxas profetizam que Banquo será pai de reis. No entanto, Macbeth será vencido porque será vencedor enquanto Banquo porque vencido, será vencedor. Sendo evidente a qualquer leitor atento que o retrato de Banquo esconde, no meio de muitos elogios, algumas críticas ao seu carácter (críticas essas que Shakespeare pretenderia muito discretas para agradar a Jaime VI, patrono do dramaturgo e rei de Inglaterra, cuja aspiração ao trono escocês dependia fortemente da sua ligação familiar ao Banquo histórico), a verdade é que Banquo é o grande vencedor da história, ao conduzir, já depois de morto, Macbeth à loucura, abrindo caminho à insurreição que colocaria o seu filho no trono. A derrota de Macbeth e posterior vitória de Banquo assentam, por paradoxal que pareça, numa virtude do primeiro (que exagerada se transforma num vício) e num defeito do segundo. Macbeth torna-se rei porque a sua valentia em combate torna todas as honras e distinções com que o rei Duncan o possa distinguir obsoletas, deixando-se seduzir pelo encanto das palavras das bruxas e de Lady Macbeth. Macbeth sabe que o seu futuro lhe reserva o trono e decide resgatá-lo pelas suas próprias mãos. Banquo, por seu turno, menos corajoso e muito mais calculista que Macbeth, decide ficar à espera que o seu destino se cumpra sozinho, não tomando parte em nenhum acontecimento, remetendo-se ao silêncio mesmo quando percebe que Macbeth matara Duncan.» [João Pedro Vala, Observador, 7/8/2016]

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