«Pode haver quem considere o tom de Glück demasiado confessional ou regressivo, porque identifica traumas e recorre a arquétipos, como o masculino e o feminino, ou porque utiliza imagens domésticas, como os jardins; mas se os poemas expõem conflitos, mágoas, fragilidades, o seu modo de expressão é contido e o biografismo indirecto. Segredos e agravos como a “infância equivocada” nunca são desvendados. E se a figura do pai, como a da família próxima, é omnipresente, não há grande contexto, nem a dimensão declarativa típica dos confessionais americanos, nem vestígios de exagero expressionista. Glück prefere parábolas sem ênfase, símbolos transitórios, interrogações, a passagem das estações, o choque entre a recordação estática das emoções e uma tranquilidade que nem tranquila é. “Ninguém quer ouvir/ as impressões do mundo natural”, escreve. E áceres, ásteres, lírios tardios ou ervas daninhas são antes de mais isso mesmo, coisas da terra, belas ou ominosas, um pouco irreais talvez. Um jardim é apenas um jardim, não um inexistente Éden. O que existe sem dúvida é o tempo e as vozes no tempo: “O que/ regressa do olvido regressa/ para encontrar uma voz.” Mas com essas vozes nunca há diálogo, só aproximações, impossibilidades, solilóquios: “Tal como as bétulas, assim é contigo:/ não devo falar-te/ de modo pessoal. Muito/ se passou entre nós. Ou/ foi só comigo/ que se passou? É minha/ a culpa, minha. Pedi-te/ humanidade — não necessito menos/ do que os outros. Mas a ausência/ de qualquer sentimento, do mais pequeno/ gesto de cuidado por mim — mais me valia continuar/ a dirigir-me às bétulas.”»
[Pedro Mexia, «Vozes no tempo», «E», 2021/02/05]
As obras obras de Louise Glück estão disponíveis em: https://relogiodagua.pt/autor/louise-gluck/






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