Javier Marías morreu ontem em Madrid, aos 70 anos, idade que uma vez mencionou como aquela que talvez não valesse a pena um escritor ultrapassar.
Não voltarei a encontrar na última página do El País Semanal a crónica que escrevia há vinte anos e me fez assinante do jornal. Foi nessa “Zona Fantasma” que Javier Marías defendeu a literatura e o cinema contra as arremetidas do politicamente correcto, evidenciou as hipocrisias do independentismo catalão, as tendências ditatoriais de Pablo Iglesias, as manobras do PSOE e os atentados urbanísticos contra a Madrid onde cresceu e a Barcelona que também amou.
Sei que terei alguma relutância inicial a ler o escritor que o irá substituir, ao que parece, Javier Cercas, por mais interessante que este seja.
Estamos agora, todos os seus leitores, um pouco mais desamparados e vazios, apesar dos livros que nos deixou.
A partir dos anos 90 do século passado, a RA editou uma dezena de obras de Javier Marías, de que eu próprio traduzi algumas, em nome próprio ou com o pseudónimo de Manuel Alberto: Amanhã na Batalha Pensa em Mim, os contos de Quando Fui Mortal, os ensaios Literatura e Fantasma e, em co-autoria com José Bento, Veneza — Um Interior, e, com Salvato Telles de Menezes, Vidas Escritas.
Considero Javier Marías o melhor e mais completo escritor entre todos os que foram publicados no último meio século.
Autor precoce, escreveu Os Domínios do Lobo aos 18 anos, e deixou dezoito romances, alguns deles notáveis, como Coração tão Branco, o já referido Amanhã na Batalha…, e os mais recentes, Os Enamoramentos, Assim Começa o Mal, a trilogia O Teu Rosto amanhã, Berta Isla e, por último Tomás Nevinson.
São obras feitas de longos períodos com incursos reflexivos, enredos onde o desvendamento do que está oculto é parte integrante do processo narrativo.
Marías frequentou também a “nobre arte do conto” (os seus contos estão agora reunidos em Não mais Amores), onde as frases se tornam mais exactas e as reviravoltas mais frequentes.
Os seus ensaios estão reunidos em Literatura e Fantasma, Paixões Passadas e Vidas Escritas, e revelam-nos as afinidades literárias, a sua concepção da arte, as amizades que teve, entre elas a de Juan Benet, e a admiração por autores como Laurence Sterne, Nabokov, Dickens, Emily Brontë, Stevenson, Faulkner e escritoras menos conhecidas como Vernon Lee, Violet Hunt ou Julie de Lespinasse. Marías foi também um excelente tradutor de Tristram Shandy, de O Espelho do Mar de Conrad, e de poesia de Auden e Nabokov.
Vicissitudes editoriais, e em particular a vinda para Portugal da Alfaguara, sua editora em Espanha, levaram a que a RA deixasse de lhe publicar a ficção, ficando com as crónicas e ensaios, entre os quais Quando os Tontos Mandam, Juro não Dizer nunca a Verdade, Vidas Escritas, Veneza — Um Interior e, no próximo mês de Outubro, Será Mau o Cozinheiro?.
Conheci Javier Marías em Lisboa em 1998, aonde veio para o lançamento de Negras Costas do Tempo, traduzido por José Bento. Era um homem reservado, afável, garbo madrileno e um inteligente sentido de humor (nos seus romances surge quase sempre um personagem “desavergonhado” que cria situações insólitas ou mesmo hilariantes).
Javier Marías tinha uma relação lúdica com a literatura e a vida. Quando o conheci, estava contente por ter acabado de adquirir em leilão um cachimbo de Conan Doyle por um preço razoável. Imagino que o seu escritório se tenha tornado um gabinete de curiosidades literárias onde se acumulam objectos dos seus escritores preferidos e as miniaturas ou mesmo réplicas das armas que o seu amigo, o escritor Arturo Pérez-Reverte, antigo correspondente de guerra, lhe foi oferecendo.
Foi adepto ardente do Real Madrid desde os tempos do Di Stéfano, embora nos últimos tempos um pouco menos, dadas as duvidosas actividades do seu director, Florentino Pérez, e a multiplicação de campeonatos.
O seu sentido lúdico levou-o a aceitar a herança do Reino de Redonda, onde publicou excelentes autores esquecidos, como Richmal Crompton, e nomeou para cargos nobiliárquicos, príncipes e duques, escritores como Umberto Eco e Margaret Atwood.
Recebeu inúmeros prémios literários em Espanha e outros países europeus, latino-americanos e nos Estados Unidos.
Não obteve o Nobel da Literatura, talvez por ter escrito a mais demolidora crítica à Academia Sueca. Colocou num prato da balança os escritores que receberam o Nobel e estão na maior parte esquecidos e no outro os grandes escritores ignorados pelo Nobel. A balança da literatura oscilou para este último, onde estavam os seus admirados Borges, Conrad, Proust e Nabokov, e está agora ele também.
Javier Marías tinha um sentido ético só comparável ao de Tchékhov, Henry James, Iris Murdoch ou Margaret Atwood. Não aceitava prémios concedidos por entidades oficiais e recusou-se a visitar os EUA de Bush Filho e Trump.
Muitos dos seus leitores lamentam que se tenha mantido um fumador até ao fim, o que lhe poderá ter encurtado a vida e mesmo a obra. Mas no artigo “Contra a Longa Vida” escreveu:
“A actividade de escritor parece que nos vai acompanhando durante as nossas vidas e parece que só nos vemos forçados a pendurar a pena quando resolvemos fazê-lo.
E nesse sentido poderão dizer-me que a longevidade será para nós um bem indubitável. Será verdade? Assim como Cervantes me obriga a acreditar que um autor pode dar as mais benditas surpresas depois dos 60 anos, não creio que a história da literatura universal fosse muito diferente do que é se dela suprimissem todas as obras escritas com mais de 70 anos. […]
Por isso, cada vez que alguma alma bondosa me repreende amavelmente pelos meus pequenos excessos, anunciando-me que se continuar assim viverei menos dez anos do que poderia talvez viver, acendo um cigarro e penso em Títono. […]”
Títono foi seduzido pela lasciva Eos, deusa da aurora, que implorou e obteve de Zeus a imortalidade para o seu amante. Esqueceu-se, porém, de pedir a eterna juventude para Títono, que passou a detestar cada nova aurora, ficando cada vez mais decrépito, enrugado e de cabelo branco.
Francisco Vale



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