«Capítulo 1. Diário alheio
Morreu a minha tia, irmã do meu pai, tinha oitenta e picos. Não éramos chegadas, uma longa cauda de desentendimentos e ressentimentos familiares estendia‑se atrás desse parco relacionamento; os meus pais tinham com ela relações ditas complicadas, encontrávamo‑nos raramente, e a intimidade entre nós era quase nula. De vez em vez trocávamos telefonemas, os encontros eram ainda menos frequentes e, com a passagem do tempo, desligando o telefone («Não quero ouvir ninguém!»), a tia refugiava‑se cada vez mais na moldura que ela própria construíra: na espessa acumulação das coisas e coisinhas que atravancavam o seu pequeno apartamento.
A tia Gália vivia imersa no sonho da beleza: sonho de uma nova disposição dos pertences, decisiva e definitiva, da pintura das paredes, da colocação de cortinados. Em tempos, há muitos anos, iniciou a arrumação radical, e esta, pouco a pouco, apossou‑se da casa. Decorria um permanente processo de revirar e rever os objectos necessários; era preciso pôr em ordem e sistematizar o conteúdo da casa, cada chávena exigia uma reflexão, os livros e os papéis perdiam a sua natureza e tornavam‑se meros usurpadores do espaço: barravam o apartamento em pilhas e montões, em barricadas.» [p. 13]
Memória da Memória — Romança, de Maria Stepánova (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra), está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/memoria-da-memoria-pre-publicacao/



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