«Em 2010, Gonçalo M. Tavares publicou “Uma Viagem à Índia”, livro de extraordinária ambição, apresentado como epopeia de mais de 500 páginas, em diálogo duplo, por um lado com “Os Lusíadas”, de Camões, cuja estrutura emulava, e por outro com o “Ulisses”, de Joyce, ou não fosse Bloom o apelido do herói. Em vez da épica quinhentista, porém, predominava a melancolia de uma deambulação individual, uma espécie de avesso da gesta gloriosa, o que levou Eduardo Lourenço a ver no livro uma estratégia de “deceção” e Vasco Graça Moura a apelidá-lo de “antiepopeia”. Com “O Fim dos Estados Unidos da América, Tavares volta a desconstruir esta forma aparentemente anacrónica, mas numa escala maior. A massa textual (“massa bruta-brutamontes, como lhe chama) amplifica-se quase para o dobro, como elementos de ironia, paródia e irrisão a serem ainda mais determinantes na economia narrativa da obra, ao esvaziarem o grande modelo clássico do seu carácter solene e grandiloquente. Talvez se possa até dizer que estamos diante de uma transepopeia, uma epopeia que galgou para lá dos seus limites, ocupando um lugar exterior à sua tradição, onde deixaram de existir fronteiras definidas entre os géneros, os modos de contar histórias e os níveis de linguagem.
Num projeto literário que procura ser uma sátira distópica, ou uma distopia satírica, a questão da linguagem é central.» [José Mário Silva, E, Expresso, 23/1/2026: https://expresso.pt/revista/culturas/livros/2026-01-21-uma-trans-epopeia-o-colapso-dos-estados-unidos-da-america-contado-por-goncalo-m.-tavares-0b66f5ff]
O Fim dos Estados Unidos da América e outras obras de Gonçalo M. Tavares estão disponíveis em https://www.relogiodagua.pt/autor/goncalo-m-tavares/


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