12.11.22

Sobre O Passageiro, de Cormac McCarthy

 




«O mínimo que se pode dizer é que qualquer juízo acerca de “O Passageiro” parece provisório e fragmentário, respeitante a algumas partes do livro e não ao todo. Seria natural que Cormac McCarthy , agora à beira dos 90 anos, se tivesse despedido com a exasperação apocalíptica de “A Estrada” (2006), que venceu o Pulitzer. Até porque nem a Bíblia aconselha a escrever alguma coisa depois do apocalipse. MAs eis que, 16 anos depois, surge “O Passageiro”, um objecto estranho, tão magistral quanto confuso.

Em termos narrativos, a mestria é evidente. McCarthy faz o que quer com diálogos, episódios, meditações, saltos temporais. Mas as intenções indefinidas e o enredo bizarro são uma confusão danada. Tomemos, justamente, o enredo do romance. Bobby Western (um nome quase mítico), filho de um físico que trabalhou com Oppenheimer, estudou também Física, mas trabalha como mergulhador de resgate; vive amargurado com a bomba atómica de 1945 e com o suicídio da irmã esquizofrénica, Alicia […], e passa 300 e tal páginas a fugir, não se sabe bem de quem, subsistindo como um sem-abrigo ou um sobrevivencialista. […]

Teremos de completar a impressão que “O Passageiro” deixa depois de lermos “Stella Maris”. Mas há que reconhecer que Cormac McCarthy saiu do seu sossego para nos dar um romance desassossegado. E que revela, nesta idade, inesperadas afinidades com os seus confrades americanos nobelizáveis e não-nobelizados, escrevendo um romance teórico-paródico como os de Pynchon, conspirativo como os de DeLillo, desbragado e pessimista como os de Roth.» [Pedro Mexia, E, Expresso, 11/11/2022]


O Passageiro (trad. Paulo Faria) e as obras de Cormac McCarthy editadas pela Relógio D’Água estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/cormac-mccarthy/

Sem comentários:

Enviar um comentário