«Histórias contadas num campo de batalha, num bote salva‑vidas, na enfermaria de um hospital à noite. Num café que desaparecerá antes do alvorecer. Alguém ouve inadvertidamente. Alguém escuta, atento, com todo o seu coração. Ninguém escuta. A história contada a alguém que está a adormecer, ou a perder os sentidos, para não mais acordar. A história contada a alguém que sobrevive e que contará essa mesma história a uma criança, que a escreverá num livro, para ser lida por uma mulher numa época ou num país que não são os dela. A história contada a nós próprios. A confissão emocionada. A meândrica e repetitiva busca pelo significado de um gesto, de um instante que toda a vida escapou à compreensão de quem conta. Histórias incompreensíveis para quem as ouve e que, não obstante, são acolhidas — pela escuridão, pelo vento, por um lugar, por uma compaixão impercetível ou despercebida, até pela indiferença.
O que damos não nos pode ser tirado.»
[pp. 19-20 de Abraço, de Anne Michaels, trad. Marta Mendonça]
Abraço, de Anne Michaels (tradução de Marta Mendonça), está disponível em https://www.relogiodagua.pt/produto/abraco-finalista-booker-prize-2024/


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