1.4.20

Os Autores Respondem: H. G. Cancela



H. G. Cancela: É preciso pensar fora da ideia de culpa

A Relógio D’Água perguntou a alguns dos autores que publica que leituras estão a fazer e se são diferentes das habituais, que consequências poderá ter a actual pandemia nas relações individuais e na criação ensaística e literária, e ainda as suas consequências na ecologia e na política internacionais.
Publicamos em seguida essas respostas.

«— Estou a ler Nas Trevas Exteriores, de Cormac McCarthy, e Blancs Soucis, de Georges Didi-Huberman. Tenho vindo a reler de forma aleatória toda a obra de Cormac McCarthy. Para o autor, as trevas são parte da ordem do mundo. O livro de Didi-Huberman é um ensaio sobre o branco e o silêncio: do leite materno ao branco que substitui as palavras diante daquilo que não se pode ou não se sabe dizer. Mostra como a suspensão é uma forma de discurso. Como a suspensão do tempo comum também é uma forma de tempo comum. Tenho lido um terceiro livro, este suscitado pela actualidade: a Antologia Poética de Jaime Gil de Biedma, na tradução de José Bento. Fui à procura do texto “Tento reformular a minha experiência da guerra” que se inicia com os versos paradoxais: “Foram, possivelmente, / os anos mais felizes da minha vida”.

— Parece-me importante não moralizar. Pela primeira vez na história da humanidade, os nossos sistemas representacionais (estruturas sociais e políticas, crenças, modelos cognitivos e dispositivos tecnológicos) fornecem-nos instrumentos de acção eficazes contra uma pandemia. Esta é uma crise sanitária que assume uma natureza profundamente ética: a suspensão que atravessamos existe porque entendemos que não é aceitável cedermos à selecção natural. Há sobretudo a consciência da interdependência entre o indivíduo e o todo da sociedade, entre o local e o global. É uma estranha forma de afirmação da própria ideia de humanidade. A ser objecto de literatura e de pensamento, será necessário não ceder ao imediato. À distância, e em perspectiva, esta não será senão uma pequena perturbação.

— Esta é uma crise ética, no bom sentido. Não é uma crise moral. Importa não moralizar a história. Seria ainda submetê-la a um olhar escatológico, às relações de culpa e de punição. Mas temo que essas sejam as perspectivas dominantes. Nas análises que surgem, predomina a ideia de que a catástrofe é o resultado da acção humana: é indiferente que os nomes e os motivos da culpa sejam políticos, económicos ou ecológicos. A relação implícita é a mesma: alguém (a natureza ou a própria história) julga e pune o comportamento humano. É preciso pensarmos fora dessa ideia de culpa. Podemos desenvolver instrumentos de controle do acaso, mas estamos sempre sujeitos a ele. A modernidade e a sua enorme riqueza económica e cognitiva fornecem condições sem paralelo na história para efectuarmos o controle de danos. Ao nível da pandemia, como ao nível das alterações climáticas.»

A Terra de Naumãn e outras obras de H. G. Cancela estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/h-g-cancela/


Nas Trevas Exteriores e outras obras de Cormac McCarthy estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/cormac-mccarthy/

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