O que distinguiu Jack Kerouac como autor foi a sua decisão de viver as sensações próprias da sua idade e do seu tempo sobre as quais desejava escrever. Frequentou regiões novas da consciência para delas dar testemunho e pagou por isso. Daí que tenha sido o principal criador e o primeiro dissidente da geração beat.
Pela Estrada Fora ligou emoções a alta velocidade a uma escrita a que Kerouac chamou «prosa espontânea» e que procurava captar a evanescente matéria da vida. O romance foi de Nova Iorque a São Francisco através da Estrada 66, ligando influências ocidentais e orientais, o Atlântico ao Pacífico, o cristianismo ao budismo zen, num tenso arco narrativo.
Mas o autor de Tristessa foi também a ilustração do verso inicial de Uivo de Allen Ginsberg, «Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos pela loucura (…)», cuja leitura na Six Gallery, em Outubro de 1955, foi a certidão pública de nascimento do movimento beat.
Kerouac nasceu em Março de 1922.
O primeiro livro que publicou, The Town and the City (1950), escrito ao longo de três anos, era influenciado pelo naturalismo de Thomas Wolfe. Teve favorável acolhimento crítico, mas Kerouac entrou em ruptura com o seu estilo, sob a influência de Neal Cassady. Foram as cartas que este lhe escreveu, «todas na primeira pessoa, velozes, loucas, confessionais, seriíssimas», o relâmpago que iluminou a escrita de Kerouac. A partir daí, acelerou a sua velocidade pessoal, com as viagens automobilísticas, os empregos precários, a marijuana e o jazz, de modo a sentir plenamente as emoções que pretendia narrar. E procurou escrever sobre elas antes de poderem ser elaboradas pela memória e trabalhadas pelo estilo. Viveu ao ritmo das batidas do coração, em uníssono com todo um grupo de escritores e poetas publicados na City Lights de Ferlinghetti (o último sobrevivente da geração beat, falecido em 2021).
Kerouac morreu aos 47 anos, solitário, alcoolizado e caótico, em St. Petersburg, Florida, destruído pelas contradições, ao procurar fazer de si mesmo um herói à altura dos protagonistas da sua ficção.
A primeira contradição foi a de ter sido um desportista que se tornou escritor. Na adolescência, em Lowell, praticava a corrida e o beisebol, o que lhe valeu uma bolsa para a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, aos 18 anos. A carreira foi interrompida por uma lesão, o que o fez alistar-se na marinha mercante e, mais tarde, na militar. Foi no regresso a Nova Iorque, aos 24 anos, que mergulhou na vida nocturna da cidade, na frequência das prostitutas, na droga e na amizade com Allen Ginsberg e William Burroughs e com delinquentes interessados na vida literária como Lucien Carr, Neal Cassady e Gregory Corso, uma vida em aberto conflito com as disciplinadas exigências do desporto.
Por outro lado, o Kerouac das viagens através dos EUA e do México, o marinheiro que, em 1943, em plena guerra, realizou perigosas viagens entre Boston e Liverpool, manteve sempre uma umbilical relação com a mãe e a casa familiar. Essa terá sido mesmo uma das razões para o fracasso dos seus dois primeiros casamentos (viveu os seus últimos anos na casa da mãe, já inválida, onde a terceira mulher, Stella, amiga de infância, filtrava as amizades e visitas que lhe tinham acesso, como revela a entrevista que lhe fez a Paris Review em 1968).
E há também a contradição entre a velocidade americana com que escreveu a versão final de Pela Estrada Fora (num rolo de 36,5 m para não perder tempo a mudar a folha na máquina de escrever) e Os Subterrâneos (três noites de escrita inspirada por Dostoiévski, de que saiu exausto e «cor-de-laranja») e a delicada lentidão com que compôs numerosos haikus, em que uma palavra pode requerer dias de meditação.
Em relação com esta bipolaridade literária, há uma outra, existencial e filosófica. Kerouac fez tudo para estimular os seus desejos. Mas ao mesmo tempo procurou no seu impreciso budismo zen a espécie de aniquilamento do desejo e até do eu que o budismo promete na chegada ao nirvana.
Kerouac era subversivo em termos pessoais e atravessou quase todas as fronteiras delineadas pelos preconceitos sexuais e étnicos dos Estados Unidos de então. Foi não apenas amigo, mas amante de Allen Ginsberg. Viajou partilhando o saco-cama com o poeta Gary Snyder. O seu companheiro da Estrada 66, Neal Cassady, era versado em reformatórios e citações avulsas de Nietzsche. Kerouac viveu algum tempo com Esperanza, uma prostituta mexicana morfinómana, que lhe inspirou Tristessa. A sua maior paixão terá sido uma rapariga negra de Nova Iorque, que surgirá como índia de São Francisco em Os Subterrâneos. Revelou enorme aptidão para consumir álcool, marijuana, benzedrina e cactos mexicanos ricos em mescalina. Mas, filho de emigrantes franco-canadianos originários da Bretanha, Kerouac sentia gratidão pelo modo como haviam sido acolhidos nos EUA. Nos últimos anos da sua vida, demarcou-se do movimento hippie, que ajudara a criar, partilhando com o poeta Gary Snyder a mochila, a nudez em grupo, a natureza e o misticismo oriental. Foi também apoiante da intervenção dos EUA no Vietname, apesar da sua recusa de todas as guerras. E criticou o aproveitamento que estaria a ser feito do movimento beat por esquerdistas, entre os quais o próprio Allen Ginsberg.
E, finalmente, há a contradição entre autor geracional e clássico.
É fácil considerar Kerouac um escritor geracional (como Fitzgerald o terá sido da era que ele próprio baptizou como a do jazz), pois a receptividade aos seus livros foi imediata, como se «uma geração inteira estivesse à espera de ser escrita» (William Burroughs). Kerouac era um narrador mais interessado em agarrar o leitor pelas entranhas, pelo ritmo e pela emoção do que pela elaboração estética associada à grande literatura.
No entanto, não deixou de ser lido quando a geração beat envelheceu (com excepção de Allen Ginsberg). Pela Estrada Fora foi escolhido como um dos cem melhores livros em língua inglesa do século xx na lista da Modern Library.
Francisco Vale


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