6.4.15

Sobre Não Posso nem Quero, de Lydia Davis





Na Ler de Março, José Mário Silva escreve sobre Lydia Davis, uma das suas autoras de referência.
«Nunca sabemos o que esperar, quando chegamos a uma página de Lydia. Em Não Posso nem Quero, como nos livros anteriores, há de tudo: histórias reversíveis, ideias subliminares, situações um pouco embaraçosas, bastante embaraçosas ou muitíssimo embaraçosas; um texto que simula a linguagem do spam eletrónico; toda a sorte de mulheres solitárias, seja diante de um peixe no restaurante, ou a querer guardar a bagagem num cacifo durante uma viagem no estrangeiro, ou aflitas com as contingências de um voo atribulado que pode bem ser o último. Há também inventários, entre os quais um que enumera as estratégias para ler “o mais depressa possível” números antigos do Times Literary Supplement, outro que é uma divertida coleção de queixumes (“… Sentaram-nos demasiado perto da cozinha. Há uma fila enorme no balcão das encomendas. Tenho frio enquanto espero no carro. O punho da minha camisola está húmido. A pressão do duche é fraca. Tenho fome…”), outro que estabelece o historial de uma gata (com todas as suas características e idiossincrasias), e ainda um outro que inventa obituários banais de gente banal, deixando para trás feitos banais. (…) Quando se pensa em Lydia Davis, pensa-se em minimalismo, audácia experimental, ficções não-lineares. Ou seja, numa sabotagem sistemática dos esquemas habituais das histórias com princípio, meio e fim. O que não quer dizer que a escritora não domine igualmente as formas narrativas tradicionais. (…) Diga-se, a propósito, que esta escrita pode parecer fácil de traduzir, mas não é. (…) Forçoso se torna por isso louvar, na edição da Relógio D’Água, o excelente trabalho de Inês Dias (…).»

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