4.2.21

Sobre O Fim, de Karl Ove Kanusgård

 



«A meio do livro, Knausgård inicia um longo ensaio sobre Hitler, a sua ascensão ao poder e o anti-semitismo que assumiu como bandeira de eleição. Sabe que está a empurrar o olhar em direcção ao horror, mas força-se a esse gesto, procurando modos de forçar também a linguagem a encontrar um modo de dar forma ao inominável. Quer perceber e sabe – e assume – que não há nada que possa perceber-se fora da nossa cabeça ou longe do que somos e do que nos foi formando, pelo que esse gesto não existe fora da sua própria biografia emocional, feita de coisas que aconteceram e de coisas que foram sentidas, feita de traumas, momentos felizes e percepções do mundo e dos outros. Knausgård coloca Hitler no divã, mas a sua postura não é a do psicanalista neutral que espera que o paciente se revele. É a do inquiridor que se dispõe a fazer todas as perguntas que lhe ocorram sem se importar de assumir que tanto questiona o paciente como a si próprio. E talvez se questione mais a si próprio. Aí está a ironia do título que escolheu para a sua saga e é esse o gesto fundacional deste livro e dos cinco anteriores: mais do que qualquer outra coisa, Knausgård questiona – sobre como foi possível o Holocausto, como se decide o que se pode ou não escrever, como se avança pelo mundo sem tropeções irreversíveis, como se equilibra o quotidiano com as veredas escuras que assomam dentro de nós, como vivemos uns com os outros e connosco próprios.» [Sara Figueiredo Costa, Parágrafo, 29/1/2021. Texto completo em https://paragrafopontofinal.wordpress.com/2021/01/29/derrubar-muralhas-em-frente-ao-espelho/]


«A Minha Luta: 6 — O Fim» e outras obras de Karl Ove Knausgård estão disponíveis em: https://relogiodagua.pt/autor/karl-ove-knausgard

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