27.2.15

Žižek e Tsipras discutem o futuro da esquerda na Europa




 

Publicamos em seguida alguns fragmentos do debate travado entre Slavoj Žižek e Alexis Tsipras, em 2013, no Festival Subversivo, e moderado por Srećko Horvat.


«Srećko Horvat: Então, a pergunta seguinte é sobre quem são os aliados potenciais do Syriza nesse combate. (…)


Slavoj Žižek: (…) O ponto cuja importância me interessa sublinhar, como tu muito bem fizeste, refere-se à questão das alianças. Há uma ideia que repito regularmente, mas que gostaria de retomar mais uma vez. As grandes revoluções não me fascinam, como sabes — um milhão de pessoas na Praça Tahrir, uma espécie de orgasmo colectivo, todos a gritarmos ao mesmo uma espécie de orgasmo colectivo, todos a gritarmos ao mesmo tempo, e todos unidos. Sim, está muito bem, mas a verdadeira questão é, para mim, a do dia seguinte. Posso imaginar o triunfo, e Atenas em peso a cantar vitória, se o Syriza vencer. Mas, e depois? O que me interessa, e a ti também, Alexis, porque és um tipo sério, é o que a vossa vitória significará para a vida das pessoas comuns depois desta voltar ao normal? E é aqui que assume toda a importância a ideia já referida das alianças inteligentes. Porque há uma afirmação tua que pode ser mal interpretada: a ideia do Syriza será simplesmente tirar aos ricos para dar aos pobres? Todos sabemos, com efeito, que a simples redistribuição não basta, e devemos ser muito cuidadosos ao lidar com o problema. Uma vez que, pelo menos durante algumas décadas mais, continuaremos a viver em regime capitalista, gostaria de recuperar aqui o conceito um tanto misterioso de “burguesia patriótica”, como se dizia nos velhos tempos do comunismo. É um termo que se refere aos capitalistas que, devido ao lugar que ocupam, não são simplesmente parte de uma máfia internacional de exploradores, mas estão efectivamente interessados em produzir para as pessoas, etc. Portanto, creio ser essencial sublinhar, a propósito das medidas redistributivas que perspectivaste, que não se trata de atacar simplesmente os ricos em geral, mas de aplicar uma estratégia cuidadosamente concebida. Por disparatado que possa parecer, gosto de imaginar que o Syriza deverá — no quadro de uma redistribuição global — facilitar também a vida dos capitalistas verdadeiramente produtivos. (…) Portanto, faz-se sentir aqui a necessidade, como disseste, de alianças amplas e não ortodoxas, o que parece essencial para convencer as pessoas de que o Syriza pretende algo diferente de desencadear uma revolução esquerdista tresloucada — o Syriza deveria até modernizar o Estado grego, torná-lo Finalmente eficaz e até mesmo muito mais “burguês”. E temos aqui uma oportunidade para o Syriza: vocês terão de fazer a tarefa honesta que os membros da classe capitalista dominante não foram, eles próprios, capazes de fazer. Mas, como tu dizias, será necessário bastante bom senso. Não sei se te dás conta que, devido à tentação que a ortodoxia exerce sobre a esquerda — “não atraiçoemos os nossos princípios, sejamos radicais” —, a esquerda radical secretamente, e ao contrário do que o Syriza faz e me leva a admirá-lo, não quis nunca ter poder, e os seus membros preferiram manter-se no papel de profetas negativos. Vocês têm uma oportunidade única, e é por isso que, sendo ateu, declaro agora, na minha qualidade de ateu, que todas as minhas preces são para rezar por vocês.


Srećko Horvat: Gostava de voltar a uma questão anterior levantada pelo Slavoj — a questão do dia seguinte. Sabemos que o Syriza é uma coligação muito ampla, e vocês foram capazes de se libertar efectivamente desse problema clássico que a divisão entre fracções tem sido para todos os grupos esquerdistas. Há um magnífico artigo de Georg Lukács, intitulado “Hotel Abgrund” (“Hotel Abismo”), que descreve esse lugar onde todos os esquerdistas se reúnem, e bebem vinho ou polemizam uns com os outros, a um passo da beira do abismo. Creio que o Syriza se apercebeu da ameaça do abismo, e que isso o levou a evitar a divisão em fracções. A minha pergunta é sobre como conseguiram vocês levar a cabo essa tarefa e formar uma coligação tão ampla, e com tal sucesso que, há dizer-me que, na realidade, o Syriza estava prestes a transformar-se num partido e a deixar de ser uma simples coligação.
 

Alexis Tsipras: Para ser franco, devo dizer que nem nós próprios sabemos bem como isso aconteceu. Creio que essa transformação do Syriza foi obra das pessoas, mais do que do próprio Syriza. (…) Propus, portanto, que mudássemos os termos do registo, a fim de beneficiarmos do bónus no caso de sermos o partido mais votado. Toda a gente pensou que eu estava louco, porque ninguém, nem eu próprio, acreditava que estivéssemos tão perto de chegar ao poder. Se eu tivesse feito a minha proposta de unificação, de transformar a coligação num partido unificado, antes das primeiras eleições de 2012, ninguém a teria apoiado. Mas, logo a seguir, no dia das eleições, foram as pessoas que votaram a reclamar a transformação do Syriza, a incumbir-nos da tarefa de nos tornarmos a principal força política do país, e de tentarmos unir toda a esquerda, e não só a esquerda. Se analisarmos os resultados eleitorais, descobriremos duas grandes divisões — uma divisão em termos de classe e uma divisão etária. Os que votaram em nós eram jovens, por um lado, e, por outro, trabalhadores e membros da classe média: nas zonas operárias da Grécia, obtivemos 40 por cento dos sufrágios; nas zonas burguesas, 15 por cento — e, do ponto de vista etário, atingimos os 45 por cento entre os eleitores cuja idade se situava entre os 18 e os 45 anos, e 15 por cento entre os que tinham mais de 60 anos. Durante a campanha, dizíamos a brincar que, para conseguirmos vencer, teríamos de fechar em casa os nossos avós. Devo dizer que houve aqui uma grande transformação no sistema de crenças das pessoas, e julgo que aquilo que se passou com o Syriza não significa uma adesão da maioria à esquerda radical, mas uma transformação radical das pessoas, que começaram a tentar pensar livres de tabus políticos: as pessoas queriam uma mudança muito grande e profunda, e viram em nós a única força política grega capaz de fazer o que prometia. E acontece também que nós continuamos com as mãos limpas. Ninguém espera que o Syriza transforme a situação de um momento para o outro, mas toda a gente espera que não mudemos as nossas posições, ainda que os nossos inimigos nos ataquem.»


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