17.5.16

Sobre Elena Ferrante






«Elena Ferrante escreve literatura feminina? É difícil aceitar que estamos perante uma literatura de género. Uma aproximação despida de preconceitos não permitirá essa afirmação. Até porque há tantas outras relações nesta tetralogia além da relação das duas mulheres e das suas lutas exclusivamente femininas. Os livros são, de facto, intensos, violentamente pessoais. Mas são também parte da história do século XX e do percurso de sobrevivência de uma classe desfavorecida. As lutas são as de quem nasceu pobre. A batalha é a de classes. O conflito é o de quem ensaia uma identidade querendo apagar as raízes das quais se envergonha. O dilema define-se entre os que partem e os que ficam. A vontade é a de transcendência de estatuto imposto à nascença, impregnado no sotaque, nas obscenidades do dialeto com que se aprendeu a amar, a odiar. E se tudo isto é napolitano, nada disto é um exclusivo dos napolitanos: “Aquilo que devia mudar, na opinião dela [Lina] era sempre a mesma coisa: de pobres devíamos passar a ricas, de não termos nada devíamos passar ao ponto de ter tudo”.
Não sendo a política o assunto, a política está sempre subjacente. De um modo mais subtil encontra-se na forma como os homens dominam as mulheres, no modo como as mulheres fogem à velha submissão do sistema patriarcal para cair de imediato na ratoeira de outros formatos de obediência não muito distantes da ordem tradicional, nas batalhas nas quais os homens se digladiam e por vezes perecem, na fuga a modelos impostos pela sociedade para cada um dos géneros. De um modo mais escancarado, está nos movimentos sindicalistas, comunistas, fascistas... nos atos terroristas em que as personagens se envolvem ou na história italiana dos últimos cinquenta anos do século XX.» [Cristina Margato, Expresso, 14/5/2016]

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