Num café em Biot, Côte d'Azur, Agosto de 1968.
Poucas vezes o talento, o entusiasmo e a generosidade se conjugaram como em Jorge Silva Melo.
Todos os que se interessam pelo teatro, a literatura e o cinema, ou apenas pela vida, têm agora as suas obras para ler, de «A Mesa Está Posta» até «António, Um Rapaz de Lisboa», ou «Século Passado»
E, claro, há ainda para ver «Vida de Artistas», a última peça que ele encenou e tem estreia no São Luiz a 23 de Março.
Não sei como foram os seus últimos dias, mas tenho a certeza de que tentou trabalhar até ao fim naquilo que mais amava.
Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, licenciou-se em Filologia Românica na FLUL, onde fez parte do Grupo do Teatro de Letras, dirigido por ele e por Luís Miguel Cintra. Foi esse grupo que esteve mais tarde na origem do Teatro da Cornucópia. Estudou depois na London Film School.
Foi crítico de cinema e teatro, actor e encenador. Estagiou na Schaubühne com Peter Stein e no Piccolo Teatro e no Scala de Milão com Giorgio Strehler.
A partir de 1996 dirigiu os Artistas Unidos, onde encenou dezenas de peças que percorreram todo o país.
Reproduzimos em seguida um fragmento de «O instante não tem nome», uma das crónicas reunidas em «Século Passado» (Cotovia, 2007), que havia sido inicialmente publicada no suplemento Mil Folhas do «Público»:
«De um filme já antigo de Bergman, “Rumo à Felicidade”, não me esqueço da cena entre o velho professor (Victor Sjöström) e o jovem casal no quintal de veraneio. Pareceu-me revivê-la, mas do outro lado: sempre me vira do lado dos jovens, agora, que fiz anos, começo, com o velho, a aceitar a morte a chegar-se, a vida a seguir o seu curso responsável. É porque, em momentos assim, se aceita tudo — a vida, o vento, a morte, o erro até — que não temos palavras? É porque a palavra é sempre gesto de recusa perante a morte — a arte é consciência da morte?
Teria, ao recolher, lido Virgílio (está ao lado da cama, mas em Lisboa), lido Fiama (também), olhado para os desenhos de Gilles Aillaud (“Klaus Flincker em Skyros 75”: um quintal, um alpendre, ao fundo uma colina, um poste de electricidade, de costas para nós, um homem sentado ao sol, perna cruzada, lê), escolhido Espinosa para me acompanhar até adormecer. E continuo com Aillaud: “Porque a alegria conquista-se como se de uma cura se tratasse.”»
Francisco Vale


Sem comentários:
Enviar um comentário