«Para lá do jogo de ocultação da identidade — que fez de Elena Ferrante o maior mistério da literatura contemporânea —, as conferências oferecem uma rara oportunidade de espreitar a criadora no ato de refletir sobre o seu ofício. Mas se o olhar ao espelho de Ferrante é de uma assombrosa honestidade, os admiradores da escritora não devem esperar grandes revelações sobre a pessoa que se esconde atrás do pseudónimo, nem sequer sobre as circunstâncias particulares em que surgiram os seus romances. […]
Chegada à idade adulta, a aspirante a um realismo absoluto descobriu que era afinal uma “realista desalentada”. Em vez de ser mero espelho do mundo, percebeu que tinha de se implicar naquilo que escrevia. […] Entregou-se então a uma escrita mais livre, menos exigente consigo mesma, e centrada em narradoras na primeira pessoa, que avançavam em histórias cada vez menos controladas, ficções emaranhadas em que a própria autora se enredava.[…]
Ao inventar uma escrita para estas mulheres, uma “escrita delas”, criou um espaço de liberdade em que podia finalmente dar azo, na “gaiola sólida” de um género literário codificado, (a novela), a irrupções da tal energia convulsa, “feiabela” e “belafeia”.» [José Mário Silva, Expresso, E, 14/4/2022]
As Margens e a Escrita (trad. Margarida Periquito) e outras obras de Elena Ferrante estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/elena-ferrante/



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