2.4.20

Sugestões de leitura de Alexandre Andrade




A revista digital Novos Livros pediu sugestões de leituras a vários escritores portugueses. Alexandre Andrade recomendou como «livros para tempo de isolamento» O Homem Que Via Tudo, de Deborah Levy, e Notas de Inverno sobre Impressões de Verão, de Fiódor Dostoievski. [Sugestões completas em https://tinyurl.com/rtx6aqs ]

Estas e outras obras de Deborah Levy e de Fiódor Dostoievski estão disponíveis em www.relogiodagua.pt

Sobre Vislumbres da Índia, de Octavio Paz




«Ao anoitecer, regressei ao hotel, rendido. Jantei no quarto, mas a minha curiosidade era mais forte que o cansaço e, após outro banho, lancei-me de novo à cidade. Encontrei muitos vultos brancos deitados nos passeios: homens e mulheres que não tinham casa. Apanhei um táxi e percorri zonas desertas e bairros populosos, ruas animadas pela dupla febre do vício e do dinheiro. Vi monstros e cegaram-me relâmpagos de beleza. Deambulei por ruelas infames e assomei a bordéis e barracões: putas pintalgadas e gitões com colares de vidro e saias de cores garridas. Vagueei por Malabar Hill e os seus jardins serenos. Caminhei por uma rua solitária e, no fim, uma visão vertiginosa: lá em baixo o mar negro batia nas rochas da costa e cobria-as com um manto fervilhante de espuma. Apanhei outro táxi e voltei às redondezas do hotel. Mas não entrei; a noite atraía-me e decidi dar outro passeio pela grande avenida que bordejava os cais. Era uma zona de calma. No céu ardiam silenciosamente as estrelas. Sentei-me ao pé de uma grande árvore, estátua da noite, e tentei fazer um resumo do que tinha visto, ouvido, cheirado e sentido: enjoo, horror, espanto; assombro, alegria, entusiasmo, náuseas, invencível atração.»

Vislumbres da Índia, de Octavio Paz (trad. José Colaço Barreiros), está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/vislumbres-da-india/

1.4.20

Sobre Poemas Escolhidos, de T. S. Eliot




Os 433 versos de The Waste Land, Ash-Wednesday (1930), Four Quartets (1935 a 1942) e algumas dezenas de breves composições épico-líricas formam o essencial da obra poética de Eliot, o que, em concisão, só tem, na Europa, paralelo em Gottfried Benn.
De resto, a originalidade de Eliot parece estar aí, em apenas ter escrito depois de uma profunda acumulação interior. Mas, ao contrário daqueles que, como Rilke, reduziram, em grande parte, a criação ao momento da contemplação, à elegia, Eliot recorre também à ironia e ao sarcasmo.
Como disse Eugenio Montale: «Eliot chega muitas vezes ao canto a partir do recitativo, ao tom elevado a partir do mais coloquial. É sobretudo um poeta-músico; e não é nunca ou quase nunca (como o era Valéry e o foi muitas vezes Rilke) um neoclássico. Esta é a sua maior modernidade.»


Poemas Escolhidos (tradução de João Almeida Flor, Gualter Cunha e Rui Knopfli)e Ensaios Escolhidos de T. S. Eliot estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/t-s-eliot/

Os Autores Respondem: H. G. Cancela



H. G. Cancela: É preciso pensar fora da ideia de culpa

A Relógio D’Água perguntou a alguns dos autores que publica que leituras estão a fazer e se são diferentes das habituais, que consequências poderá ter a actual pandemia nas relações individuais e na criação ensaística e literária, e ainda as suas consequências na ecologia e na política internacionais.
Publicamos em seguida essas respostas.

«— Estou a ler Nas Trevas Exteriores, de Cormac McCarthy, e Blancs Soucis, de Georges Didi-Huberman. Tenho vindo a reler de forma aleatória toda a obra de Cormac McCarthy. Para o autor, as trevas são parte da ordem do mundo. O livro de Didi-Huberman é um ensaio sobre o branco e o silêncio: do leite materno ao branco que substitui as palavras diante daquilo que não se pode ou não se sabe dizer. Mostra como a suspensão é uma forma de discurso. Como a suspensão do tempo comum também é uma forma de tempo comum. Tenho lido um terceiro livro, este suscitado pela actualidade: a Antologia Poética de Jaime Gil de Biedma, na tradução de José Bento. Fui à procura do texto “Tento reformular a minha experiência da guerra” que se inicia com os versos paradoxais: “Foram, possivelmente, / os anos mais felizes da minha vida”.

