23.4.22

Sobre 31 Sonetos, de William Shakespeare

 



«De entre os 154 sonetos que William Shakespeare nos deixou, publicados em 1609, já no reinado de Jaime I, e que se julga terem sido escritos ao longo de toda a sua carreira, escolhi 31 para esta antologia. Para além do critério de gosto, sempre subjectivo mas nunca irrelevante, essa escolha não foi arbitrária. Os primeiros 126 sonetos do poeta e dramaturgo inglês são dirigidos a um homem, jovem, belo e nobre, geralmente referido como “lovely boy”, ou “fair youth”, amado e idolatrado pelo poeta, que sabe não ser retribuído o seu amor. Os restantes sonetos (do 127 ao 152) são dedicados a uma mulher, normalmente referida como “dark lady”, perigosamente sedutora, uma amante traidora e cruel, mas capaz também de despertar satisfação sexual. Por sua vez, os dois últimos sonetos (153 e 154) recorrem à figura de Cupido para fechar o triângulo amoroso sugerido pela presença do jovem e da mulher como destinatários, exprimindo o conflito entre o poeta e os seus dois objectos amorosos, mas não tratando directamente as temáticas presentes nos dois primeiros grupos: a passagem inexorável do tempo, a procriação, o desejo, o erotismo, o ciúme, o abandono, a paixão, ou a força da palavra e da poesia como única forma de perpetuar a beleza e o amor — e a memória do amor.

Seleccionei 25 sonetos de entre o primeiro grupo, os dedicados ao homem jovem, 5 sonetos de entre o segundo grupo, os dedicados à mulher escura e infiel, e o Soneto 154, o último de toda a série. Casos houve em que os sonetos foram agrupados (como os Sonetos 88, 89 e 90), visto dialogarem entre si e se constituírem como argumento próprio. Pareceu-me que esta escolha ofereceria a quem lê uma amostra expressiva do conjunto completo.» [Da Introdução de Ana Luísa Amaral]


31 Sonetos (trad. Ana Luísa Amaral) e outras obras de William Shakespeare estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/william-shakespeare/

Sobre Dez Razões (Possíveis) para a Tristeza do Pensamento, de George Steiner

 



«Schelling, entre outros, atribui à existência humana uma tristeza fundamental, inescapável. Mais particularmente, esta tristeza oferece o fundamento sombrio sobre o qual assentam a consciência e a cognição. Este fundamento sombrio deve, na verdade, ser a base de toda a perceção, de todo o processo mental. O pensamento é rigorosamente inseparável de uma “melancolia profunda e indestrutível”. A cosmologia atual oferece uma analogia à crença de Schelling. Aquela do “ruído de fundo”, dos comprimentos de onda cósmica, esquivos mas inescapáveis, que são os vestígios do Big Bang, do surgimento do ser.»


Dez Razões (Possíveis) para a Tristeza do Pensamento (trad. Ana Matoso) e outras obras de George Steiner estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/george-steiner/

22.4.22

sobre D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes

 



“Não nos rimos dele por muito tempo. As suas armas são a piedade, a sua bandeira a beleza, em todas as situações permanece… gentil, desamparado, puro, generoso e galante. A paródia torna-se um modelo ideal.” [Vladimir Nabokov, em Leituras sobre o D. Quixote]


“Dom Quixote, Falstaff e Emma Bovary representam essas descobertas da consciência; criando-os, na iluminação recíproca do acto criador e do crescimento da coisa criada, Cervantes, Shakespeare e Flaubert chegaram literalmente a conhecer “partes” de si próprios antes insuspeitadas.” [George Steiner]


“Não queria compor outro Quixote — o que é fácil —, mas “o” Quixote. Não vale a pena acrescentar que nunca encarou a possibilidade de uma transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. A sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem — palavra por palavra e linha por linha — com as de Miguel de Cervantes.”

[Jorge Luis Borges, “Pierre Menard, autor do Quixote”]


D. Quixote de la Mancha (trad. e notas de José Bento) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/d-quixote-de-la-mancha/

Sobre Meadowlands, de Louise Glück (tradução de Inês Dias)

 



Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: Meadowlands, de Louise Glück (tradução de Inês Dias)


As vozes dos protagonistas da Odisseia entrelaçam-se com as de um homem e de uma mulher dos dias de hoje, à beira da ruptura.


