9.2.26

De O Estendal e Outros Contos, de Jaime Rocha

 «Quando o estrangeiro chegou, a mulher esfregava a roupa num tanque, espalhava o sabão com uma força pouco usual, como se estivesse para acontecer uma tragédia. A água era fria e suja, as nuvens andavam depressa lá por cima, ora brancas ora negras, ao sabor do vento.


O estrangeiro trazia um bloco e procurava as pessoas que, tinham‐lhe dito, iria encontrar naquele lugar. Devia dirigir‐se ao sítio onde se lavava a roupa e se estendiam os lençóis porque era ali que os homens costumavam ir espreitar as mulheres e era também ali, junto a umas pedras, que se faziam os filhos num instante. Tudo tinha de ser feito rapidamente e anotado no bloco, nada de gravações ou fotografias porque, não muito longe, talvez a dois quilómetros, a guerra continuava, os massacres não tinham fim e toda a gente cavava buracos até ao anoitecer para que os mortos tivessem a sua sepultura ainda de dia.» [De O Estendal, p. 9]


«O Estendal e Outros Contos» e outras obras de Jaime Rocha estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/jaime-rocha/

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