6.3.26

H. G. Cancela em entrevista a Isabel Lucas, no ípsilon, a propósito de Matilde, o seu livro mais recente



«A obra de H. G. Cancela (1967) tem vindo a construir, romance após romance, um universo ficcional com uma violência quase sempre latente. Não é uma violência espectacular, mas uma tensão íntima — moral, afectiva, identitária — que expõe as personagens à falha e também à precariedade da linguagem. Desde Impunidade (2014) até Nostos (2024), passando por As Pessoas do Drama (2017) e A Terra de Naumãn (2018), Cancela não quer repetir fórmulas e impõe desafios a si mesmo. Desde Anunciação (1999) até Matilde, que acaba de sair, tem interrogado os limites do humano, explorando, nisso, a culpa, a solidão, a sexualidade, a moral, a identidade, mas sobretudo a linguagem como modo de encarar a dúvida.

Matilde radicaliza e simplifica esse percurso. “Sabia-se à beira de um ataque de pânico. Era irracional. Um presságio surdo nos olhos dos outros”, lê-se, um narrador com acesso ao íntimo, e, pela primeira vez, Cancela a concentrar-se quase em exclusivo numa única personagem feminina, acompanhando-a num fluxo narrativo contínuo, sem capítulos, sem diálogos, sem cortes rumo a uma espécie de abismo. Uma mulher sai de Lisboa em fuga. Está grávida e sozinha. Há na história uma objectividade aparente que se revela inseparável da percepção limitada e muito condicionada da protagonista.» [Isabel Lucas, ípsilon, Público, 6/3/2026: https://www.publico.pt/2026/03/06/culturaipsilon/entrevista/h-g-cancela-nao-escritor-escrevo-escritor-estatuto-escrever-actividade-2166736]


Obras de H. G. Cancela editadas pela Relógio D’Água: https://www.relogiodagua.pt/autor/h-g-cancela/

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