«ÍTACA


O amado não

precisa de estar vivo. O amado

vive no pensamento. O tear

é para os pretendentes, encordoado

como uma harpa com fio branco de mortalha.


Ele era duas pessoas.

Ele era o corpo e a voz, o simples

magnetismo de um homem vivo, mas também

o sonho ou retrato moldado

aos poucos pela mulher que trabalha no tear,

ali sentada numa sala repleta

de homens sem imaginação.


Tal como lamentas

o enganado mar que tentou

levá-lo para sempre

e levou apenas o primeiro,

o verdadeiro marido, deves

lamentar estes homens: eles não sabem

o que vêem;

não sabem que, quando se ama assim,

a mortalha se transforma num vestido de noiva.» [p. 29]


Meadowlands e outras obras de Louise Glück estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/louise-gluck/

O Mal de Ortov, de Jaime Rocha, na Zé dos Bois

 




Está em cena até amanhã, 23 de Abril, na Zé dos Bois, em Lisboa, a peça O Mal de Ortov, de Jaime Rocha, com encenação de Paulo Campos dos Reis e interpretação de Philippe Araújo.

Mais informação em https://zedosbois.org/programa/o-mal-de-ortov/


O Mundo de Ortov (inclui O Mal de Ortov) e outras obras de Jaime Rocha já editadas pela Relógio D’Água estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/jaime-rocha/

De O Sermão do Fogo, de Agustina Bessa-Luís

 



«Uma pequena bouça de pinheiros, dum verde cheio dessas cãs dos pinheiros como vassouras amolecidas pelo uso, estendia‑se ao sul; tratava‑se de árvores adultas, cascudas, ligeiramente flectidas pelo vento durante o crescimento. Alguns cogumelos cresciam nos troncos e anunciavam a sua decrepitude, apesar dos fogosos ramos e do toucado de pinhas que a chuva apodrecera um pouco e que começavam a cair. O solo era arenoso, um céspede brilhante e líquido brotava entre as raízes do tojo, e nada mais comovente para Amélia do que o ruído dos passos que pisavam a agulha seca, a gorda folhagem da chorina, a açucarada contextura da areia pálida e húmida. Ela marchava devagar, com o seu ligeiro pisar, próprio das pessoas a quem o movimento assusta e que vivem sedentariamente; era a segunda vez que andava sozinha no pinhal circundado por esteios de pedra onde se prendia velho arame farpado; e, como acontece com as mulheres caprichosas, gostava de contemplar‑se no seu retrato bucólico e triste, guardando, porém, no fundo do coração, a certeza duma breve comédia e dum desfrute da natureza sem qualquer convicção. Quando se extrai uma surpresa duma insignificância, isso equivale a receber uma lição gratuita aparentemente, mas em cujo acaso não se acredita. Tal é a alma do homem — duvida sempre da simplicidade dos factos sucedidos no âmbito do seu próprio ser; o natural não acontece senão no reino bruto, a razão não nos incita ao que é natural, mas ao que é possível.» [p. 11]


O Sermão do Fogo e outras obras de Agustina Bessa-Luís estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/agustina-bessa-luis/

Sobre Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov

 



Fogo Pálido é um romance que não se parece com nenhum outro. O corpo principal é um poema que no original tem 999 versos repartidos em quatro cantos e escritos pelo fictício John Shade. Tem também um prefácio e um índice de um editor Charles Kinbote, além de um comentário, que assume a forma de notas a versos numerados no poema. 

A relação entre Kinbote e Shade ocorre na fictícia pequena cidade universitária norte-americana de New Wye, onde são vizinhos entre Fevereiro e Julho de 1959.

Kinbote escreve o seu comentário, que se centra sobretudo nas suas próprias preocupações, numa cabana turística na igualmente fictícia cidade de Cedarn. 

O resultado é um romance irónico, literário em segundo grau e completamente intrigante. 


Fogo Pálido (trad. Telma Costa) e outras obras de Vladimir Nabokov estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/vladimir-nabokov/