«O que temos, em descrição sucinta, mas enganadora, são 66 canções e prosa para cada uma delas. Sucedendo na bibliografia de Bob Dylan ao já distante Crónicas - Volume 1 (Ulisseia, 2004 [Relógio D’Água, 2016]), A Filosofia da Canção Moderna mostra-o a dar uso a canções que admira para viajar mais longe (passo a passo, completa-se o puzzle de uma visão do mundo) e mais perto do que imaginávamos possível (e eis a vida interior de uma canção a revelar-se bem mais vasta do que aparentava).
“De facto, pode argumentar-se que quanto mais se estuda música, menos se a entende. Consideremos, por exemplo, duas pessoas — uma estuda teoria musical contrapontística, a outra chora quando ouve uma canção triste. Qual das duas entende música melhor” O importante, aqui, e é isso que nos dizem as mais de 350 páginas de A Filosofia da Canção Moderna, não é a resposta à pergunta, é o simples formular da questão.
Dylan até se atém, aqui e ali, a detalhar questões técnicas que explicam a qualidade artística de uma canção. Ensaia pelo caminho algumas hipóteses inesperadas, como Volare, de Domenico Modugno, antecipar em dez anos o psicadelismo regado a LSD de White rabbit, dos Jefferson Airplane, ou o bluegrass ser o outro lado do heavy metal, ou seja, ambas expressões imutáveis há décadas, assentes numa tradição instrumental definida, em que, “nas respectivas áreas, as pessoas ainda se vestem como Bill Monroe e Ronnie James Dio”. Sugere ainda que My generation, dos The Who, é tanto hino de rebeldia juvenil niilista, blasé e entediada, quanto a voz “de um homem de oitenta anos a ser conduzido na cadeira de rodas de um lar de idosos”, irritado [com] tudo e incapaz de “dizer uma palavra sem gaguejar”.» [Mário Lopes, ípsilon, Público, 7/4/2023:
A Filosofia da Canção Moderna (tradução de Pedro Serrano e Angelina Barbosa) e outras obras de Bob Dylan estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/bob-dylan/



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