— Parece-me importante não moralizar. Pela primeira vez na história da humanidade, os nossos sistemas representacionais (estruturas sociais e políticas, crenças, modelos cognitivos e dispositivos tecnológicos) fornecem-nos instrumentos de acção eficazes contra uma pandemia. Esta é uma crise sanitária que assume uma natureza profundamente ética: a suspensão que atravessamos existe porque entendemos que não é aceitável cedermos à selecção natural. Há sobretudo a consciência da interdependência entre o indivíduo e o todo da sociedade, entre o local e o global. É uma estranha forma de afirmação da própria ideia de humanidade. A ser objecto de literatura e de pensamento, será necessário não ceder ao imediato. À distância, e em perspectiva, esta não será senão uma pequena perturbação.

— Esta é uma crise ética, no bom sentido. Não é uma crise moral. Importa não moralizar a história. Seria ainda submetê-la a um olhar escatológico, às relações de culpa e de punição. Mas temo que essas sejam as perspectivas dominantes. Nas análises que surgem, predomina a ideia de que a catástrofe é o resultado da acção humana: é indiferente que os nomes e os motivos da culpa sejam políticos, económicos ou ecológicos. A relação implícita é a mesma: alguém (a natureza ou a própria história) julga e pune o comportamento humano. É preciso pensarmos fora dessa ideia de culpa. Podemos desenvolver instrumentos de controle do acaso, mas estamos sempre sujeitos a ele. A modernidade e a sua enorme riqueza económica e cognitiva fornecem condições sem paralelo na história para efectuarmos o controle de danos. Ao nível da pandemia, como ao nível das alterações climáticas.»

A Terra de Naumãn e outras obras de H. G. Cancela estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/h-g-cancela/


Nas Trevas Exteriores e outras obras de Cormac McCarthy estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/cormac-mccarthy/

Jaime Rocha participa no folhetim da página Bode Inspiratório




Quarenta ou mais escritores juntaram-se na página Bode Inspiratório para criar um folhetim, acompanhados por quatro dezenas de artistas plásticos, que diariamente exibirão uma obra inédita.
O projecto começa com Mário de Carvalho e termina em Luísa Costa Gomes. Ontem foi divulgado o capítulo escrito por Jaime Rocha, que pode ser lido aqui: https://www.facebook.com/notes/bode-inspiratório/cap%C3%ADtulo-11/120537876241075/

Escola de Náufragos e outras obras de Jaime Rocha estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/jaime-rocha/

Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë




Jane Eyre, criança órfã, cresceu em casa da tia, onde a solidão e a crueldade imperavam, e ainda numa escola de caridade com um regime severo. Esta infância fortaleceu, no entanto, o seu espírito de independência, que se revela crucial quando ocupa o lugar de preceptora em Thornfield Hall. Porém, quando se apaixona por Mr. Rochester, o seu patrão, um homem de grande ironia e cinismo, a descoberta de um dos seus segredos força-a a uma opção. Deverá ficar com ele e viver com as consequências disso, ou seguir as suas convicções, mesmo que para tal tenha de abandonar o homem que ama?
Publicado em 1847, Jane Eyre chocou inúmeros leitores com a sua apaixonada e intensa descrição da busca de uma mulher pela igualdade e a liberdade.

«A obra-prima de um grande génio.» [William Makepeace Thackeray]

Jane Eyre (trad. Mécia e João Gaspar Simões) e uma selecção de poemas de Charlotte Brontë estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/charlotte-bronte/

Vergílio Alberto Vieira sugere leitura de Ética, de Espinosa




A revista digital Novos Livros pediu sugestões de leituras a vários escritores. Vergílio Alberto Vieira recomendou como um «livros para tempo de isolamento» Ética, de Espinosa, que a Relógio D’Água editou recentemente com tradução, introdução e notas de Diogo Pires Aurélio. [Sugestões completas em https://tinyurl.com/rtx6aqs ]


Ética está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/etica-2/